O motorista é o limite do automóvel

A maneira mais simples de definir um “carro autônomo” é como um carro capaz de transportar seus passageiros sem a necessidade de um motorista humano, usando apenas sensores e sistemas inteligentes. Carros autônomos (ou parcialmente autônomos) estão sendo atualmente desenvolvidos por todas as grandes marcas de fabricantes de automóveis, mas desafios técnicos e jurídicos ainda precisam ser equacionados para que eles se tornem uma realidade cotidiana. Enquanto isso, seria o caso de explorar algumas implicações da ideia de “carro autônomo”, assim como dos desafios que ela ainda encontra.

Carros autônomos substituem motoristas humanos?
Como bem argumentou o filósofo Gilbert Simondon, as máquinas têm o potencial de liberar o ser humano de todo trabalho mecânico, repetitivo, ou, no limite, de qualquer atividade que se resuma a um mecanismo ou a um programa de ação. Dessa perspectiva, um piloto automático não substitui o humano, apenas finalmente assume um trabalho que, desde o início, é mecânico, liberando o humano para outras atividades. A concretização social das tecnologias da informação no final do século XX expandiu esse potencial liberador também para atividades cognitivas e simbólicas, com consequências ainda desconhecidas.

Esta visão das máquinas como liberadoras de potenciais ainda desconhecidos do humano poderia ser qualificada como otimista (talvez até tecnofílica), e desta perspectiva soaria bastante improvável num mundo capitalista. Afinal, o motorista seria liberado para quê? Para criar novas possibilidades de existência humana, ou para trabalhar ainda mais, agora também no tempo em que antes ficava ocupado com o trânsito? Sabemos que, no capitalismo, essa liberação vem ao custo de novas formas de exploração do trabalho – em especial no setor de serviços, nas redes digitais e nas indústrias criativas.

Em síntese: se por um lado as tecnologias da informação liberam o ser humano, cada vez mais, de atividades que não exigem sua atenção para serem realizadas; por outro lado cabe a este ser humano liberado aprender a aproveitar melhor sua nova situação.

Coletivizar o auto para individualizar o móvel
Se aceitássemos que a plena realização do automóvel envolve a sua autonomia, então o automóvel deixaria de ser visto como algo que está sob o controle do motorista individual, e passaria a ser entendido como um sistema que transporta passageiros, uma rede de transporte coletivo. O automóvel que herdamos do século XX ainda é, dessa perspectiva, uma versão muito rudimentar de um possível sistema de transporte coletivo. Assumindo o automóvel individual (sob controle do motorista) como o elemento principal do sistema, perdemos de vista justamente a sua principal função: transportar. Se esta função orientasse mais o desenvolvimento do sistema, passaríamos gradualmente de um sistema centrado na insustentável autonomia individual do carro para um sistema baseado numa maior autonomia individual do passageiro, o que equivaleria, em essência, a uma passagem do transporte individual para o transporte coletivo, agora informatizado e, por assim dizer, “inteligente”.

Acredito que o maior problema com relação à proposta dos carros autônomos é o fato de que, nela, o possível ex-motorista, via de regra, aproveita o seu novo espaço de liberdade repetindo as mesmas ações que ele já fazia antes, só que agora inclusive nos momentos em que normalmente estaria ocupado guiando o automóvel: a possibilidade do novo é reduzida a mais do mesmo. Seja correndo atrás do trabalho atrasado, seja consumindo produtos da indústria do entretenimento, o ser humano acaba aqui não realizando, em si mesmo, em sua subjetividade, a transformação que o carro já realizou na sua objetividade. O carro se autonomiza, mas não o motorista, que permanece preso a seus hábitos herdados e concretizados no automóvel individual.

Idealmente, carros autônomos poderiam transformar o sistema de transporte numa espécie de imenso complexo de trens, cujos vagões se engatariam e desengatariam em pontos específicos do trajeto, de acordo com origens e destinos individuais. Transferindo a atenção do meio de transporte para aquilo que é transportado, o automóvel passa, de uma máquina sob controle do motorista, para um veículo num sistema de transporte.

