Imagens da visão


Segue abaixo uma passagem de um texto meu que será publicado em breve na revista Ciência e Cultura:

[…] [A]lém de gerar uma representação visual entendida como objetiva, a câmara escura também se tornou uma representação objetiva da própria visão, entendida como a projeção de uma imagem no fundo do olho (retina) a partir de um cone de luz que penetra por um orifício controlado (a pupila). Crary mostra isso em La dioptrique [01], na forma como René Descartes, ao aproveitar o célebre experimento do padre alemão Christopher Sheiner e inserir um olho biológico com o fundo descascado (de forma a expor o verso da retina) no orifício pelo qual a luz exterior entra controladamente dentro da câmara escura, fez desse olho uma câmara escura em seu próprio direito – e da câmara escura, “[f]undada nas leis da natureza (ótica) mas extrapolada para um plano fora da natureza” (na forma de artifício), um “ponto de vista privilegiado para o mundo análogo ao olho de Deus” [02].

“A câmara escura, com sua abertura monocular, se tornou um terminal mais perfeito para o cone da visão, uma encarnação mais perfeita de um ponto único do que o inconveniente corpo binocular do sujeito humano. A câmara, em certo sentido, era uma metáfora para as possibilidades mais racionais de um observador em meio à crescente desordem dinâmica do mundo.” [03]

O experimento de Sheiner celebrado por Descartes se, por um lado, ajudou a desacreditar as teorias emissivas da visão (baseadas na emissão de luz pelo olho) reinantes até então [04], por outro fortaleceu a ideia (atribuída originalmente a Johannes Kepler) de que a visão envolve a formação de uma imagem retiniana análoga à formada numa câmara escura ou em um de seus principais desdobramentos tecnológicos, a câmera fotográfica. A visão é aqui, como a fotografia para Philippe Dubois [04], uma “economia geral da luz”, sua gestão cuidadosa tendo em vista a produção de uma imagem fiel da cena observada.

“Partamos do mais banal. Para fazer um retrato, é claro que é necessário ter luz para iluminar o sujeito; é necessário que o mesmo irradie, que a luz emane dele para atingir e queimar essa “película tão sensível”, tão reativa às suas emanações que ela conservará sua impressão. Ao mesmo tempo e paradoxalmente, também é necessário que essa luz deixe de ser, se quisermos que a imagem apareça finalmente: a revelação faz-se na câmara escura. […] A luz é, portanto, o que é necessário ao surgimento da imagem, mas é também o que pode fazê-la desaparecer, apagá-la, eliminá-la por inteiro: é preciso se proteger dela tanto quanto procurá-la. Em suma, o corpo fotográfico nasce e morre na luz e pela luz.” [05]

Mas se esse “corpo fotográfico”, e para todos os efeitos, nesse contexto, esse “corpo da visão”, “nasce e morre na luz e pela luz”, ele também já nasce, de certa forma, morto, na medida em que encontra sua imagem acabada na retina descascada de um olho retirado de um animal recém-abatido. Dubois [06] conta que, em 1870, um médico membro da Sociedade de Medicina Legal de Paris apresentou, num artigo publicado na Revue Photographique des Hôpitaux de Paris, um “estudo fotográfico da retina de sujeitos assassinados”. O objetivo da investigação era, aparentemente, verificar a utilidade de se procurar, nas imagens residuais da retina (resultado do fenômeno de retenção retiniana) de pessoas assassinadas, provas ligadas ao crime, em especial que permitam a identificação do assassino. Apesar de não terem tido tanta serventia criminológica, os assim chamados “optogramas” bem que poderiam ter gerado alguns retratos reveladores de fisiologistas que, em nome do avanço da ciência, sacrificaram animais apenas para encontrar, no fundo de seus olhos, a janela de seus próprios laboratórios [07]. […]

