Manuela Carneiro da Cunha durante apresentação no evento Quartas Indomáveis, no Departamento de Ciências Sociais (DCSoc) da UFSCar. No quadro, uma síntese da relação entre cultura e “cultura”. A antropóloga fez questão de dizer algumas vezes que sem os óculos escuros (de grau) não conseguia enxergar as pessoas da platéia.
Nesta quarta-feira dia 31 estive na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) para assistir à palestra da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha nas já consolidadas Quartas Indomáveis do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS). Carneiro da Cunha falou sobre seu texto “Direitos intelectuais indígenas, “cultura” e cultura: uma perereca e outras histórias” – que foi publicado (em uma outra versão) em seu livro Cultura com aspas (São Paulo: Cosac & Naify, 2009) – para um auditório lotado com pessoas sentadas no chão e em pé do lado de fora. Foi uma apresentação breve, mas bastante completa (uma aula sobre o uso político da noção de “cultura”, pode-se dizer), seguida de muitas perguntas do público.
A idéia apresentada é complexa e não deveria ser reduzida em poucas palavras, mas se eu tivesse que fazê-lo, diria que girou em torno das implicações da apropriação do conceito antropológico de cultura (grafado sem aspas para conotar algo como a cultura “em si”) pelos povos que foram tradicionalmente estudados pela Antropologia. O que acontece quando esses povos passam a falar de sua própria “cultura” (agora grafada com aspas, para conotar a cultura “para si”, uma meta-cultura, ou algo do gênero), querendo com isso falar sobre algo que, presume-se, os antropólogos entendem por esta palavra? De início, muitos mal-entendidos.
Para começar, os próprios antropólogos deixaram de usar essa palavra mais ou menos na mesma época em que os povos que eles pesquisavam começaram a usá-la (mas não por este motivo, ou nem sempre). Mas a própria idéia de que povos tradicionais só tenham passado a falar de sua própria “cultura” a partir da apropriação deste conceito antropológico já é um mal-entendido, e a antropóloga demonstra bem como uma idéia objetivada e instrumental de algo que poderíamos chamar de cultura já pode ser encontrada nas próprias tradições de muitos desses povos (não entrarei em detalhes aqui).
A leitura do texto de Carneiro da Cunha é imprescindível para qualquer um interessado nos problemas contemporâneos ligados à propriedade intelectual, em particular no que se refere à regulamentação em torno dos direitos de propriedade sobre conhecimentos tradicionais. Gostaria de destacar aqui apenas dois pontos do texto.
Um deles é marginal à principal linha argumentativa, mas chamou a minha atenção pela clareza e economia com que abordou um tema que alguns gastam páginas e mais páginas de discurso infértil. Trata-se de uma passagem na qual Carneiro da Cunha considera brevemente os motivos pelos quais povos como os Kayapó preferem usar a palavra “cultura”, em português, para se referir a elementos de sua vida que poderiam perfeitamente ser designados por palavras em seu idioma nativo:
- “Usar palavras de empréstimo é o mesmo que declarar sua intraduzibilidade, um passo que não é ditado por limitações lingüísticas e sim por uma opção lingüística. Essa afirmação, que à primeira vista pode parecer tautológica, tem um significado importante: as palavras emprestadas contêm informação meta-semântica. Sinalizam o fato de que, embora haja outros meios possíveis para a comunicação semântica, houve a escolha de mantê-las explicitamente ligadas a um determinado contexto. As palavras de empréstimo devem ser entendidas, por convenção, segundo uma certa chave. Em outras palavras, indicam o registro de sua própria interpretação.” (p.61)
A leitura dessa passagem me remeteu imediatamente ao uso de palavras em inglês por falantes de outros idiomas, como o português. A questão não é trivial, mas a idéia de que o uso da palavra estrangeira é, em si, um índice de acionamento de uma chave semântica contextualmente negociada me pareceu iluminadora de uma via de investigação que é muitas vezes ignorada por pressupostos envolvendo relações de poder pré-estabelecidas em campos lingüísticos pré-constituídos.
O outro ponto do texto que eu gostaria de destacar aqui é uma de suas principais teses, aquela da relação entre cultura (sem aspas) e “cultura”. Me limitarei aqui a citar passagens do texto de Carneiro da Cunha nas quais ela: (1) apresenta a natureza lógico-analítica, e não necessariamente empírica ou fenomenológica, da distinção proposta; (2) evidencia que cultura (sem aspas) se refere a uma lógica interna a uma dada sociedade (com todos os problemas dessa noção) enquanto “cultura” se refere a uma lógica interétnica (i.e., uma relação entre diferentes sociedades, como quando a palavra “cultura” permite que membros de uma dada cultura falem sobre sua própria cultura); e (3) encerra o texto com uma visão otimista (ainda bem!) dos paradoxos imanentes ao uso social (e sempre político) da linguagem, como quando uma cultura fala sobre si mesma.
- “Qualquer língua que seja suficientemente expressiva para poder fazer citações, e que portanto seja dotada de auto-referência, leva a paradoxos. Se se quiser evitá-los, pode-se escolher entre resignar-se a não poder dizer tudo — e a língua será incompleta — ou poder dizer tudo, mas nesse caso proferindo sentenças contraditórias. É preciso optar — e esse é o cerne do teorema de Gödel — entre completude e coerência. Russell, evidentemente, havia escolhido a coerência, sem saber aliás que Gödel provaria que isso implica a incompletude. Mas só lógicos e advogados exigem coerência. A escolha do senso comum privilegia a completude, e é por isso que nós, antropólogos, que lidamos com o senso comum, estamos mais interessados em linguagens completas. Assim como quase todo mundo, inclusive os índios no Brasil. De modo que é em plena consciência, e em concordância com uma convenção clássica, que escolho colocar “cultura” entre aspas quando me refiro àquilo que é dito acerca da cultura. [...] [A]s pessoas tendem a viver ao mesmo tempo na “cultura” e na cultura. Analiticamente, contudo, essas duas esferas são distintas, já que se baseiam em diferentes princípios de inteligibilidade. A lógica interna da cultura não coincide com a lógica interétnica das “culturas”.” (p.51)
- “A linguagem ordinária, como disse acima, prefere a completude à consistência, e se permite falar sobre tudo. Movimenta-se sem solução de continuidade entre cultura e “cultura”, e não dá atenção a distinções entre linguagem e metalinguagem, ou fatos contemporâneos e projetos políticos. Como a completude prevalece sobre a consistência, aquilo que outros chamam de incoerência tem pouca importância. É num mundo assim, com a riqueza de todas as suas contradições, que temos a sorte de viver.” (p.65)
































