Setembro 22, 2009

Apontamentos sobre Deleuze e Guattari

D&G

Pensamentos avulsos sobre Deleuze e Guattari, tecidos por ocasião de uma troca de e-mails que não chegou a nenhum lugar específico, e que disponibilizo aqui na expectativa de algum efeito.

POIESIS
Para mim, Deleuze e Guattari é poesia e ciência, tudo ao mesmo tempo, na máxima potência. Como nos bons e velhos tempos antes de separarem o mitos do logos e essas coisas todas. Na minha opinião, o que garante o bom funcionamento da máquina literária D&G é a busca daquele arrepio que se tem quando se lê algo que muda a vida. É a abertura para um devir, uma individuação conjunta escritor-livro-leitor. Nada é garantido. Sempre haverão frases que podem colocar tudo a perder. Essa é a aventura e a beleza. Não é um sistema. Não fecha. Há sempre um resto, um excesso, algo que escapa e que garante a continuação. Estamos sempre no meio, nunca no começo e nem no fim.

SOCIUS
Sobre o socius, eu prefiro pensar segundo a formula deleuze-guattariana de que só existem duas coisas: o desejo e o socius. O desejo é o que pulsa e produz (corte e fluxo, máquinas desejantes, formação=funcionamento), espécie de élan vital bergsoniano (ou o id freudiano). O socius é o que regula, desvia, contabiliza etc (codificação, sobrecodificação, axiomatização). Desejo é produção e socius é relação. Coração (repetição) e cérebro (diferença). Assim, o socius não seria “algo” substantivo, mas sim uma certa configuração mais ou menos estável de algo que tem mais o estatuto de um movimento do que de um movente (não é algo, mas sim algo que se faz com algo; socius como movimento de associação).

MÁQUINAS SOCIAIS
Segundo entendo, o socius não evolui, ele se transforma ou “involui”, ele ganha e perde camadas. A Máquina Capitalista Civilizada (MCC) não vem “depois” da Máquina Despótica Bárbara (MDB) e da Máquina Territorial Primitiva (MTP). Elas todas coexistem e prevalecem em graus variados em cada caso (a MCC já era conjurada pela MTP e a MTP é constantemente desterritorializada pela MCC). Cada máquina promove um socius diferente, um corpo pleno diferente. Boa parte da força da tipologia deleuze-guattariana de O Anti-Édipo deriva do evolucionismo que ela empresta da sua origem morganiana. Mas são eles mesmos que falam que as máquinas já coexistem desde sempre, e isso se evidencia nas ressonâncias de seu pensamento com o de Clastres. O Estado, segundo Clastres, é pressentido pelo selvagem e por isso é conjurado. O mesmo se pode dizer do capital. A MCC é uma virtualidade da MTP, assim como a MDB, e tudo isso reciprocamente. E de fato, foi essa não-linearidade das máquinas sociais que D&G acabaram privilegiando em Mil Platôs (Clastres, vale lembrar, está no meio: ele cita O Anti-Édipo em A sociedade contra o estado e depois é citado em Mil Platôs).

MÁQUINA DESEJANTE
Uma máquina desejante não evolui, ela simplesmente produz sua própria realidade. Não entendo que uma máquina desejante/acoplamento sofra transformações ao longo do tempo. Vejo as máquinas desejantes como constituintes do tempo, do espaço, e como operando todas as transformações. A existência desejante é uma coincidência do formar e do funcionar. Não existe “forma” para ser transformada, só “formação-como-funcionamento”.

CORPO PLENO e CORPO SEM ÓRGÃOS
Quanto ao corpo pleno, eu diria que o território é o corpo pleno da MTP, o déspota é o corpo pleno da MDB e o capital é o corpo pleno da MCC. O corpo pleno de cada uma das três máquinas sociais corresponde à palavra do meio de seu nome: MTP=”territorial”=território, MDB=”despótica”=déspota, MCC=”capitalista”=capital. Já o corpo sem órgãos é outra coisa, é outra estória. O corpo sem órgãos é o fantasma de todo corpo pleno existente. Ele assombra todas as máquinas sociais. E ele é também o gozo delas. Assim, o território, o déspota e o capital (os corpos plenos existentes) podem funcionar como corpo sem órgãos, mas apenas colocando em risco suas próprias organizações. Acho que o corpo sem orgãos corresponde ao que Deleuze e Guattari chamam de plano de consistência ou de imanência no Mil Platôs. É o grau-zero do real, onde MONISMO=MULTIPLICIDADE.