É difícil abrir mão do hábito do controle individual
Há alguns anos fiz uma pequena pesquisa sobre como motoristas encaram a tendência de substituição do câmbio manual pelo câmbio automático, e encontrei duas posições diferentes. Havia um grupo de pessoas que considerava o câmbio automático um alívio, pois com ele elas não precisavam mais se preocupar com as mudanças de marcha, sabendo que o carro fazia as trocas de maneira calculada, economizando gasolina e preservando os mecanismos do carro. Já outro grupo considerava o câmbio automático uma ameaça ao controle que o motorista tinha sobre o carro, em especial no que se refere à decisão sobre o melhor momento para mudar de marcha em situações de arranque, ultrapassagens, subidas etc.

Inspirado em Simondon, concluí que o primeiro grupo estava mais sintonizado com a tecnicidade do sistema de transporte, realizando, como motoristas humanos, as transformações realizadas no mecanismo do carro, enquanto o segundo grupo parecia não querer assumir a evolução do modo de existência do sistema de transporte, antes impondo sobre ele um tipo de relação assimétrica do tipo senhor/escravo, o automóvel devendo ser submisso às vontades de seu motorista.

Anúncios

Comentários desativados em O motorista é o limite do automóvel

Arquivado em Uncategorized

Ação-rede em Bruno Latour

Este post é uma versão editada de uma seção de Ferreira (2017).

Fig.01: Centro de cálculo. Fonte: Latour (2004:55).

Latour foi um dos poucos cientistas sociais contemporâneos que pensaram seriamente o processo de reticulação nos coletivos humanos. A ação-rede latouriana pode ser entendida como uma “uma grande rede, em forma de estrela, de mediadores que entram e saem dela” e que “existe em função de seus laços” (Latour 2005:217; cf. Fig.01). Ou, numa outra formulação, como: “uma forma de estrela com um centro rodeado por muitas linhas irradiando com todo tipo de pequenos canais de saída e de entrada” (Latour 2005:177).

A ideia latouriana do “centro de cálculo” como “ponto de passagem obrigatório” e “posição estratégica” sintetiza a imagem da ação-rede como uma mediação entre centro e periferia: o centro agindo sobre a periferia graças à ação informadora da periferia sobre o centro. O centro de cálculo se torna, assim, um ponto estratégico, privilegiado, ponto de distribuição da ação, ponto de passagem obrigatório para a existência dessa ação-rede, ponto de conversão entre as perspectivas do envolvido e do envolvente.

Quando alguém pergunta de que modo a geometria ou a matemática “abstrata” pode influenciar a “realidade”, na verdade está admirando a posição estratégica assumida por aqueles que trabalham nos centros com formas de formas. Estes deveriam ser os mais fracos, por estarem mais distantes (como muitas vezes se diz) de qualquer “aplicação”, mas, ao contrário, podem ser os mais fortes pela mesma razão, já que os centros acabam por controlar o espaço e o tempo: eles desenham redes que se interligam nuns poucos pontos de passagem obrigatórios. Uma vez que todos os traçados tenham sido não só escritos no papel, mas reescritos de forma geométrica e re-reescritos na forma de equação, não é de admirar que quem controla a geometria e a matemática seja capaz de intervir em quase todos os lugares. Quanto mais “abstrata” sua teoria, maior sua capacidade de ocupar centros dentro de centros (Latour 2000a:398-9).