NOTAS:
[01] Descartes, R. La dioptrique. Leyde, 1637.
[02] Crary, J. Techniques of the observer: on vision and modernity in the nineteenth century. Cambridge: MIT Press, 1996, pp.48.
[03] Crary, J., 1996, Op. cit. pp.53.
[04] Se bem que já foram propostas interessantes sobrevivências dessas teorias emissivas da visão na forma daquilo que ele chama de “olho mau [evil eye]” e de “raios de amor [love beams]”, e mesmo na experiência genérica de “se sentir observado” (cf, Gross, C. G. “The fire that comes from the eye”. The Neuroscientist 5(1):58-64, 1999). Outro possível exemplo contemporâneo interessante é a função háptica da visão, proposta por Gilles Deleuze em seu estudo sobre Francis Bacon: “falaremos de háptico […] quando a visão descobrir em si mesma uma função de tato que lhe é característica, e que pertence só a ela, distinta de sua função ótica. Diríamos, então, que o pintor pinta com os olhos, mas apenas na medida em que toca com os olhos.” (Deleuze, G. Francis Bacon: lógica da sensação. (Trad. Roberto Machado et al.) Rio de Janeiro: Zahar, 2007 [1981], pp.156).
[05] Dubois, P. O ato fotográfico e outros ensaios. (Trad. Marina Appenzeller) Campinas: Papirus, 1993 [1983], pp.221.
[06] Dubois, P., 1993 Op. cit. pp.221.
[07] Não me parece aceitável, por exemplo, naturalizar o tipo de comportamento estimulado neste tipo de descrição tão comum em textos de fisiologia da visão: “Se você fizer um animal vertebrado olhar para uma janela e então desligar a luz e imediatamente matar o animal, removendo seu olho e tratando-o com certos reagentes químicos, você verá a imagem da janela na retina.” (Von Buddenbrock, W. The senses. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1958, pp.21).

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Aula Magna Mauro de Almeida (22/04)


É com prazer e alegria que anuncio aqui a Aula Magna que o professor Mauro William Barbosa de Almeida, do Depto. de Antropologia do IFCH/Unicamp, ministrará hoje, dia 22 de abril de 2015, às 19h, no Auditório II do IFCH. O professor Mauro teve grande influência em minha formação acadêmica, tendo servido como exemplo e inspiração para minhas escolhas e atitudes como pesquisador e professor. Tive a felicidade de poder contar com ele em minha banca de defesa de Doutorado em 2006, e de ter me tornado colega dele no IFCH em 2011. Sua obra riquíssima merece ser melhor conhecida pelas novas gerações de cientistas sociais, motivo pelo qual propus que ele fosse o homenageado deste ano nas Aulas Magnas do Curso de Graduação em Ciências Sociais. Nos vemos lá!

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O preço e o valor de um Silva

Segue abaixo uma curta passagem editada de um texto que escrevi em co-autoria com Guilherme F. Paciornik, e que será publicado em breve na revista Filosofia e Educação.


[…]
Em 1978, Cleodon Silva (1949-2011) vivenciou ativamente sua primeira greve. Trabalhava, então, na metalúrgica Barbará, na zona sul de São Paulo. Nesse período, desenvolveu mecanismos de comunicação operária interna à fábrica: comprava os jornais, tirava fotocópias e montava uma publicação alternativa. Silva orquestrou todo um conjunto técnico para promover a reflexão de seus companheiros, uma “técnica para o enfrentamento” ao lado de tantas outras mobilizadas por ele em favor da luta dos trabalhadores (cf. Paciornik 2013:199).