MATÉRIA, NATUREZA, REALIDADE etc.
E quanto à matéria, eu a entendo como uma maneira (histórica e dominante) de representar a resistência do mundo, mas que não precisa (e nem deve, na minha opinião) ser projetada sobre todo o mundo (lembro-me aqui da “concretudo mal-colocada” de Whitehead). Tenho a mesma opinião sobre outras palavras do mesmo tipo, como, por exemplo, “natureza” ou “realidade”.

DEVIR
Eu frequentemente uso o hífen para especificar o devir ao qual estou me referindo (devir-isso, ou devir-aquilo), mas acho importante nunca dar mais atenção ao lado direito da expressão do que ao seu lado esquerdo. É o devir que importa, e não aquilo que se devém (este último é mais propriamente o fim do devir, seu esgotamento). Além disso, já fui criticado (corretamente) por ter usado a expressão “devir-branco” para me referir aos índios que estavam usando as tecnologias modernas para fazer valer seus interesses na sociedade capitalista contemporânea. O problema é que o devir é sempre um devir minoritário, nunca majoritário. Existem devir-mulher e devir-criança, mas não devir-homem e devir-adulto. Assim, devir-índio até poderia haver, mas não devir-branco. Nada disso é certeza, pois o devir não obedece às leis. Mas eu tendo a achar estranho qualquer devir majoritário, como um devir-ciência por exemplo. Aliás, eu prefiro atualmente usar o devir intransitivamente. É devir e pronto. Mas isso tudo é questão em aberto para mim.

Junho 15, 2009

Conversa com o skatógrafo Renato Custódio

Alexandre Cotinz - bs smith - Sampa (2007) - Foto: Renato Custódio
Alexandre Cotinz – bs smith – Sampa (2007) – Foto: Renato Custódio

Obs: Esta conversa ocorreu por troca de mensagens em junho de 2008 e foi ligeiramente editada para este post. Agradeço a Renato Custódio pela disponibilidade em trocar essa idéia comigo e autorizar a sua publicação aqui.

Pedro: Eu queria começar nosso papo com uma impressão bem geral sobre como é escolher (ou encontrar) um lugar na cidade para manobrar o skate. No seu caso, como skatista-fotógrafo, você provavelmente precisa procurar também lugares fotográfáveis, né? Não estou falando de pistas feitas para andar de skate, mas de lugares com funções específicas (uma calçada, uma escada, um canteiro, um bloqueio etc.) que um skatista “subverte”, transformando-os em outra coisa. Olhando fotos de skate feitas nas ruas das cidades, percebo que os picos são geralmente lugares desertos, meio abandonados, muitas vezes detonados (ou pelo menos detonáveis). São geralmente os “fundos” de alguma construção, ou então a fachada de algum estabelecimento comercial fechado, ou então os arredores de galpões ou de estruturas rodoviárias. E mesmo quando são picos no centro da cidade e em lugares movimentados, eles ficam geralmente nas partes menos visadas desses espaços, partes que normalmente não seriam vistas, usadas, e muito menos fotografadas, se não fosse pelo skate. Em outras palavras, skatistas têm uma experiência muito singular da cidade. Basta comparar a Sampa que aparece numa revista de skate e a “mesma” Sampa que aparece em qualquer outro tipo de revista: é outra cidade que aparece! Parece que picos são lugares geralmente “socialmente mortos” que voltam à vida pelo desejo de skatistas de ativá-los, de trazê-los de volta à vida – e a fotografia só amplifica e multiplica esse potencial ativador. Isso pode nos levar a assuntos controversos como a repressão ao skate em certos locais e os esforços inúteis de urbanistas em “revitalizar” zonas urbanas pela “higienização” e pela “comercialização” ao invés de estimular atividades coletivas espontâneas e genuínas como o skate. Queria então saber sua opinião sobre esse tipo de coisa, tanto como skatista quanto como fotógrafo.

Renato Custódio: Sobre o olhar pela cidade à procura de um pico para executar uma manobra (ou vice-versa: achar o pico para executar a manobra que esta no pé), muitas vezes a influência do fotógrafo ajuda bastante nesse quesito de olhar um lugar e saber um skatista que terá facilidade de andar naquele pico. Acredito que cada lugar tem sua especialidade, assim como cada skatista. Então temos que juntar o útil ao agradável para assim conseguirmos uma boa foto ou imagem.

Sobre os picos desertos, movimentados e proibidos, temos diversas classificações nesse sentido. Os monumentos normalmente são os mais preciosos e difíceis de se andar. Normalmente, se não for em lugar movimentado e com policiais passando sempre, é tranquilo ficar andando neles. Praças públicas também são sempre bem vindas, pois andar com tranquilidade, sem o incômodo de seguranças e trânsito, rende mais. Os lugares particulares com vigilância 24hrs são os mais chatos, pois na maioria das vezes dá um trabalho enorme para montar todo o equipamento de fotos e são poucas as tentativas até o segurança “tisourar” a sessão. Mas, por outro lado, se conseguirmos fazer algum registro, normalmente esses são os lugares mais “modernosos” (mármore e fachada mais clean) e, diríamos, “perfeito”, para andar de skate. Mas existem os picos que são comércio durante a semana e, nos finais de semana e feriados, ficam fechados e sem vigilância. Esses também são os mais procurados durante o fim de semana, e por isso vida de skatista, fotógrafo e videomaker tem o domingo meio que clássico para lugares desse tipo.