No centro, posição estratégica, se encontra todo o instrumental da matemática e da geometria; na periferia, agem os referidos “lugares”, a “realidade”, o espaço, o tempo, i.e., tudo o que puder ser controlado à distância, de maneira distribuída, a partir do centro; entre os dois, transitam aqueles que “controla[m] a geometria e a matemática”, sendo capazes de “intervir em quase todos os lugares”, os móveis imutáveis que circulam incessantemente, levando informação da periferia para o centro (input), e ação do centro para a periferia (output). Como corolário dessa ação-rede-como-centro-de-cálculo, temos que: é a capacidade dos matemáticos e geômetras (móveis imutáveis) de estabelecerem correspondências entre as formas e fórmulas (centro) e a “realidade” (periferia), que faz os geômetras e matemáticos munidos de formas e fórmulas efetivamente envolverem aquilo que os envolve (i.e., a “realidade”).

“Prestemos atenção”, Latour (2004a:46-7) pede, “à inversão das relações de força entre aquele que viaja numa paisagem e aquele que percorre com o olhar o mapa recém-desenhado”:

[M]apas e placas, alinhados uns aos outros e mantidos ambos por grandes instituições […] nos permitem passar do mapa ao território, negociando com cautela a enorme mudança de nível que separa um pedaço de papel, que dominamos pelo olhar, de um lugar onde moramos e que nos cerca por todos os lados (Latour 2004a:60).

Envolver aquilo que nos envolve, ressoar de maneira mais completa com o meio, pode ser visto como o índice de uma certa tensão pré-individual com o meio (cf. Ferreira 2017). O viajante com mapa é um móvel imutável, um viajante capaz de mobilizar, localmente – i.e., na periferia do esquema -, recursos distribuídos por todo o território, mas que permaneceriam distantes e inacessíveis, sem ação capitalizadora do centro – i.e., sem os mapas, que concentram informações antes distribuídas pelo território, propiciando a ação sobre ele. Passando de um viajante-envolvido-por-uma-paisagem, para um viajante-que-envolve-uma-representação-fiel-do-território-mais-amplo-no-qual-se-encontra-essa-paisagem, o viajante consegue colocar um pé no centro de cálculo e, assim, impulsionar sua ação na periferia. Como corolário dessa ação-rede cartográfica, temos que: é a capacidade dos viajantes (móveis imutáveis) de estabelecerem correspondências entre o mapa (centro) e a paisagem (periferia), que faz viajantes com mapas efetivamente envolverem aquilo que os envolve (i.e., o território).

Outro exemplo instrutivo da ação-rede latouriana é o caso do moinho de vento, que se tornou um ponto de passagem obrigatório quando uniu, mecanicamente, a força indomável do vento ao movimento regular de um moedor:

Como se valer do vento? Como levá-lo a relacionar-se com o trigo e o pão? Como translacionar sua força de tal maneira que, seja lá o que ele faça ou deixe de fazer, o trigo fique sempre bem moído? […] [Como] interessar o vento na fabricação do pão [?] […] Complicadas negociações precisam estar sendo feitas o tempo todo […] para que as alianças provisórias não se rompam. […] Por exemplo, os grupos de fazendeiros que foram reunidos podem […] perder o interesse. Quanto ao vento, […] [ele pode s]implesmente varrer com seu sopro moinhos frágeis, rasgando pás e asas. O que o mecânico deve fazer para manter o vento em seu sistema de alianças, apesar do modo como ele muda de direção e de força? Precisa negociar. Precisa criar uma máquina que seja receptiva ao vento, mas também imune a seus efeitos indesejáveis […]. Naturalmente, há um preço para isso, pois agora é necessário ter um número maior de manivelas e um complicado sistema de rodas, mas o vento estará transformado em aliado confiável. Por mais que ele sopre, seja qual for sua vontade, o moinho reagirá como uma só peça, resistindo à dissociação, apesar ou por causa do maior número de peças de que agora é constituído. O que acontece às pessoas que se reúnem em torno do moleiro? Elas também estão definitivamente “interessadas” no moinho. Queiram o que quiserem, por melhores que sejam no manejo do pilão, o caminho delas agora passa pelo moinho. Assim, elas são mantidas sob controle, tanto quanto o vento. […] [O] moinho transformou-se em ponto de passagem obrigatório das pessoas, por causa do trigo e do vento. (Latour 2000a:213-4)

