Segue abaixo um diálogo com meu amigo e colega do CTeMe, Márcio Barreto. O diálogo ocorreu por meio de e-mails trocados entre outubro e dezembro de 2005 (as datas aparecem antes de cada fala), por ocasião das preparações para (e reflexões sobre) o colóquio “Einstein Hoje: Relatividade e Ciências Humanas”, que organizamos juntos. O colóquio ocorreu no Auditório I do IFCH-Unicamp no dia 7 de novembro de 2005, e contou com a presença dos debatedores Yurij Castelfranchi (integrante do CTeMe e, na época, doutorando em Ciências Sociais no IFCH-Unicamp e pesquisador do Labjor) e Mauro W. Barbosa de Almeida (antropólogo e professor do IFCH-Unicamp), e com os palestrantes André Koch de Assis e Marcelo Knobel (ambos físicos e professores do IFGW-Unicamp). Ressuscito o diálogo aqui aproveitando nossa retomada recente de um texto conjunto daquela mesma época.
PEDRO (20/10): Você considera as teorias de Einstein revolucionárias, num sentido positivo? Se sim, onde está a revolução, e por que ela é positiva?
MÁRCIO (21/10): Eu acho que as teorias de Enstein são revolucionárias na medida em que mudaram o cenário científico desde o início do século XX, em que mudaram os conceitos de espaço, tempo e gravidade e na medida em que mudaram o cenário político e militar do planeta graças a invenções como a bomba atômica e as usinas nucleares, extratos tecnológicos de um post-scriptum (E=m.c2) dos artigos de 1905. No entanto, é preciso observar que, apesar desta evidente revolução estar diante dos nossos olhos, apesar de ser praticamente consensual a opinião de que Einstein foi um revolucionário da ciência, suas teorias estão longe de terem sido assimiladas pelas pessoas em geral: o senso comum permanece atado às idéias newtonianas de tempo, espaço e gravitação. Tal “paradoxo” merece atenção e é o tema da minha pesquisa. Não sei o que quer dizer teoria revolucionária “num sentido positivo”. Você poderia me explicar melhor, por favor?
PEDRO (22/10): Por “sentido positivo” eu quero dizer algo que beneficie as pessoas, algo que conduza a sociedade e as relações humanas em um sentido que consideramos desejável. É claro que não se pode nunca agradar a todos. Estou falando de nós mesmos, uma opinião necessariamente parcial e justamente por isso política. Mas eu te devolvo agora a questão. Tendo dito que as teorias de Einstein são revolucionárias por (1) mudar o cenário científico, (2) mudar os conceitos de espaço, tempo e gravidade e (3) mudar o cenário político-militar com o “extrato tecnológico” da sua equação E=mc2 – energia atômica – eu lhe pergunto: essas mudanças são positivas? Se sim, qual é a positividade? Você poderia também estender a resposta dizendo se você considera a alegada aderência do senso comum às idéias newtonianas negativa, e por que.
MÁRCIO (24/10): Eu não diria que as mudanças são positivas: os novos conceitos físicos, as transformações do cenário científico e a energia atômica “aconteceram”. Podemos enumerar alguns benefícios como a produção de energia elétrica nas usinas nucleares, o horizonte que se abriu para a física quântica etc. Contrariamente, podemos elencar os vários malefícios como os da bomba atômica, os materias radioativos do lixo nuclear etc. Talvez a pergunta deva se deslocar do eixo positivo-negativo, pois Einstein está inserido num contexto em que ele é veículo das transformações da humanidade, mais do que um agente direto delas. O que você acha?