Voce falou tudo na hora que comparar a Sampa que aparece numa revista qualquer e a Sampa que aparece numa revista de skate. O que realmente valoriza esses lugares que chamamos de “mortos para a sociedade”, são o valor que nós skatistas damos para ele. Colocamos muita luz para destacar a manobra e o lugar no qual estamos aplicando a tal manobra. Então a luz disparada dos flashs tem um poder de deixar aquele lugar morto “mais do que vivo”, deixa ele renascido através da manobra iluminada.

O estilo do skatista influencia muito na fotografia. A expressão de cada manobra executada em determinados lugares tem uma força que é multiplicada através da dificuldade dela mesma. Portanto, quando um skatista se depara com uma foto, logo ele identifica a dificuldade que está presente ali, juntamente com o estilo da manobra executada. Por isso os vídeos também têm extrema importância no universo cultural do skate.

Pedro: A coisa dos seguranças é realmente um capítulo à parte, aliás um capítulo muito complicado, que envolve negociações também com toda sorte de “proprietários” dos picos. Mas o que mais me chamou a atenção foi o que você falou sobre reativar o espaço urbano morto, pela “manobra iluminada”. Sinto isso mesmo quando vejo fotos como as suas. As texturas dos materiais, o desgaste do tempo e do uso, ou o contraste dos materiais novinhos, lisos e reluzentes. Faz toda diferença para um skatista se a superfície é lisa ou estriada, né?

Renato Custódio: A superfície ou textura dos lugares nos quais andamos de skate é fundamental. Se o lugar tem uma superfície estriada, e a foto valoriza essa textura, isso também acaba valorizando a manobra. A dificuldade é maior. Isso contando que o lugar seja “skateável”. Os gringos, quando vêm para cá, (dependendo dos gringos) gostam desses lugares, digamos, mais “roots”, pois têm uma característica diferente da que estão acostumados. Na Europa e nos EUA existem muitos lugares lisos e perfeitos para andar de skate. Às vezes deve saturar.

Pedro: Eu queria que você falasse um pouco sobre o seu uso das lentes grande-angular (olho de peixe). Acho muito legal como esse tipo de lente ao mesmo tempo amplia o campo de visão (contextualizando o objeto fotografado) e destaca de maneira exagerada aquilo que está em primeiro plano (geralmente é o chão ou o objeto que está servindo de base para a manobra). Sinto que fotos com grande-angular tendem a aproximar, ampliar, e portanto trazer à tona, as qualidades do material sobre o qual a manobra está sendo feita. O que você acha? Como você vê o uso desse tipo de lente?

Renato Custódio: A “lente” (ou no caso da filmadora “adaptador”) fish eye é essencial para se trabalhar com o skate. Você falou tudo: temos que aproximar, ampliar, e portanto trazer à tona as qualidades do lugar sobre o qual a manobra está sendo realizada. Só que o excesso de fotos ou filmagens com fish eye cansa nossos olhos, mesmo estando acostumados com elas. Por isso, as imagens de tele [obs: lente tele-objetiva] têm um valor mais artístico, quando bem trabalhadas. Existem umas manhas para se trabalhar com a fish eye, pois ela também pode acabar estragando um lugar perfeito para uma tele. No caso de lugares relativamente pequenos para executar uma manobra, a fish eye tem mais valor. Agora quando o pico é grande, ela pode distorcer e faz perder a “grandeza” do pico, que deve existir na foto ou filmagem. Lembrando também que foto e filmagem muitas vezes seguem o mesmo enquadramento. É claro que existem as exceções. Podemos dizer que quando se aprende a trabalhar com a fish eye, isso torna mais valorizado o trabalho com a tele, pois a fish eye limita um pouco os enquadramentos mais artístiscos e perde um pouco da arquitetura que pode estar atrás dos picos.

Pedro: Eu queria saber como você vê a relação entre a imagem fixa da foto e a imagem em movimento do filme. O fato é que o skate é, sobretudo, movimento. Daí a importância das sequências de fotos nas revistas, mostrando a manobra inteira quadro por quadro. Queria saber qual é o critério para escolher se você vai fotografar ou filmar uma manobra? Ou ainda, como você decide se vai fazer uma sequência quadro-por-quadro ou apenas uma foto única da manobra? Ou é tudo misturado? E quando você tá tirando só uma foto da manobra, como você faz para apertar o botão na hora certa? Existe hora certa?