“[C]hegava cedo, comprava o jornal e, nas minhas idas ao banheiro, eu recortava os artigos e, com um bastão de cola, montava os artigos do jornal de interesse ali. Inclusive, quando estava anunciando as primeiras greves, eu montava um jornalzinho dentro do banheiro da fábrica, cortando, e colocava em um plástico. […] Aí colocava dentro de uma pasta de desenho e, na hora do almoço, ia numa ótica que tinha perto, tirava 10, 15 cópias. No almoço já começava a circulação das notícias dos jornais que interessavam à luta dos trabalhadores. […] Colocava as coisas e escrevia uma pergunta, alguma coisa entre uma matéria e outra. Com lápis, com caneta mesmo fazia, em letra de forma, algumas perguntas para orientar a discussão. E isso era de uma eficácia enorme. A gente colocava dentro de um plástico, porque o pessoal trabalhava muito com óleo […]. De um lado estava o desenho [técnico da peça que estava sendo produzida], do outro lado, o boletim. O pessoal lia, inclusive, na hora do trabalho […], mas se chegasse um chefe, um encarregado, qualquer coisa, era só virar a página com o desenho da peça que você estava produzindo. Então tinha esquemas de burlar a vigilância e o controle patronal.” (Silva, in: Paciornik 2013:195).

Ainda em 1978, a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (OSM, de cuja direção Silva participou entre 1971 e 1972 e em 1975) ganhou as eleições sindicais, mas não tomou posse. A ditadura interveio, através do Ministério do Trabalho, e empossou novamente Joaquim Santos Andrade, o “pelego” Joaquinzão, como presidente do sindicato. O documentário Braços cruzados, máquinas paradas, de 1979, dirigido por Roberto Gervitz e Sérgio Toledo, registra esse momento histórico, contando, inclusive, com uma fala de Silva no episódio dessa eleição sindical. Com a fama de ser da direção da OSM, somada ainda com a assunção da identidade de Pedro Macambira (pseudônimo sob o qual Silva publicou cordéis militantes entre 1978 e 1990), começou a ficar cada vez mais difícil para Silva conseguir emprego em fábricas. Passou a ter de se transformar para cada entrevista: “Tive que aprender e desenvolver toda a técnica de falsificação de carteira profissional. A minha questão era falsificar para trabalhar”. (Silva, in: Paciornik 2013:199).

Em 1987, em mais uma disputa do sindicato dos Metalúrgicos, a OSM conseguiu a lista de filiados do Sindicato, e coube a Silva a “saga” de passar os dados daquela fita magnética para disquetes – na época 3:4, os “bolachões”. Silva viajou até Belo Horizonte para transferir os dados na sede do sindicato dos bancários, tendo sucesso na operação e voltando a São Paulo com caixas e caixas de disquetes com a informação dos filiados. Na capital paulista, encontrou um programador que trabalhava com banco de dados, e acompanhou os passos desse profissional enquanto ele fazia a transferência e lia os disquetes. “Fiquei ouvindo o programador discutir com o computador como se este fosse uma pessoa, e [fiquei] pensando naquilo”, relata. Foi a primeira vez que ouviu falar em banco de dados e em como organizar a informação.

Pouco depois, duas preocupações o levaram a procurar um programador. A primeira era a realização do mapeamento das empresas metalúrgicas na cidade, criando microrregiões, para que os militantes pudessem ter maior conhecimento das fábricas nesses espaços delimitados. A segunda, no campo da saúde, se tratava de referenciar os trabalhadores das fábricas ao sistema público de saúde. Isso era importante pois os médicos das fábricas, em lugar de assessorar os trabalhadores, frequentemente se limitavam a informar os patrões sobre as doenças, permitindo que estes demitissem funcionários antes que os sintomas se agravarem, o que criava obstáculos para demonstrar que um eventual problema de saúde fora causado pelo processo produtivo de uma fábrica específica, e responsabilizá-la por isso. O programador procurado então lhe explicou que, se a informação estivesse disponível no formato adequado, seria possível fazer uma programação que contemplasse as demandas de Silva.

“Pronto, isso mudou minha vida. […] Foi quando eu vi pela primeira vez a lógica da programação, a articulação dos códigos de programação. […] Mudou tudo na minha vida. Tudo que eu estava fazendo, todos os limites que eu estava encontrando foram sendo quebrados” (Silva, in: Paciornik 2013:203).