PEDRO (25/10): A idéia de começar com questões de valor foi justamente para colocar em questão idéias de neutralidade tecnocientífica pressupostas em expressões como “transformações da humanidade”. Que “transformações”? Qual “humanidade”? Eu me lembro de ver um filme italiano (Colpo di Luna) em que um físico tentava explicar para um homem simples do campo a importância de descobertas da física moderna. A cena era boa, pois mostrava como o camponês acreditava em tudo o que o físico falava, menos na alegada importância daquilo. Afinal, é tudo muito distante da vida dele (e também da do físico, pelo que entendi do filme). Pulando para uma defesa de tese de doutorado recentemente defendida no IFCH, lembro-me que um membro da banca, eminente biólogo molecular, confessou publicamente que apesar de se deparar cotidianamente com explicações da teoria da relatividade, ele ainda não sabe do que se trata, principalmente pois ele não é capaz de fazer nenhuma correlação com sua própria vida concreta. No entanto, como você mesmo apontou, se olharmos com mais atenção para a infra-estrutura que sustenta nossa vida contemporânea, começaremos a nos deparar com o tal “extrato tecnológico” da revolução einsteiniana. Mas então o que acontece? Parece haver um descompasso entre a revolução einsteiniana e a vida cotidiana. E parece que esse descompasso é antropométrico, no sentido de estar enraizado em nossa forma orgânica, com nossos limiares de percepção, nossos ritmos vitais (não percebemos a velocidade da luz, ou o movimento de partículas elementares, senão através de mediações tecnocientíficas). Parece que a revolução einsteiniana só é acessível realmente à alta abstração matemática, e portanto limitada a poucos cientistas e às máquinas. A humanidade transformada pela revolução einsteiniana, assim, parece ser uma humanidade extremamente restrita, no final das contas. Não seria correto dizer que a maior parte de nós permanece à revelia dessa revolução, sendo afetada (positiva ou negativamente) por alguns de seus produtos, mas sem realmente se transformar? Essa exclusão não seria preocupante se o extrato tecnológico da revolução einstiniana não fosse tão, digamos, explosivo. O que torna a inacessibilidade da revolução einsteiniana preocupante é o fato de que garante a detenção de um poder extremo nas mãos de poucas pessoas. Concentração de poder sempre existiu. Mas nunca “tanto” poder e “tão” inacessível. E é aí que fica a questão de valor. Como ficamos nós, que não temos o tempo e a inclinação para assimilar a matemática da relatividade, tampouco clareza quanto ao funcionamento das máquinas que se desdobraram dela? Somos, antes, cada vez mais sujeitados por essas máquinas. Concordo que a revolução “aconteceu” e que devemos agora olhar para frente. Mas é possível fazer isso sem considerar as implicações da extrema assimetria política que a revolução einsteiniana cria?
MÁRCIO (27/10): Em 1897, quando foi descoberto o elétron por J.J. Thomson, a ciência já havia transcendido para este plano ao qual você se refere, ou seja, acessível apenas a um círculo restrito, seja de cientistas que podem compreender os fenômenos complexos ou dos que se apropriam do conhecimento como forma de poder. As teorias de Einstein, como diz o professor Roberto Martins (revista Ciência e Cultura – SBPC, Ano 57, no 3), não seriam possíveis sem o aparato tecnológico disponível na virada do século XIX para o século XX. Em 1899, quando Rutherford Giesel tornaram possível a compreensão dos raios beta e quando a radioatividade foi descoberta, Walter Kaufmann pôde realizar experimentos nos quais a velocidade dos elétrons era próxima à da velocidade luz (entre 0,8c e 0,9c). Tais experimentos revelaram consideráveis variações na massa do elétron, as quais foram seriamente estudadas por Lorentz. Lorentz obteve a equação para a relação entre massa e velocidade e Einstein seguiu o seu caminho. As experiências com raios beta de Kaufmann já fugiam ao domínio público e já não se preocupavam mais com o bem estar das pessoas, mas na descoberta do comportamento das partículas atômicas. Os experimentos e as especulações teóricas muitas vezes surgiram de necessidades práticas, mas eram realizados nesse distanciamento da “positividade”, quer dizer , do benefício objetivado inicialmente. A ciência, a física e a teoria da relatividade de Einstein, percorrem este caminho: se depois tudo virar um bomba atômica…paciência. Acho que as teorias de Einstein não podem ser vistas sem considerá-las inseridas neste modo de fazer ciência: ela parte, segundo Peter Galison, da necessidade concreta de sincronização de relógios, revisa o conceito de simultaneidade para reinventar o próprio tempo. Tecnologicamente, ela desce a escada em silêncio e devagar, para retornar à região da positividade (ou da negatividade, dependendo do seu veículo de reentrada) sem que possamos reconhecer sua presença.