Renato Custódio: A fotografia e o vídeo estão sempre lado a lado. Na verdade é muito mais comum ter alguém filmando uma sessão de foto do que alguém fotografando uma sessão de filmagem. Aqui no Brasil, o vídeo ainda não se massificou como deveria e a revista tem mais força na história do skate brasileiro. Mas no decorrer dos anos, os vídeos devem ganhar maior importância, assim como nos EUA.
Na verdade, no meu cotidiano já tem a mesma importância, mesmo porque sempre tem alguém comigo filmando a sessão. Porém, o vídeo é mais livre, por haver a liberdade de filmar linhas e outros comportamentos que nem sempre são comuns na fotografia.

Existem muitas manobras que são mais interessantes para o vídeo e que não têm tanta força para revistas. Isso pois na revista entra somente o melhor do melhor, enquanto o vídeo tem mais abertura para mais manobras, pois não depende de impressão gráfica.

O lance de fotografar somente um quadro ou uma sequência inteira da manobra depende muito da manobra a ser fotografada e do skatista. Existem muitas manobras que ficariam incompreensíveis só com um quadro. A revista fica mais bonita tendo uma mescla de moments (um quadro somente) e sequências. Uma revista com muita sequência fica cansativa.

Quando estou fazendo o moment da manobra, tenho que saber qual é o momento em que a manobra se expressa por completo, digamos, o seu “ápice”. Cada manobra já tem o seu moment, quando os skatistas sabem que ela já foi quase completada por inteiro. É difícil explicar…

Pedro: É possível dizer, olhando a foto, se o fotógrafo acertou ou não o “moment” da manobra?

Renato Custódio: Não são todas as manobras que têm moments bonitos para uma foto. Existem manobras que ficam melhores quando fazemos a sequência dela, pois somente com o moment não se expressa toda a técnica dela. Mas por outro lado, hoje em dia estamos usando mais moments de manobras do que usávamos antigamente. Com o tempo, vamos enjoando das sequências, porque perde o valor artístico da foto. E o que você falou é certo: quando vemos uma foto, sabemos na hora se está no moment ideal ou não. Mas isso é relativo, dentro do moment ideal ainda tem micro-segundos que agradam mais a uns do que a outros.

Pedro: Queria te perguntar algo sobre uma perspectiva muito comum nas fotos de skate: a perspectiva rente ao chão. Isso me interessa pois acho que ela mostra o mundo (ou pelo menos uma parte dele) da perspectiva que interessa ao skatista, i.e., da cabeça para baixo.

Renato Custódio: Realmente, é muito comum, nós que fotografamos e filmamos skate, estarmos sempre muito rentes ao chão. Mas isso é mais quando estamos trabalhando com a fish eye, e também não é uma regra. Às vezes mudamos e fazemos de cima, ou na altura da manobra. Isso depende do tamanho do obstáculo também. Já fotografei manobra em banco baixinho que, se a foto não fosse feita bem rente ao chão, desvalorizaria o banco, que ficaria pequeno na foto. Então, muitas vezes, quanto mais rente ao chão, maior fica o obstáculo que está sendo usado para a manobra. Logo, a manobra será mais valorizada na primeira impressão.

Maio 9, 2009

II Reunião de Antropologia da Ciência e da Tecnologia (II ReACT)

IIReACT

Dedicada a estudos dos saberes e das práticas científicas e tecnológicas contemporâneas, pregressas e futuras, próprias ou alheias, mediante pesquisas etnograficamente informadas e em diálogo com diferentes tradições antropológicas, a Antropologia da Ciência e da Tecnologia é uma das especialidades da Antropologia que tem apresentado um dos crescimentos mais significativos nos últimos anos. Assim, uma primeira edição da Reunião de Antropologia da Ciência e da Tecnologia (ReACT) ocorreu em setembro de 2007 no IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro. Realizada pelo GEACT, que a nomeou, a I ReACT contou com a presença de vários antropólogos brasileiros, além de historiadores e outros cientistas sociais atuantes no país. Com intenção de tornar as Reuniões de Antropologia da Ciência e da Tecnologia atividades bienais de caráter itinerante, estamos propondo esta II ReACT. Realizada na UFMG pelo LACS, pelo PPGAN e pela FAFICH, a II ReACT pretende ter um caráter eminentemente plural e manter um compromisso explícito com a heterogeneidade das abordagens em curso; pretende também, e simultaneamente, buscar pontos de passagem ou de conexão entre estas abordagens, explorando particularmente os que dizem respeito ao lugar das pesquisas etnográficas e ao lugar das teorias antropológicas na discussão do tema em torno do qual as ReACTs se articulam. Ancorados na experiência bem sucedida da antropologia brasileira e em sua vocação para absorver, reformular e transformar tendências teóricas provenientes de outras escolas, ao mesmo tempo em que cria as suas próprias, com a realização da II ReACT acreditamos ser possível contribuir para a refiguração dos estudos sociais da ciência e da tecnologia tal como vêm sendo desenvolvidos no Brasil e no exterior por profissionais oriundos de outras especialidades, bem como contribuir para o desenvolvimento da antropologia que no país se faz.

