Sociologia e Antropologia segundo Eduardo Viana Vargas

Encontrei um bom comentário sobre as relações entre Antropologia e Sociologia numa entrevista com o antropólogo e sociólogo Eduardo Viana Vargas publicada na edição de dezembro/janeiro de 2000/2001 da Comunidade Virtual de Antropologia. A entrevista foi realizada por ocasião do lançamento do livro Antes Tarde do que Nunca: Gabriel Tarde e a emergência das ciências sociais” (Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000), de Vargas.

>> Comunidade Virtual – Considerando que você é antropólogo, fez mestrado no Museu [Nacioal, UFRJ] (este livro é resultado de sua dissertação de mestrado), gostaríamos de entender um pouco mais sobre esta relação Antropologia/Sociologia. Como o olhar de um antropólogo percebe a obra de um sociólogo? Faltou alguma coisa em Tarde por ser sociólogo? Onde a Antropologia e a Sociologia se separam e se encontram?

Eduardo – As relações entre Antropologia e Sociologia são complexas, objeto de longa e interminável discussão. Não acredito na existência de uma fronteira absoluta separando as duas disciplinas. Isso não quer dizer que elas se confundam de modo inextricável. É possível perceber a existência de certas tradições no modo de encaminhamento das reflexões (privilégio de certas abordagens, de certos objetos ou de certos métodos) que, num certo nível, nos auxiliam a distingüi-las. Assim, para além das distinções mais convencionais entre, de um lado, uma disciplina que privilegia a análise de sociedades outras e uma que privilegia a análise das nossas sociedades, uma que privilegia o uso de métodos qualitativos e outra que privilegia os métodos quantitativos, distinções estas que, diga-se logo, são problemáticas, já que a Antropologia não se dedica apenas ao estudo das sociedades ditas “primitivas”, não se vale somente dos métodos qualitativos, nem dispensa abordagens de cunho sociológico em suas análises (é preciso, portanto, ter cuidado para não reificar essas distinções, caso contrário elas não se prestariam a outra coisa senão ao reforço das distinções “totêmicas”, por assim dizer, próprias ao métier), talvez fosse possível dizer que uma das marcas características da Antropologia seja, como notara Foucault, sua capacidade em nos apresentar materiais que colocam em questão nossas certezas teológico-filosóficas, inclusive aquelas relacionadas às possibilidades de produção de um conhecimento “científico”, no sentido mais positivista do termo, o que garante à antropologia uma impressionante potência crítica que é responsável por boa parte do seu encanto, ao mesmo tempo em que permite que se levante contra ela uma série de ressalvas oriundas de perspectivas tidas como mais “cientificistas”. Talvez seja um pouco por conta disso que, ao investigar o processo de emergência das Ciências Sociais tal como ele se deu na França do final do século XIX eu tenha sido levado a concentrar minha atenção não exclusivamente em Durkheim, mas no intervalo que o separa das várias outras tentativas que então estavam em curso no sentido da produção de um saber sociológico. Quanto a Tarde, jurista de formação, ele escreveu obra de Sociologia, mas também de Direito, de Filosofia, de Economia, de Psicologia, além de obras literárias. Se tem um campo que, no sentido mais clássico, Tarde não penetrou foi no da Antropologia. Ele não fez pesquisa de campo de tipo etnográfica, nem utilizou, a não ser de modo muito liminar, materiais provenientes do estudo de sociedades ditas “primitivas”. Em suma, se Tarde foi inúmeras coisas, certamente antropólogo ele não foi. No entanto, não deixa de ser curioso que, ainda assim, sua teoria social esteja alicerçada precisamente em uma das categorias mais caras à Antropologia, a saber, à da diferença. Pois foi seu interesse por produzir uma teoria social onde a categoria de diferença ocupa um lugar central que, como antropólogo, eu me interessei por sua obra e seu pensamento.

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