PEDRO (30/10): Se bem entendi, então, a revolução einsteiniana vem de longe, e foi apenas a consolidação teórica e tecnológica de tendências que já vinham se delineando há muito tempo. Tendências essas que apontavam para um mundo virtual inacessível à nossa experiência antropométrica mas totalmente real e acessível através da abstração matemática e de máquinas de alta precisão. Talvez por isso esteja tão na moda hoje em dia falar da obsolescência do humano. Mas se diversos pensadores têm razão em dizer que o humano não pode estar obsoleto pois ainda não realizou todas as suas potencialidades, então talvez as tendências extra-humanas que einstein consolidou tecnocientificamente só sejam “extra” humanas pois ainda não foram realizadas no ser humano. Você vê alguma possibilidade de a tecnociência se reconciliar com a experiência antropométrica? Um homem relativista, ou uma relatividade humana?
MÁRCIO (31/10): Você me pergunta se eu vejo alguma possibilidade de a tecnociência se reconciliar com a experiência antropométrica. Acho que você tocou num ponto que considero importante. O humano esgotou suas possibilidades de aceder à tecnociência através da experiência antropométrica porque a via de acesso escolhida é a da inteligência que, a partir de um ponto do caminho, tende para uma virtualização inacessível aos sentidos. No entanto, como a intuição é parte do humano, eu acredito que aí está outra via de acesso complementar à da inteligência, mas que pode nos levar à relatividade humanizada, por exemplo, ou, se você preferir, ao humano relativizado. Não podemos conceber inteligentemente e sensitivamente o tempo relativo ou o espaço de quatro dimensões, mas podemos sonhar: quando a inteligência relaxa e dá espaço à intuição durante o sono, e, assim, ter a experiência (antropométrica?) do tempo relativo. Isso me fez lembrar que num outro dia você enviou para mim um trecho de A evolução criadora no qual Bergson diz:
“O metafísico que trazemos inconscientemente em nós mesmos, e cuja presença se explica, como veremos adiante, pelo próprio lugar que o homem ocupa no conjunto dos seres vivos, tem suas exigências definidas, suas explicações prontas, suas teses irredutíveis: reduzem-se todas à negação da duração concreta. É preciso que a mudança se reduza a um arranjo ou a um desarranjo de partes, que a irreversibilidade do tempo seja uma aparência relativa à nossa ignorância, que a impossibilidade de voltar atrás não seja mais que a incapacidade do homem de recolocar as coisas no lugar. Desde então, o envelhecimento só pode ser a aquisição progressiva ou a perda gradual de certas substâncias, talvez as duas coisas ao mesmo tempo. O tempo tem, para um ser vivo, exatamente tanta realidade quanto para uma ampulheta, na qual o reservatório de cima se esvazia enquanto o reservatório de baixo se preenche e na qual podemos recolocar as coisas no lugar virando o aparelho.”
Bergson, a meu ver, crítica a maneira como somos deterministas e pensamos o tempo como o cientista (newtoniano) o concebe. Em outras passagens, como na arguição que ele fez à fala do Einstein em 1922, ele se refere ao senso comum explicitamente como sendo próximo ao tempo einsteiniano. Me parece que ele critica o nosso “vício” metafísico newtoniano que esconde uma metafísica do tempo que é einsteiniana. Você, bem-humoradamente, comenta que, “segundo essa leitura de Bergson, achamos que somos newtonianos mas na verdade somos todos einsteinianos enrustidos”. Eu acho que é isso mesmo: se a intuição ocupasse o lugar da inteligência, esse lado enrustido “sairia do armário”. Somos viciados na inteligência e temos a intuição atrofiada, ou “enrustida”. Penso o mesmo em relação ao acesso à ciência do complexo, que aponta para o virtual: apenas esse lado enrustido pode dar conta da transcendência; ou o humano está mesmo obsoleto.