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Dia 19

Inscrições dos participantes9h30 a 16h – Saguão do Auditório Sônia Viegas

Sessão de abertura 16h a 16h30 – Auditório Sônia Viegas

Conferência A 16h30 a 18h15 – Auditório Sônia Viegas

  • Faire science ailleurs : ethnologie d’un laboratoire japonais (Fazer ciência alhures: etnologia de um laboratório japonês) – Sophie Houdart (Paris X/CNRS)

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Dia 20

Mesa 1: Tecnociência e sociedade – 9h30 a 12h – Auditório Sônia Viegas

  • O Manifesto Humano: abelhas, “strings” e linguagem – Rodrigo Ribeiro (Engenharia/UFMG)
  • Movendo fronteiras – da política à antropologia das ciências e das tecnologias: a respeitabilidade de versões de realidade em disputa no combate à desnutrição infantil no Brasil – Ivan da Costa Marques (COOPE/UFRJ)
  • Três paradigmas das tecnociências – aspectos antropológicos – Ivan Domingues (Filosofia/UFMG)

Mesa 2: O dado, a crença e as linhagens de antropólogos – 14h a 16h30 – Auditório Sônia Viegas

  • A construção do dado: empresa científica e a construção do dado racial em finais do século XIX no Brasil – Lilia Schwartz (PPGAS/USP)
  • A crença dos modernos: da ciência da religião à constituição da sociedade – Emerson Giumbelli (PPGSA/UFRJ)
  • Três comentários cândidos sobre a antropologia da ciência – Mariza Peirano (PPGAS/UnB)

Conferência B – 17h a 18h45 – Auditório Sônia Viegas

  • Físico também é gente – Ennio Candotti (UEA e SBPC)

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Dia 21

ST1: Inovações e modelagens sociotécnicas I – 9h30 a 12h – Auditório Baesse

  • Entes inclassificáveis: Las Casas, Sepúlveda e o debate de Valladolid – Rafael A. Almeida (UFMG – Mestrando em Sociologia)
  • Terapêutica antroposófica, vitalismo e medicina – Messias Basques (UFSCar – Mestrando em Antropologia)
  • A semelhança multiplicada: tecnologias para saúde e estética em pet shops e clínicas veterinárias – Jean Segata (UFSC – Doutorando em Antropologia)
  • Matemática, ciência ou ferramenta? Discussões sobre a matemática a partir da experiência das Olimpíadas de Matemática – Gicele Sucupira (UFRGS – Mestranda em Antropologia)

ST2: Controvérsias sociotécnicas I – 9h30 a 12h – Auditório Bicalho

  • Rádios Livres: uma controvérsia no ar – Flora R. Gonçalves (UFMG – Mestranda em Antropologia – LACS)
  • Discordâncias em torno da radioatividade: imagística sexual e controvérsias científicas entre “os Curie” e seus desdobramentos – Gabriel Pugliese (USP – Mestrando em Antropologia)
  • “Se meus neutrófilos são baixos, eu também tenho um pé na cozinha?”: usos políticos da tecnologia de medição de leucócitos na articulação de idéias sobre diferença “racial” – Elena C. González (UFBA – Bolsista PRODOC do PPGCS)
  • Relações entre ciência e políticas de identidade no Brasil contemporâneo – Carolina C. Rodrigues (UNICAMP – Doutorado em Ciências Sociais)

Mesa 3: Agência dos objetos: antropomorfismo ou miriateismo? – 14h a 16h30 – Auditório Sônia Viegas

  • Pequena reflexão afro-brasileira sobre os fetiches – Marcio Goldman (PPGAS/MN/UFRJ)
  • Quando o carro “pede marcha”: reflexões em torno da querença dos objetos – Pedro P. Ferreira (CTeMe/Unicamp– II ReACT)
  • Uso de drogas e micropolíticas da possessão: notas sobre alienação (e sociedade) – Eduardo V. Vargas (PPGAN-LACS/UFMG – II ReACT)

Mesa 4: Etnologia das ciências: cosmologias alteríndias – 17h a 19h30 – Auditório Sônia Viegas