Silva foi aos poucos migrando para a discussão de sistemas de informação. É a partir daí que começa seu trabalho de localização da informação no espaço urbano, programando ainda em DOS e relacionando o dado que estava no computador com o mapa em papel que estava ao lado. Em 1988, fundou o Instituto Lidas – Ligas em Defesa do Ambiente e da Saúde, originariamente voltado para a questão do ambiente e saúde do trabalhador, mas que, a partir de 1990, começou a se dedicar também à questão de políticas urbanas com ênfase nos filhos de trabalhadores. O Lidas existe até hoje e sempre serviu como um ambiente de trabalho para Silva, auxiliando tanto em suas necessidades materiais como no financiamento das lutas nas quais se envolvia.

Em 1992, pelo Instituto, Silva apresentou um projeto junto à ECO 92 que partia de uma ideia interessante e nunca antes realizada: fazer o cruzamento da malha urbana de ruas com o mapa de bacias e sub-bacias hidrográficas e com o cadastro industrial do Senai de empresas com mais de cinco trabalhadores. Na época, a representação na tela do computador ainda não era em mapas (não se visualizava com imagens gráficas), mas Silva fazia a transposição gráfica dos dados para mapas de papel.

“Numa sub-bacia, se eu encontrasse no córrego mercúrio ou chumbo, metais pesados, pelo código de atividade econômica das empresas daquela sub-bacia, eu inferia quem trabalhava com chumbo. Porque o código da atividade econômica diz o que produz. E pelo que produz você sabe se contém chumbo ou não. Com rápidas aproximações […] eu estava com todas as empresas que destinavam os efluentes para o córrego sem tratamento.” (Silva, in: Paciornik 2013:204).

Infelizmente, o projeto foi muito mal aceito pelos empresários e pela área do governo responsável pelo Programa de Despoluição do Tietê à época, pois a ideia central do programa não era, segundo Silva, a efetiva despoluição do Tietê:

“[O] programa de despoluição foi usado por uma determinada faixa de empresários, que tinha alguma influência, que pegava o dinheiro da despoluição do Tietê pra reequipar, fazer inovação tecnológica na maquinaria. Na verdade não foi para despoluir, foi utilizada essa grande massa de dinheiro por interesses particulares.” (Silva, in: Paciornik 2013:204)

Em moldes semelhantes, durante o governo de Luiza Erundina na cidade de São Paulo, entre 1989 e 1993, Silva fez o georreferenciamento de crianças nas creches, cruzando os dados de localização de creches e de moradia e trabalho dos pais, de forma que as crianças pudessem ir de fato para a creche mais conveniente e com o menor deslocamento possível.

“Nós cadastramos todas as crianças que estavam em creches. Relacionei a moradia da criança com o trabalho do responsável dela: moradia e trabalho, do pai e da mãe. Então a gente sabia exatamente qual era a situação para racionalizar a utilização do sistema. Ou não se deslocar muito tempo com a criança nesses ônibus lotados. Tem muitos e muitos casos em que a mãe sai 5h da manhã com a criança no colo. Poderia deixar a criança numa creche próxima da casa, evitaria o deslocamento da criança.” (Silva, in: Paciornik 2013:204)

Outra experiência que o marcou foi georreferenciar, para o Sindicato dos Motoristas de São Paulo, todos os dados profissionais e de moradia dos filiados – quem era da comissão de garagem, quem era da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) etc. “Foi um fiasco”, conta Silva. Em um primeiro momento, os representantes do Sindicato ficaram maravilhados, mas, pouco depois, admitiram que fizeram um pacto para recusar o sistema. A justificativa era simples, conta Silva: “Porque se uma tendência (interna do sindicato) pegasse aquilo ia acabar com as outras. A questão da transparência, um monte de coisas ficava muito visível.” (Silva, in: Paciornik 2013:205).