PEDRO (1/11): A física einsteiniana, com sua quantificação e espacialização do tempo, não é justamente o oposto do método intuitivo bergsoniano, preocupado com a qualidade da duração? Pelo que entendo de Bergson, o newtonismo do senso comum é fruto das necessidades práticas da vida (comer, morar, sobreviver, se comunicar etc.). Esse é o trabalho da inteligência. E não é esse o trabalho que Einstein leva ao extremo? Provavelmente sim, o que talvez explique o fato de Bergson aproximar o senso comum tanto de Newton quanto de Einstein. Trata-se sempre de espacializar a duração, de controlar/quantificar a matéria. Certamente que experienciamos existencialmente as múltiplas contrações da duração em ocasiões como a do sonho, mas não é ingenuidade (ou mesmo contraditório segundo os conceitos bergsonianos) compará-la simetricamente ao conhecimento operacional das propriedades físicas da matéria? Não que meus sonhos não tenham nada a ver com a bomba atômica (provavelmente têm), mas como falar de “relatividade humanizada” ou “humanidade relativizada” sem cair no aparente ridículo (ou pelo menos na ingenuidade) de equiparar o controle tecnocientífico da matéria (poder bélico, econômico, político) ao contato filosófico com a duração (totalmente desvalorizado em nossa sociedade)?
MÁRCIO (2/11): A comparação entre a inteligência levada ao extremo na teoria da relatividade com os tempos múltiplos vividos nos sonhos é ingênua, como você diz, quando valoramos os procedimentos da inteligência e da intuição, quando acreditamos ser nobre o contato filosófico com a duração e de menor valor o controle tecno-científico da matéria. Distante desta valoração, vemos que ambas as aproximações são, sem dúvida, de natureza diferente e talvez por isso sem possibilidade de comparação, mas de igual validade se considerarmos que, segundo Bergson, inteligência e intuição são complementares, visto que opostas. Num extremo está a relatividade, no outro a experiência dos sonhos: aventuras complementares do espírito humano. Por isso é possível uma relatividade humanizada, vista como um extremo oposto cuja complementariedade a experiência dos sonhos nos oferece.
PEDRO (2/11): Concordo que a matéria não se importa com questões de valor, e que portanto físicos em ação também tenham essa capacidade esquizofrênica de esquecer momentaneamente que são seres humanos, que têm família, que falam uma língua específica, que precisam mentir para conseguir financiamento do Estado, ou que precisam vender produtos para conseguir financiamento privado, que têm sonhos etc. Mas você acha mesmo possível entender a física para além de seu domínio estritamente técnico e científico sem considerar questões de valor? A “relatividade humanizada” de que você fala, fruto da complementaridade efetiva entre intuição e inteligência, me faz lembrar os xamãs indígenas, que são capazes de alcançar um alto domínio técnico de experiências extáticas, das quais o exemplo mais comum é o sonho. Xamãs aprendem a controlar os processos do mundo dos sonhos; eles sabem como interpretá-los de uma maneira extremamente inteligente e prática, uma maneira capaz de causar transformações no mundo e nas pessoas. Isso sim me parece uma complementaridade efetiva entre intuição e inteligência. (o principal aqui não é a natureza “boa” do xamanismo – xamãs também são feiticeiros e podem causar o “mal” – mas sim o fato de que eu percebo uma real sinergia entre o sonho e o seu controle prático, intuição e inteligência andam lado a lado, uma não vai aonde a outra não a acompanhar). Mas a física (e principalmente a física pós-Einstein) me parece muito distante disso. Ela não parece ser a contrapartida de um processo intuitivo. Antes, ela parece ser a hipertrofia de uma inteligência totalmente desgovernada, que coloca um poder absurdo nas mãos de pessoas que parecem ter a intuição atrofiada (processo esse que começou muito antes de Einstein, talvez com pensadores como Descartes). Os átomos não têm memória. Eles são puro presente, ação-reação. Mas pessoas têm memória, e podem escolher iniciar reações em cadeia por motivos os mais mesquinhos. Não consigo parar de pensar em questões de valor pois me recuso a despolitizar o debate em torno do extrato tecnológico da revolução einsteiniana. Você colocou a relatividade e os sonhos como extremos opostos, aventuras complementares do espírito humano. Eu gostaria então que você me convencesse de que a experiência do sonho realmente acompanha a teoria da relatividade em todas as suas implicações. A teoria da relatividade permitiu aumentar absurdamente o poder de muito poucas pessoas. E os sonhos? Temos sonhos à altura da teoria da relatividade? Existe realmente uma intuição que chega até lá?