  • Entrando em órbita: repensando a agência antropológica e o posicionamento de seus satélites – Guilherme José da Silva e Sá (PPGAS/UnB– II ReACT)
  • Imagens e olhares: questões cruzadas em torno da autoria, cópia e pertencimento – Silvia Pellegrino (PPGAS/USP)
  • Recintos e evolução – Stelio A. Marras (PPGAS/USP– II ReACT)

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Dia 22

ST3: Inovações e modelagens sociotécnicas II – 9h30 a 12h – Auditório Baesse

  • A epidemia de cólera-morbus em Pernambuco em meados do século XIX: a construção de práticas e saberes médico-sanitários no combate à doença – Luciana dos Santos (USP – Doutoranda em Antropologia)
  • Notas sobre equívocos cruzados em um Distrito Sanitário Especial Indígena – Camila B.P. de Caux (MN/UFRJ – Mestranda em Antropologia – LACS/UFMG)
  • Quando a abertura de caixas-pretas é êmica: distensões e fricções de Natureza e Cultura em um laboratório de neurociências – Marcos C. Carvalho (IMS/UERJ – Mestrando em Saúde Coletiva)
  • O debate em torno da ética em pesquisa biomédica: parentesco científico e rede sociotécnica – Rui Harayama (UFMG – Mestrando em Antropologia – LACS/UFMG)

ST4: Controvérsias sociotécnicas II – 9h30 a 12h – Auditório Bicalho

  • O lugar do sensível nas práticas de classificação botânica – Joana Cabral de Oliveira (USP – Doutoranda em Antropologia)
  • Uma turbamulta de baleias incertas, fugidias e semifabulosas: notas de uma praxiografia – Orlando Calheiros (MN/UFRJ – Doutorando em Antropologia)
  • Aquecimento Global e Elaboração de Políticas Públicas: Abordando o Problema sob a perspectiva da “Terceira Onda de Estudos Sociais da Ciência” – Tiago R. Duarte (UK Cardiff – Doutorando em Sociologia)
  • Antropologia da ciência e da técnica no Brasil – Carlos E. Sautchuk (PPGAS/UnB)

Mesa 5: Culturas científicas e outras culturas 14h a 16h30 – Auditório Sônia Viegas

  • Cultura científica: um exame a partir de algumas de suas variantes históricas – Bernardo Jefferson de Oliveira (FAE/UFMG)
  • Museus de história natural em duas câmeras – Jayme M. Aranha Filho (PPGSA/UFRJ)
  • Algumas reflexões sobre equívocos entre médicos, o Estado e os Yanomami do Alto Orinoco, Venezuela – José A. Kelly (PPGAS/MN/UFRJ)

Conferência C – 17h a 18h30 – Auditório Sônia Viegas

  • The Geoid as Transitional Object (O geóide como objeto transicional) – Michael Fischer (MIT, USA)

Sessão de encerramento – 18h30 – Auditório Sônia Viegas
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Janeiro 11, 2009

Cultura tecnocientífica (Hottois)


Na Introdução de Simondon et la philosophie de la “culture technique” [Simondon e a filosofia da "cultura técnica"] (Buxelles: De Boeck-Wesmael, 1993), Gilbert Hottois afirma:

“Para G. Simondon, é por meio da Pesquisa e Desenvolvimento tecnocientíficos que o devir da humanidade é atualmente buscado. Assim, é a coevolução do homem e da técnica que se deve pensar, prevenindo os riscos de bloqueio e de dissociação, a fim de tornar essa coevolução autenticamente viável, isto é, sensata. O filósofo deve se voltar para o local onde a questão do sentido está em jogo; é por isso que a elaboração de uma cultura tecnocientífica, condição de uma gestão simbólica progressiva da coevolução do homem e da técnica, se tornou a tarefa essencial e urgente da filosofia.” (p.9-10)

O importante aqui, parece-me, é menos a especificidade disciplinar da filosofia e mais a atitude filosófica proposta por Simondon e apresentada por Hottois: buscar uma compreensão consistente do sentido da técnica, participar da construção daquilo que Simondon chamou de “cultura técnica” e que Hottois prefere chamar de “cultura tecnocientífica”.

O livro de Hottois é extremamente útil para refletir sobre as complexidades e implicações de tal tarefa. A seguir, eu me limito a apresentar uma síntese pessoal do prólogo [Liminaire] do livro, onde Hottois apresenta as linhas gerais do “debate em torno da ‘cultura tecnocientífica’”.