“Foi uma grande decepção da minha vida. Quando eu descobri uma coisa que ia ajudar o enfrentamento e a luta dos trabalhadores, verifiquei que isso daí, dentro do movimento sindical, não tem vez. […] Pode entrar qualquer coisa, mas […] transparência, não […] entra nesse movimento sindical que nós temos. E essa não foi a primeira não. Tive outras experiências com o movimento sindical. É tanto que, agora, eu não tenho interesse nenhum em atender qualquer solicitação do movimento sindical. Às vezes eu vou, só para ver se tem algum sinal de vida, […] mas não tem. […] Inclusive uma agora, recente […] Era a coisa mais horrorosa que tem. Queria utilizar tudo só do ponto de vista do controle, realmente na questão do controlar, monopolizar e estabelecer pensamento único. E, aí, o preço que eu cobrei, não se dispuseram a pagar.” (Silva, in: Paciornik 2013:205)

[…]

Referência:
PACIORNIK, Guilherme F. 2013. Movimentos sociais e as novas tecnologias da informação e comunicação: um estudo de caso na zona sul da cidade de São Paulo, a Casa dos Meninos. Dissertação de Mestrado. Campinas: Programa de Pós-Graduação em Sociologia do IFCH/Unicamp. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000920115

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Tadeu diz que greve é legítima e responsabiliza USP pelo impasse


A crise orçamentária da USP (Universidade de São Paulo), provocada por equívocos de gestão cometidos pela reitoria da universidade nos últimos quatro anos, é a responsável pelo atual impasse nas negociações da campanha salarial que culminou com a greve nas três universidades estaduais paulistas. Esta avaliação ficou clara no debate realizado na sede da ADunicamp, no último dia 27/06, entre o reitor da Unicamp, professor José Tadeu Jorge, e os professores que estão em greve há mais de 30 dias.

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Unhappy Unicamp (2014)


A trilha sonora não é das melhores, mas as imagens compensam.
Para onde vamos?…

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NTICs e socialidade contemporânea: uma entrevista


Segue abaixo uma entrevista que cedi à jornalista Flaviana de Freitas e que foi usada na matéria “Viciados em mobilidade”, publicada no número 17 (pp.22-8) da Revista do Comércio de Jahu. Tentei responder às perguntas da melhor maneira possível (por email, pelo celular…), tentando ao mesmo tempo não ser muito acadêmico e nem muito superficial, por isso achei que a entrevista merecia ser publicada na íntegra aqui (com pequenas revisões). Para mim, a maior dificuldade nesse tipo de situação é o fato de que as respostas às perguntas precisam envolver, via de regra, desconstruções das próprias perguntas, dada a quantidade de pressupostos problemáticos implícitos e implicados nas perguntas. Mas mesmo assim acho válido o esforço, no sentido de ampliar possíveis efeitos de minhas pesquisas no mundo extra-acadêmico. Meus agradecimentos à jornalista pela entrevista!

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Por que a sociedade contemporânea é cada vez mais dependente de tecnologias?
De uma perspectiva sócio-antropológica, nossa dependência de tecnologias existe desde as origens da humanidade. Desde a pedra lascada somos “dependentes” de tecnologias, em parte devido à nossa própria constituição orgânica, mal servida de armas e proteções naturais (orgânicas), mas muito bem dotada de capacidades cognitivas. Assim, não vejo a sociedade contemporânea como cada vez mais dependente de tecnologias, pois toda sociedade o é. O que vejo é uma transformação nas tecnologias das quais somos dependentes, de tecnologias mecânicas e ligadas ao movimento (engrenagens, motores etc) para tecnologias informacionais e cibernéticas (computadores e sistemas de informação).