MÁRCIO (4/11): A teoria da relatividade nasce em Einstein aos dezesseis anos, quando ele sonha que está viajando num raio de luz e observa a onda luminosa “parada”. Não haveria aí a interpretação de uma intuição? Ele soube interpretar o sonho de uma maneira extremamente inteligente e prática, uma maneira capaz de causar transformações no mundo e nas pessoas, como um xamã? Se sim, isso não despolitiza o debate, mas invoca a questão do valor: por que a sinergia do xamã é “positiva” e a do Einstein uma “negativa”? Entendo que a do Einstein aumentou absurdamente o poder nas mãos de poucos; mas, se estamos falando em sinergia entre o sonho e seu controle prático, se xamãs e poderosos podem fazer “bem” e “mal”, a questão do valor torna-se secundária quando o interesse é a busca de uma humanidade completa que transitaria livremente entre intuição e inteligência. Se não, se os sonhos de Einstein e do xamã são de naturezas distintas, bem como suas interpretações, parece que eu tenho que te convencer de que temos sonhos à altura da relatividade e que a experiência do sonho acompanha a teoria. Mas acho que, neste ponto, eu não me fiz entender. Porque não acho que seja possível entender a física sem levar em conta questões de valor, nem acho que ela incorpora, implicitamente, uma intuição que não enxergamos. Não penso que temos sonhos à altura da relatividade. Como você, penso que
“a teoria não parece ser a contrapartida de um processo intuitivo. Antes, ela parece ser a hipertrofia de uma inteligência totalmente desgovernada, que coloca um poder absurdo nas mãos de pessoas que parecem ter a intuição atrofiada (processo esse que começou muito antes de Einstein, talvez com pensadores como Descartes).”
O que eu penso é que a relatividade, fruto da inteligência, apresenta uma multiplicidade do tempo que é banal para a intuição na experiência dos sonhos. Se a inteligência hipertrofiada chegou a essa multiplicidade, porque não a reconhecemos de imediato na experiência dos sonhos? Por que valorizamos a obra da inteligência e desprezamos a manifestação intuitiva. Para mim, esta é a questão de valor que importa. O privilégio da inteligência vai gerar as questões de valor que inquietam você. Uma humanidade completa veria com simplicidade a multiplicidade do tempo, já que levaria em conta a intuição e certamente saberia como tirar proveito “positivo” da sinergia entre sonho e praticidade. Não acho que não há uma correspondência biunívoca entre o tempo na relatividade de Einstein e a multiplicidade temporal dos sonhos, mas acredito que a dificuldade em perceber o parentesco revela uma questão de valor: preferimos deixar a física na redoma da inteligência e suas aplicações positivas e negativas entregues à força dos baixos instintos humanos, sem ouvir o que os sonhos insistem em nos mostrar.
PEDRO (10/11): O que é que nossos sonhos insistem em nos mostrar? Lembro-me de um sonho que você me contou recentemente, em que você “era” um caminhão em alta velocidade, vendo o asfalto correndo rapidamente diante de seus olhos localizados abaixo da caixa de câmbio e escutando o barulho infernal do motor e das engrenagens. Para mim, esse sonho ilustra muito bem a situação de uma intuição atenta mas impotente diante de uma inteligência totalmente poderosa mas desgovernada. Acho esse sonho muito mais xamânico do que a abstração de Einstein, pois me parece mais atento à vida. Você sugere que há uma infeliz desvalorização da intuição em nossa cultura, que prefere supervalorizar a inteligência. Concordo. O sistema está tão preocupado em chegar “lá” que nem mais se pergunta o “motivo” disso, “como” se fará isso, ou mesmo “o que é” isso. O importante é que as máquinas funcionem, pouco importa se nossos sonhos nos dizem que elas estão desgovernadas… Você não acha que essa hipertrofia da inteligência em detrimento da intuição está diretamente ligada ao desenvolvimento do sistema capitalista global a partir do século XIX, que colocou o “quanto vale” (valor de troca abstrato) acima da “qualidade” (valor de uso concreto)?