Duas realidades, antes disparatadas, entraram em comunicação graças a uma mediação disparadora de uma nova individuação coletiva: a realidade envolvente (a periferia, i.e., a energia do vento, o trigo, as pessoas etc.) e a realidade envolvida (o centro, i.e., o mecanismo do moinho) entram em correspondência por meio de complicadas negociações e alianças provisórias, coordenadas por um mecânico (móvel imutável). Como corolário dessa ação-rede mecânica, temos que: é a capacidade dos mecânicos (móveis imutáveis) de estabelecerem correspondências entre o mecanismo do moinho (centro) e o mundo (periferia), que faz os mecânicos efetivamente envolverem aquilo que os envolve (i.e., o mundo).

Um ponto de passagem obrigatório é, para Latour (2000a:230) um tipo de caixa-preta que “concentra em si o maior número possível de solidíssimas associações”, um “número […] tão desproporcional [de associações] que realmente mantém no lugar a multidão de aliados”; um nó de rede, uma ação-rede, um ponto privilegiado a partir do qual é possível acessar, localmente, potências distribuídas, que são inacessíveis de outra forma, mas que também passa a dominar e coagir as ações que ele atrai e processa. Ao representar graficamente esse processo (cf. Fig.02), Latour, enfatizou a maneira como novas agências são compostas pela estabilização de associações de outras agências.


Fig.02: Processos de associação. Fonte: versão editada de Latour (1994:37).

REFERÊNCIAS
FERREIRA, Pedro P. 2017. Reticulações: ação-rede em Latour e Simondon. Eco-Pós 20(1):104-35.
LATOUR, Bruno. 1994. On technical mediation: Philosophy, Sociology, Genealogy. Common Knowledge 3(2):29-64.
__________. 2000. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. (Trad.: Ivone C. Benedetti) São Paulo: Editora UNESP.
__________. 2004. Redes que a razão desconhece: laboratórios, bibliotecas, coleções. In: André Parente (org.). Tramas da rede: novas dimensões filosóficas, estéticas e políticas da comunicação. (Trad. Marcela Mortara) Porto Alegre: Sulina, pp.39-63.
__________. 2005. Reassembling the social: an introduction to actor-network theory. Oxford: Oxford University Press.

Comentários desativados em Ação-rede em Bruno Latour

Arquivado em Uncategorized

Quantas dimensões tem sua educação?

Comentários desativados em Quantas dimensões tem sua educação?

maio 7, 2017 · 6:53 pm

encontros codificados


Respondi recentemente a algumas questões do jornalista Vinícius Martins para uma matéria sobre apps de relacionamento (“Apps da paquera”), que foi publicada (em versão editada) na página 16 da edição de 9 de abril de 2017 da revista semanal Metrópole, do jornal Correio Popular, de Campinas. Como já fiz em outras ocasiões, segue abaixo a íntegra da entrevista.

1) Como esses aplicativos (Tinder, Happn, Par Perfeito, Badoo etc.) interferiram nas relações das pessoas?

Entendo que esses aplicativos de relacionamento são redes sociais digitais, e que redes sociais existem desde que existem sociedades. Assim, trata-se de uma nova versão, digital, de algo que sempre existiu: redes sociais.

Tendo dito isso, vejo essa interferência sob dois aspectos. Por um lado, entendo que a interferência é a mesma que a de qualquer outro meio de comunicação: eles colocam realidades, antes isoladas, em comunicação, por meio de uma redefinição de suas diferenças. Assim, esses apps interferem nas relações das pessoas da mesma forma que a linguagem articulada, a linguagem escrita, ou o telefone: redefinindo as diferenças entre as pessoas ao colocá-las em comunicação. Por outro lado, e diferentemente da linguagem articulada, escrita, ou do telefone, a digitalização da cultura e da vida apresenta algumas novidades importantes, que começaram a surgir com a informática e a automação em meados do século XX, e ganharam sua forma atual com a Internet na passagem para o século XXI. A novidade é a informação digital e o seu modo de existência codificado, fazendo de cada ação, ou acontecimento, um registro resgatável e capitalizável.