O prólogo começa comparando o diagnóstico de C.P. Snow (contemporâneo, aliás, de Simondon) a respeito da existência de duas culturas (uma tradicional-literária e outra moderna-científica) à perene querela entre os Antigos e os Modernos. Trata-se de uma oposição entre duas dimensões da vida humana: uma operatória (ação) e a outra simbólica (representação). Leroi-Gourhan é citado como exemplo de expressão dessa oposição quando opõe ação técnica e linguagem em Le geste et la parole.

Na seção “1. Não existe ‘cultura tecnocientífica’“, Hottois cita M. Henry (La barbarie) e J. Ellul (Le bluff technologique) como exemplos de autores que opõem radicalmente “cultura” (entendida como linguagem simbólica e representativa) e “tecnologia” (entendida como ação operatória e pragmática), tornando assim impossível a existência de qualquer coisa parecida com uma “cultura tecnocientífica”. Trata-se, segundo Hottois, de uma negação a priori, ou “analítica”, pois que baseada em conceitos falhos de “cultura”, “tecnologia” e “ciência”. Ele então se pergunta:

“o que deve ser a ciência contemporânea e a cultura humana para que qualquer coisa como uma cultura científica ou técnica seja propriamente inconcebível?” (p.18)

E a resposta é dada na forma de dois pressupostos:

“(a) a ciência contemporânea é definida como tecnociência; (b) a cultura é principalmente o domínio da expressão lingüística.” (p.18)

O ser humano é assim visto como essencialmente simbolizador e, portanto, como essencialmente distinto do domínio tecnocientífico, o que torna inconcebível uma “cultura” propriamente “tecnocientífica”.

Na seção “2. Breve retorno às ‘duas culturas’ de Snow“, Hottois confirma os pressupostos da negação de uma cultura tecnocientífica plena ou autêntica (no sentido simondoniano), pois também para Snow:

“a ciência contemporânea é tecnociência e a cultura é fundamentalmente assunção verbal da condição humana, então não pode haver qualquer coisa como uma ‘cultura tecnocientífica’.” (p.20).

Na seção “3. Os dois postulados da recusa da ‘cultura tecnocientífica’“, Hottois deriva dos pressupostos já mencionados o principal problema da recusa da “cultura tecnocientífica” no sentido simondoniano: a separação, o isolamento, da cultura e da técnica, da língua e do gesto, do sentido e da ação. Ele afirma:

“A tecnociência não deixa nenhum lugar legítimo à expressão especulativa. Essa ruptura com a cultura verbal, que é também o culto do Verbo, começa explicitamente com o nascimento da ciência moderna.” (p.22).

No entanto, Hottois faz notar, tal isolamento é problemático pois existem de fato inúmeras sobreposições entre esses pólos, e.g., os “meios simbólicos de cálculo e comunicação” da própria tecnociência e “as técnicas e as práticas, isto é, os instrumentos e os meios físicos [...] que permitem a adaptação e a interação de um grupo cultural e de seu meio natural” (p.22-3). Mesmo assim, é a oposição apriorística e problemática entre “cultura” e “tecnologia” que fará com que, atualmente, a tecnociência coloque seus valores internos (sua “cultura” no sentido fraco do termo) contra e acima das representações e ideologias políticas e culturais (também no sentido fraco do termo) que lhes seriam exteriores. O técnico-científico (objetivo, quantificável, factual) como superior ao “meramente” político (subjetivo, ideológico, matéria de opinião).

“‘Homo loquax’ deverá então, no nível da determinação mesma de sua essência, dar lugar ao ‘Homo faber’, o que então suprimirá a possibilidade mesma de toda determinação de essência, isto é, de toda totalização [bouclage] especulativa, de toda totalização simbólico-semântica.” (p.25)

Na última seção, “4. O que é a ‘cultura tecnocientífica’?“, Hottois reforça a diferença entre os sentidos fraco e forte do termo “cultura tecnocientífica”, i.e., aquele que mantém a oposição “cultura”/”técnica” e aquele que a supera. Eu cito:

“A cultura tecnocientífica é ao mesmo tempo cognitiva e prática. ela deve tornar possível uma relação ao mesmo tempo livre e responsável entre o indivíduo e o meio social tecnocientífico” (p.26).

E mais adiante:

“Uma tal cultura tecnocientífica seria universal e liberadora ao mesmo tempo para os homens e os artefatos, pois ela comporta a capacidade de organizar as máquinas em sistemas e em redes e de desenvolvê-las no sentido de seu aperfeiçoamento. Dessa perspectiva, a cultura implica também uma relação direta, concreta, com o universo técnico. [...] Graças à cultura técnica, o homem se torna o mediador-organizador do conjunto das máquinas e técnicas que já garantem, elas mesmas, uma mediação das relações entre os homens e entre os homens e o mundo. Ela permite, enfim, aceder ao sentido da beleza técnica, que postula que se compreenda a operação, a função e a estrutura dos artefatos.” (p.28)

Aqui Hottois toca diretamente na questão da tecnoestética e em como ela se liga ao conceito de “cultura tecnocientífica”.