MÁRCIO (18/11): Acho que a referida relação é estreita, embora o período em que a consciência, no homem, foi tendendo para a inteligência e deixando a intuição em sua periferia é de uma escala milenar, enquanto o capitalismo se desenvolveu numa escala secular. Mas, desde o final do século XIX até hoje, os ritmos da evolução científica pela via inteligente e o galope do capitalismo parecem ter entrado em ressonância. Tomemos (pra “ variar”) a questão do tempo. Faz um século que a Relatividade radicalizou na concepção inteligente do tempo espacializado, no tempo tomado por sua medida. Não importa se o universo tem duas, três ou quatro dimensões: o capitalismo se adequou bem ao tempo confundido com o espaço, com uma medida que pode ser decomposta em meses e anos nos calendários, em horas, minutos e segundos nos relógios. Este tempo, que Einstein apenas remete para um complexo sistema de equações decolou junto com o capitalismo para a virtualização.
Quando Bergson percebe que a relatividade era fruto da inteligência hipertrofiada, ele tenta inserir a duração como um contraponto.Por que não deram ouvidos a Bergson? Eu penso que é porque a durée não interessa ao capitalismo. O capital devora, se apropria de toda a duração para vendê-la em minutos, segundos, horas ou dias. O capital precisa enlatar o tempo e por isso a fragmentação da duração lhe cai bem. Quando tempo e dinheiro se igualam (o que só é possível negando-se a duração) o capitalismo pode operar vendendo a ilusão da duração, transformando o apelo intuitivo que ela tem em fetiche, em promessa de reconquista através de mercadorias como seguros, pacotes turísticos, automóveis…e papéis. Mas a devolução da durée que o capitalismo associado à tecnociência inteligente sufoca nunca é restituído e o jogo consiste em nos deixar correndo atrás do próprio rabo, o que faz girar o motor do sistema.
PEDRO (20/11): Estamos plenamente de acordo. O capitalismo é apenas a consolidação sociológica de uma tendência imanente ao humano: a inteligência (i.e., o senso prático, a sobrevivência). Trata-se de transformar a realidade (iclusive a vida humana) numa imensa coleção de objetos e colocar etiquetas com preços (ou qualquer valor quantitativo) em cada um deles. Nesse sentido, a revolução einsteiniana foi uma radicalização (pelo potencial tecnológico) de uma tendência ancestral à dominação e ao controle do mundo pela divisão da duração (espécie de realidade pré-individual) em objetos e momentos distintos. O problema então parece ser que essa radicalização deixou algo para trás. O quê? Poderíamos dizer: a intuição como acesso à experiência concreta e cotidiana dos tempos múltiplos não espacializados. Mas então eu pergunto: se a experiência dos tempos múltiplos não-espacializados não é valorizada em nossa sociedade justamente por não ser instrumental, então como seria possível conciliá-la com a teoria da relatividade, coisa que nem mesmo Einstein e Bergson conseguiram fazer? Não seria o insucesso do encontro Einstein-Bergson causado pelo fato (que jogo pra você como proposta e provocação) de que a função da intuição é muito mais transformar a teoria da relatividade evidenciando seus limites do que complementá-la correndo atrás dela?
MÁRCIO (23/11): Eu também acho que a intuição modifica a relatividade, pois ela leva em conta o tempo vivido e o tempo na teoria de Einstein é um tempo morto, mais até do que em Newton, para quem o espaço era o sensório de Deus. A intuição não está mesmo, no caso Bergson x Einstein, correndo atrás da inteligência pedindo reconhecimento. O fracasso da discussão entre eles (concordando com você, eu creio) deveu-se principalmente à rejeição da intromissão da durée bergsoniana na teoria.
O tempo espacializado da relatividade é revolucionário, mas apaenas no sentido de dar um “up grade” na espacialização anterior. A complexificação do espaço-tempo, esta virtualização radical, ocorre em sincronia com o processo de complexificação e de virtualização do capitalismo. Ao sistema, não interessa a duração de Bergson.