Hoje, cada clique, cada post, cada tecla digitada, deixa um rastro que pode tanto nos ajudar a realizar nossos objetivos, quanto nos tornar vulneráveis àqueles que podem nos impedir de realizá-los. Um perfil num app de relacionamento pode favorecer tanto encontros felizes como tristes, e se o objetivo do usuário é encontrar um parceiro, o objetivo da empresa é gerar lucro, e a quantidade de informações que ela reúne sobre cada um de seus usuários é, cada vez mais, sua maior riqueza. Numa época em que os apps e seus algoritmos usam os rastros digitais de nossas interações para nos sugerir novos produtos, novos relacionamentos interpessoais, novos sonhos e desejos, não estamos mais apenas nos comunicando pelas nossas diferenças, mas fazendo disso um processo rentável para muitos (os donos das empresas), e até mesmo para nós mesmos, se nossos encontros forem felizes.

Resumindo, como sociólogo, entendo que os apps interferem nas relações pessoais da mesma forma que qualquer outro meio de comunicação, exceto por uma diferença: a possibilidade que a empresa (mas também cada um de nós, em diferentes medidas) tem, de resgatar e capitalizar nossos rastros digitais, as pegadas que deixamos quando interagimos nesses apps.

2) Em sua opinião, esses apps vieram para ajudar ou dificultar as relações?

Em minha opinião, esses apps ajudam e dificultam as relações interpessoais. Ajudam, pois possibilitam a manutenção de dezenas, centenas, ou até milhares de parceiros virtuais, potenciais, latentes, só esperando o momento certo para serem ativados. Nesse sentido, a sorte é uma oportunidade bem aproveitada, e ter um perfil online permanentemente disponível à interação tende a aumentar as oportunidades de interação que podem, eventualmente, ser bem aproveitadas. A força dos laços fracos, proposta originalmente pelo sociólogo norte-americano Mark Granovetter em 1983, só aumenta com as redes sociais digitais. Hoje é possível manter muito mais laços fracos do que antes das redes sociais digitais. Isso multiplica nossas possibilidades de experiências relacionais.

Por outro lado, também acho que esses apps dificultam as relações, uma vez que estabelecem cada vez mais mediações técnicas como condição para que elas existam. O sociólogo alemão Max Weber definiu, em 1918, a ação social, como sendo “uma ação que, quanto a seu sentido visado pelo agente, se refere ao comportamento de outros, orientando-se, por este comportamento, em seu curso”. Quando um perfil em um app pode ser visto por dezenas, centenas, ou até milhares de outras pessoas, como agimos socialmente quando criamos esse perfil, ou mesmo quando interagimos online? Como levar em consideração o comportamento de tantos outros em cada ação que realizamos nesses apps?

Resumindo, apesar de, geralmente, ampliar significativamente o leque de possibilidades de relacionamento para os usuários, esses apps também podem agir negativamente, aumentando a pressão social que normatiza nossos comportamentos, podendo até intensificar problemas relacionais já existentes ou latentes.

3) O app é capaz de substituir as relações físicas, propriamente ditas?

Não acredito nisso, por dois motivos. Primeiro, pois a informação digital não é imaterial, antes é objeto da engenharia elétrica e de computação. Segundo, pois tudo nesses apps de relacionamento leva a crer que o objetivo final é um encontro presencial entre as pessoas. De qualquer forma, seria interessante imaginar se não poderia existir um modo de vida diferente, que prescindisse de encontros presenciais, e que encontrasse nesses apps um ambiente propício para se reproduzir. Este seria até um bom tema de pesquisa sociológica.

4) Como perceber que está extrapolando na quantidade de uso?