O problema central de Hottois é, portanto, a possibilidade de existência de uma “cultura” que não seja “nem um simples jogo metafórico-metonímico e nem uma mistificação ideológica”, mas sim “um trabalho simbólico-verbal de elaboração semântico-especulativa (que comporta também, e não de maneira marginal, a expressão e a cristalização diferenciada do desejo, do afetivo e da sensibilidade)” (p.29) sobre a tecnociência enquanto tal. Para defender tal possibilidade, ele coloca “técnica” (instrumentos e habilidades) e “cultura” (símbolos e representações) lado a lado como meios sempre parciais que nós seres humanos usamos para nos “adaptar” ao nosso meio, e apresenta a “cultura técnica” como sendo uma totalização tecnocultural dessas parcialidades.

Em conclusão, Hottois esclarece ainda mais a distinção entre os dois sentidos, fraco e forte, da expressão “cultura tecnocientífica”: aquela parcial e ilusória, oficializada por Snow, que se opõe a uma “cultura tradicional-literária”; e aquela totalizante e autêntica, proposta por Simondon, que reúne os saberes técnico e filosófico em um só sistema. Eu cito:

“Uma cultura que ignora ou desvaloriza sua relação com o pensamento especulativo, isto é, que se recusa ao trabalho simbólico e reflexivo sobre sua própria organização sistemática e, simultaneamente, de seu próprio e constante questionamento radical, carece de uma dimensão essencial, tão essencial que poder-se-ia perguntar se se trata efetivamente ainda de uma cultura.” (p.32)

Minha própria conclusão quanto ao texto de Hottois pode ser resumida da seguinte forma: é preciso legitimar a extensão das questões da tecnociência para além dos técnicos e cientistas, sobretudo pois as conseqüências de tais questões serão inevitavelmente estendidas para o resto da sociedade. Em outras palavras, é o futuro do humano que está em jogo, e não podemos ficar apenas observando, sofrendo as conseqüências de ações sem sentido (sentindo o insensato). O problema, para mim, é saber como é possível o desenvolvimento de uma tal “cultura tecnocientífica” sem que todos se tornem tecnocientistas. Aí talvez esteja o papel da arte: tornar acessível, pela intuição, pelo afeto, pela sensação, aquilo que os tecnocientistas trabalham no nível da inteligência e da racionalização matemática abstrata. Será? Uma belíssima questão, mas se, como já disse Bergson, um problema bem formulado já traz em si a sua resposta, então eu não creio ter sido capaz de formulá-la adequadamente, pois não tenho, no momento, a menor idéia de como respondê-la.

Dezembro 31, 2008

Posto de gasolina

Posto de gasolina

A construção da vida, no momento, está muito mais no poder de fatos que de convicções. E aliás de fatos tais, como quase nunca e em parte nenhuma se tornaram fundamento de convicções. Nessas circunstâncias, a verdadeira atividade literária não pode ter a pretensão de desenrolar-se dentro de molduras literárias – isto, pelo contrário, é a expressão usual de sua infertilidade. A atuação literária significativa só pode instituir-se em rigorosa alternância de agir e escrever; tem de cultivar as formas modestas, que correspondem melhor a sua influência em comunidades ativas que o pretensioso gesto universal do livro, em folhas volantes, brochuras, artigos de jornal e cartazes. Só essa linguagem de prontidão mostra-se atuante à altura do momento. As opiniões, para o aparelho gigante da vida social, são o que é o óleo para as máquinas; ninguém se posta diante de uma turbina e a irriga com óleo de máquina. Borrifa-se um pouco em rebites e juntas ocultos, que é preciso conhecer.

Walter Benjamin, “Posto de gasolina”, in: Rua de mão única: obras escolhidas volume II. (trad. Rubens R. Torres Filho e José C.M. Barbosa) São Paulo: Brasiliense, 1987, p.11.

Dezembro 31, 2008

Feliz 2009

IQ 2008
Hoje é o último dia de 2008. Amanhã começa 2009. Nada além de fatos brutos.

Dezembro 29, 2008

Rosa (2002-2008)

Rosa
Ela viveu pouco… mas viveu muito!

Dezembro 28, 2008

Bazin

Pela primeira vez, entre o objeto inicial e a sua representação nada se interpõe, a não ser um outro objeto. (Bazin 1945)

Dezembro 28, 2008

Fator-T

As máquinas são sempre chaves singulares que abrem ou fecham um agenciamento, um território. (D&G-MP-4:148)

Outubro 18, 2008

Hello world!

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