Não acredito que a complementaridade entre intuição e inteligência (ou entre a multiplicidade do tempo nos sonhos e na Relatividade) seja simples e de extensa fronteira, mas ambas se tocam num ponto estreito, como tocam-se corpo e alma no cérebro. A inteligência traduz em símbolos o que, para a intuição, é indescritível, mas capturável. Claro que as naturezas dos dois aspectos da consciência são opostas mas uma transmite à outra um pouco da sua luz. Por isso há um lampejo de multiplicidade atual do tempo na experiência dos sonhos e um quê de sonho na multiplicidade virtual do tempo relativísticos. A tênue linha que une os dois extremos é nada interessante ao capital, que tampouco se sente por ela ameaçado pois, quando Bergson tenta mostrar os limites da Relatividade, o próprio senso prático do sistema trata de ensurdecer e ridicularizar a via intuitiva.
PEDRO (27/11): Mas então eu repito minha pergunta: se não há interesse pela durée bergsoniana em nosso sistema de valores atual (político e econômico), e se nem mesmo Bergson e Einstein foram capazes de efetuar essa complementaridade que você vê como possível entre as múltiplas contrações da duração e os tempos múltiplos da relatividade, então será que não é muito mais coerente usar a teoria bergsoniana da duração como instrumento de transformação da teoria da relatividade do que buscar uma conciliação entre elas? A diferença me parece grande entre as duas propostas. Transformar a teoria da relatividade a partir de Bergson parece ser reconhecer o valor do filósofo assim como os limites do físico. Conciliar Bergson e Einstein, como se os múltiplos tempos da relatividade e as múltiplas contrações da duração fossem dois nomes para a mesma coisa (sonhos etc.), me parece ser repetir a já velha injustiça com o filósofo em benefício do físico que então passa indevidamente por filósofo (mais uma promessa de reconquista de um tempo nunca reconciliado).
MÁRCIO (1/12): O problema que você aponta consiste na impossível transposição, por equivalência, entre a multiplicidade da duração e o tempo múltiplo relativista. E você está certo. Reconheço que sua crítica é pertinente, mas devo dizer que não é isso que eu penso, não é isso que eu quero dizer. Penso que a ciência não tem a palavra mais forte que supera a especulação filosófica e é isenta de politização. Minha intenção não é dizer que a Relatividade traduz de maneira bela e simples o “mecanismo” da intuição e que uma é análoga ao outra. Bergson, penso eu, percebeu isso e, de fato, não conseguiu a reconciliação entre ciência e filosofia.
Acredito, porém, num ponto de contato entre inteligência e intuição. A relatividade, criada pelo senso comum, ou seja, pelo sentido prático da vida, escapou do senso comum, tornando-se inacessível à experiência sensível por sua complexidade simbólica. Assim, penso que Bergson percebeu a decolagem da inteligência hipertrofiada em detrimento ainda maior da intuição. É na patinação da inteligência, que cria uma teoria que parece insultar a própria inteligência pela sua incompreensibilidade, que Bergson sente a necessidade gritante de reintroduzir a metafísica na física, pois esta já não dá mais conta de responder, sozinha, às questões do espírito. Vista apenas como uma criação mental, a Relatividade é “relativizada” por Bergson. Talvez seja por aí que ele e Capek utilizam os sonhos para curto-circuitar o privilégio da inteligência.
O capitalismo beneficia-se do privilégio da inteligência, conforme nossa concordância anterior neste diálogo, e isso já é uma dificuldade quase intransponível para as intenções bergsonianas, quanto mais para as minhas. Ainda creio que o ponto de contato entre inteligência e intuição, entre corpo e alma, entre matéria e memória indica a direção em que se deve caminhar para tentar desfazer o mal-entendido do qual o capitalismo se beneficia e, por isso, protege; mas, assim crendo, ainda preciso encontrar o caminho.
PEDRO (3/12): Concordo que o melhor é, como você mesmo disse, “recolocar a questão dos sonhos numa perspectiva diferente”. Afinal, a relatividade pode ser inútil durante o sonho, mas pode ter muitas relações com a maneira como fazemos sentido dele quando acordamos.