Como sociólogo, não vejo como estabelecer um critério para avaliar o uso desses apps a ponto de identificar exageros. Aproveitando uma ideia clássica de Durkheim, eu diria que a diferença entre o normal e o patológico é que, enquanto normal é aquilo que é visto como socialmente positivo, o patológico é aquilo que é visto como socialmente negativo. Em outras palavras, quem define o que é bom ou mau são as próprias pessoas que sofrem as consequências dessa definição, e elas fazem isso juntas, e das mais diversas formas.

5) Nos apps as pessoas ficam mais soltas. Quando se conhecem, pode existir alguma frustração?

Acredito que sim, pois frustrações podem acontecer em qualquer relacionamento, e não vejo porque seria diferente em relacionamentos mediados por apps. De qualquer forma, acredito que aquilo que eu já disse à luz de Weber pode ser lembrado aqui: quando agimos socialmente, levamos em consideração o efeito que nossa ação tem sobre os outros. Assim, o app pode sim levar o usuário a agir de uma maneira que ele não consegue sustentar presencialmente, gerando frustração.

Comentários desativados em encontros codificados

Arquivado em Uncategorized

Ação-rede e reticulação no IFCS/UFRJ


No dia 07/12, às 17:00, buscarei apresentar uma leitura simondoniana da concepcão latouriana de ação-rede. Trata-se, de certa forma, de um encerramento para o meu estágio pós-doutoral junto ao HCTE/UFRJ. A palestra ocorrerá na sala Evaristo de Morais Filho (IFCS/UFRJ). Segue abaixo um pequeno resumo da proposta.

Bruno Latour a partir de Gilbert Simondon: a ação-rede como reticulação
Pedro P. Ferreira
(DS/IFCH/Unicamp; pós-doutorando no HCTE/UFRJ)

Como já foi notado (cf. Hui 2013; Illiadis 2013), Gilbert Simondon frequenta os textos de Bruno Latour como um bom exemplo, ou caso exemplar, de atenção à riqueza e complexidade sócio-antropológica da técnica, ou mais precisamente, ao “modo de existência dos objetos técnicos” (e.g.: Latour 1988:31; 1995:8; 1999:1; 2000:53; 2007:141; 2008:361; 2010:15-6, 23-4; 2011:307-8; 2013:208-9, 211-2, 223-4). Localizando Simondon “na mesma vizinhança do pragmatismo de James e da filosofia especulativa de Whitehead”, numa “tradição que parece jogar luz em preposições definidas como modos de existência”, Latour (2010:5) destaca o fato de ele propor uma genética “largamente mítica” na qual a técnica aparece como um modo de existência entre muitos outros, em especial os “modos” mágico e religioso. Mas eis que, apesar disso, para Latour:

“Simondon permanece um pensador clássico, obcecado que é pela unidade original e pela unidade futura, deduzindo seus modos uns dos outros, de uma maneira que chega a lembrar Hegel. Ele contou até sete apenas para retornar, no final das contas, ao um… O multirealismo não seria, no fundo, mais que um longo desvio para retornar à filosofia do ser, o sétimo dos modos que ele esboçou.” (Latour 2011:308)

Esta apresentação buscará questionar todas estas afirmações por meio de um sobrevoo pela concepção simondoniana de “reticulação” (em Simondon 2005, 2006, 2008, 2010, 2014), muito mais próxima da noção latouriana de ação-rede do que este jamais admitiu.

Referências
HUI, Yuk. 2013. Lecture: on Latour and Simondon’s Mode of Existence. Digital: Objects and Milieux. http://digitalmilieu.net/?p=289.

ILIADIS, Andrew. 2013. Latour on Simondon: an inquiry into modes of existence. Ethics & Philosophy of Information. https://philosophyofinformationandcommunication.wordpress.com/2013/09/22/latour-on-simondon-an-inquiry-into-modes-of-existence/.