Isso revela uma maior carência da sociedade em geral, que encontra nas redes sociais e nos aplicativos de celular uma forma de estar mais próxima dos outros?
Prefiro não interpretar como “carência” algo que vejo simplesmente como uma característica de uma sociedade. Isso seria etnocentrismo ou mesmo senso comum. A partir desta perspectiva, as redes sociais digitais e os aplicativos de celular contribuem sim, para um novo tipo de proximidade entre as pessoas, um tipo que não existia antes, e que não elimina, mas se acrescenta àqueles que já existiam antes (e os transforma). É verdade que esse novo tipo de proximidade digital tem certas contradições, como a impessoalidade e a aparente perda de sentido de termos como “amizade”, mas é sempre mais interessante tentar entender como essa aparente impessoalidade e perda de sentido, na verdade, revelam novas formas de o ser humano viver em sociedade, novas formas de se conceber a amizade, em lugar de julgá-las por critérios tradicionais.

Qual é a consequência que o uso intenso de tecnologia gera para as pessoas?
Isso depende daquilo que se considera “intenso”, do tipo de tecnologia, e do tipo de pessoa. No geral, podemos notar que o uso intenso da tecnologia tende a tornar as pessoas mais sedentárias por um lado, mas também mais flexíveis e plurais por outro lado. Ou seja, o corpo vai perdendo a importância como meio de transporte e de ação, mas a mente vai se ampliando com um maior acesso à cultura, ao conhecimento, e à diversidade. Mas isso depende, varia caso a caso. Podem haver situações opostas, como no caso dos esportes extremos, que exigem muito mais do corpo, ou no caso de grupos de internet que fomentam a segregação social, o preconceito, e a violência, que em lugar de abrir a mente, intensifica o seu fechamento em preconceitos.

Hoje em dia, vemos grupos de pessoas que, apesar de estarem juntas, ficam cada uma conversando virtualmente pelo celular? Isso revela individualismo?
Isso depende do caso, evidentemente, mas se a pessoa está conversando virtualmente pelo celular, presume-se que ela esteja conversando com outras pessoas, e portanto não revela exatamente um “individualismo”, mas sim novas maneiras de se relacionar, que já não dependem mais apenas do contato direto. Muitas vezes, em lugar de promover um individualismo, a comunicação por celular potencializa as relações sociais. Isso se dá principalmente no caso de pessoas que, sem essa mediação, não conseguiriam se comunicar, e que com ela passam a poder (por exemplo, pessoas em países diferentes, ou que pertencem a grupos sociais que tradicionalmente não se misturam). Por outro lado, o contato direto tem a sua especificidade e o seu valor, e é de fato estranho ver como as pessoas preferem ficar olhando para a tela de seu celular a olhar para as pessoas ao seu redor. Isso pode, sim, acredito, contribuir para isolar as pessoas de seu entorno. Assim, existem muitas possibilidades, e acredito que cada caso deva ser entendido em sua especificidade.

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O que eu tenho a ver com a Licenciatura em Ciências Sociais?


No dia 19/03/2014, às 17h, na Sala Multiuso do IFCH, inauguraremos o novo evento periódico “Prosa Sociológica”, promovido pelo Departamento de Sociologia (DS) do IFCH, com uma conversa sobre o nosso curso de Licenciatura em Ciências Sociais. Promovida pelos docentes Pedro Ferreira e Mariana Chaguri, a conversa envolverá os seguintes pontos: (1) um relato franco e aberto sobre o estado de nossa Licenciatura, especialmente no que se refere a planejamento curricular e projeto de curso; (2) apresentação do estado atual das políticas educacionais vigentes e de seus efeitos sobre nosso curso de Licenciatura.

Esta conversa faz parte de um esforço mais amplo da Comissão de Graduação do Curso de Graduação em Ciências Sociais de reformulação de nosso curso, em especial da Licenciatura. Por isso, é fundamental a participação dos discentes e também de docentes dos quatro departamentos envolvidos no curso.

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