LATOUR, Bruno. 1988. The Prince for machines as well as for machinations. In: Brian Elliott. (Ed.). Technology and Social Change. Edinburgh: Edinburgh University Press, pp. 20-43.
__________. 1995. Gaston, a little known successor of Daedalus. Bruno Latour. http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/P-52-GASTON-GB.pdf.
__________. 1999. L’impossible métier de l’innovation technique. Bruno Latour. http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/P-92-PROTEE.pdf.
__________. 2000. La fin des moyens. Réseaux 100(18):39-58.
__________. 2007. Can we get our materialism back please? Isis 98:138-42.
__________. 2008. Per un’etnografia dei moderni: intervista a Bruno Latour. Etnografia e Ricerca Qualitativa 3:347-67.
__________. 2010. Prendre le pli des techniques. Réseaux 163:14-31.
__________. 2011. Reflections on Etienne Souriau’s Les differents modes d’existence. In: Levy Bryant; Nick Srnicek; Graham Harman (Eds.). The speculative turn: continental materialism and realism. Melbourne: Re.press, pp. 304-33.
__________. 2013. An inquiry into modes of existence: an anthropology of the moderns. Cambridge: Harvard University Press.

SIMONDON, Gilbert. 2005. L’individuation à la lumière des notions de forme et d’information. [ILFI] Grenoble: Éditions Jérôme Millon. [1958]
__________. 2006. Mentalité technique. Revue Philosophique 131(3):343-57. [1961]
__________. 2008. Du mode d’existence des objets techniques. [MEOT] Paris: Aubier. [1958]
__________. 2010. Comunication et information: cours et conférences. Chatou: Les Éditions de la Transparence.
__________. 2014. Sur la technique (1953-1983). Paris, Presses Universitaires de France.

Comentários desativados em Ação-rede e reticulação no IFCS/UFRJ

Arquivado em Uncategorized

Antropocentrismo na VI ReACT?

Está aberto o período de submissão de trabalhos para os seminários temáticos da VI Reunião de Antropologia da Ciência e da Tecnologia. A data limite para a submissão de resumos é 15 de dezembro de 2016. Os resumos devem ser submetidos através do link goo.gl/bMuZG2. Segue abaixo a proposta de seminário temático que propus junto com Daniela Manica:

ST6: Antropologia e antropocentrismo: debates, desafios e perspectivas
Coordenadores: Daniela T. Manica (UFRJ), Pedro P. Ferreira (UNICAMP)
Resumo: Em que se reconheceria uma “antropologia não antropocêntrica”? Seria o caso de generalizar a agência de tipo humano, transformando o humano em “toda uma outra coisa”, como ocorre no perspectivismo ameríndio? Seria o caso de obliterar toda especificidade humana a priori, como propõe a teoria ator-rede? Existem outras saídas possíveis do antropocentrismo sendo exploradas pela antropologia? E qual o efeito disso para a disciplina? […] Acolheremos propostas de trabalhos que enfrentem esse desafio de uma perspectiva conceitual, a partir de reflexões teóricas e/ou pesquisas empíricas em interface com outras formas de conhecimento: minoritárias e tradicionais, ou das ciências naturais, biológicas e biomédicas. Serão bem-vindas temáticas sobre ambientes e ecologias, materialidades, animalidades, corporalidades e tecnociências.
Palavras-chave: antropologia, antropocentrismo, humano

Comentários desativados em Antropocentrismo na VI ReACT?

Arquivado em Uncategorized

skatosofia no Museu Nacional


Este vídeo é uma sequência de partes de outros vídeos nos quais Mark Gonzales aparece andando de skate, ao som da leitura de trechos de Mil Platôs, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. É uma homenagem minha ao skate daquele e à filosofia destes.

O “experimento de skatosofia” consiste na exploração dos efeitos gerados por essa composição.

Este vídeo foi feito como parte de minha apresentação na reunião “Sextas na Quinta” de 14/10/2016, do Núcleo de Antropologia Simétrica (NAnSi), do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Museu Nacional/UFRJ).

Todos os vídeos usados e todos os trechos lidos são listados ao final do vídeo

Comentários desativados em skatosofia no Museu Nacional

Arquivado em Uncategorized