Homenagem tecnomítica de um “discípulo inconstante”


Dedicatória que abre Antropologia Estrutural: “Permitam, com este livro a ser publicado em 1958, ano do centenário de Émile Durkheim, que um discípulo inconstante renda homenagem à memória do fundador da Année Sociologique, ateliê prestigioso no qual a etnologia contemporânea recebeu parte de suas armas, e que relegamos ao silêncio e ao abandono, menos por ingratidão do que devido à triste certeza que temos de que a empresa atualmente excederia nossas forças. […] ρύσεον μεν πρώτιστα γένος.” (Lévi-Strauss 2012:7)

A tradução do trecho em grego pode ser: “Primeira de todas entre humanos”. Trata-se de início da seguinte frase do capítulo “o mito das cinco raças”, de Os trabalhos e os dias, de Hesíodo (2012:73): “Primeira de todas entre os humanos de fala articulada, fizeram os imortais que têm moradas olímpias uma raça de ouro”. É uma referência à primeira “raça” humana criada pelos deuses, a mais perfeita, “de ouro”. Depois dessa viriam as raças de “prata”, “bronze”, “heróis” e “ferro”. Lévi-Strauss claramente apresenta Durkheim como um semi-deus da “raça de ouro”, e a si mesmo como um mero mortal, talvez “de ferro”.

HESÍODO. 2012. Os trabalhos e os dias. (Trad.: Alessandro Rolim de Moura) Curitiba: Segesta.
LÉVI-STRAUSS, Claude. 2012. Antropologia estrutural. (Trad.: Beatriz Perrone-Moisés) São Paulo: Cosac Naify.

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A tecnomítica científica de Lévi-Strauss (2012 [1955])


A lógica do pensamento mítico pareceu-nos tão exigente quanto a que fundamenta o pensamento positivo e, no fundo, pouco diferente. Pois a diferença está menos na qualidade das operações intelectuais do que na natureza das coisas a que se referem tais operações. Já faz bastante tempo que os tecnólogos perceberam, em seu campo, que um machado de ferro não é superior a um machado de pedra porque um seria “mais bem feito” do que o outro. Ambos são igualmente bem feitos, mas o ferro não é a mesma coisa que a pedra. […] Talvez um dia descubramos que a mesma lógica opera no pensamento mítico e no pensamento científico, e que o homem sempre pensou igualmente bem. O progresso – se é que o termo se aplica – não teria tido por palco a consciência, e sim o mundo, em que uma humanidade dotada de faculdades constantes teria continuamente se deparado, no decorrer de sua longa história, com novos objetos. (Lévi-Strauss 2012:248)

LÉVI-STRAUSS, Claude. 2012. A estrutura dos mitos. In: Antropologia estrutural. (Trad.: Beatriz Perrone-Moisés) São Paulo: Cosac Naify, pp.221-48.

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A pandemia como informação


O ano de 2020 fechou, para mim, com a publicação do texto “Entre vírus e devires: a pandemia como informação“, no número 19 da revista ClimaCom. Comecei a escrever esse texto no início da pandemia, em março, com o post “entre vírus e devires“, e fui amadurecendo ele ao longo do ano, até chegar na versão publicada. A figura acima, “um rizoma para o coronavírus”, é o ponto de chegada do artigo. Não vou tentar explicá-la, até porque a função dela é complicar. É minha contribuição para esse nosso lindo esforço coletivo de pensar a pandemia, aprender com o vírus, aproveitar esta crise como uma oportunidade de transformação. Um nós bem seleto, é verdade, principalmente no Brasil, como indica o seguinte trecho do texto de abertura (Diagnóstico) des editores do número, Kris Herik de Oliveira e Daniela T. Manica:

No Brasil, a necropolítica colonial, fascista e neoliberal foi atualizada pela atual pandemia: as desigualdades socioeconômicas evidenciadas, políticas sociais tardaram, e, quando chegaram, falharam. Trabalhadoras e trabalhadores foram instados ao trabalho e ao risco de morte, porque as “atividades essenciais” e a “economia” não podiam parar. O novo coronavírus poderia ter sido um vetor para a redefinição do que conta como essencial, um motivo para começarmos, como coletivos humanos e mais-que-humanos, a construir uma relação menos destrutiva entre nós. Poderá vir a ser? Por ora, foi convertido, alistado para o extermínio genocida e ecocida que pauta a agenda política dominante.

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Detesto dizer isso, mas…

Em 10/08/2020, o Brasil ultrapassou 100 mil mortos por Covid-19, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (WHO). Na ocasião, o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, baixou a Portaria GR no. 71/2020, decretando “luto oficial em memória das 100 mil vítimas da Covid-19”. Ao divulgar essa portaria aqui, num post de 11/08/2020, eu alertei: “Ainda vai piorar muito…“.

Três meses antes disso, em 11/05/2020, eu já havia decretado meu próprio luto, retroativamente a outubro de 2018, no post “Luto pelo Brasil“. Este luto foi vivido aqui nos posts “Rádio-luto” (14/05/2020), “Só a loucura salva” (19/05/2020), “Chega” (26/05/2020) e “Shit is real!” (17/07/2020).

Em 09/01/2021, o Brasil ultrapassou 200 mil mortos por Covid-19, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (WHO). Mais uma vez, o reitor da Unicamp baixou uma Portaria GR, decretando “luto oficial em memória das 200 mil vítimas da Covid-19”.

Foi a primeira Portaria de 2021, GR no. 001/2021, de 08/01/2021, abrindo mais um ano com a foice da morte. A mesma foice da morte que vem acabando com nosso país desde outubro de 2018. Uma foice que a maioria dos brasileiros escolheu empunhar e usar contra seus próprios vizinhos, amigos e familiares. E contra si mesmos, como Vladmir Safatle mostrou didaticamente no texto “Para além da necropolítica“.

Quando declarei meu luto pelo Brasil, em maio do ano passado, eu já imaginava que a situação ia piorar muito. Detesto dizer isso, mas… como poderia ser diferente? Detesto dizer isso mas… ainda vai piorar muito!

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A responsabilidade viral de Haraway


The infective, invading information fragments that parasitize their host code in favour of their own replication and their own program commands are more than metaphorically like biological viruses. And like the body’s unwelcome invaders, the software viruses are discussed in terms of pathology as communications terrorism, requiring therapy in the form of strategic security measures. There is a kind of epidemiology of virus infections of artificial intelligence systems, and neither the large corporate or military systems nor the personal computers have good immune defences. Both are extremely vulnerable to terrorism and rapid proliferation of the foreign code that multiplies silently and subverts their normal functions. Immunity programs to kill the viruses, like Data Physician sold by Digital Dispatch, Inc., are being marketed. More than half the buyers of Data Physician in 1985 were military. Every time I start up my Macintosh, it shows the icon for its vaccine program – a hypodermic needle. (Haraway 1991:252 nota 4)

Viral Response-ability […] There is no innocence in these kin stories, and the accountabilities are extensive and permanently unfinished. Indeed, responsibility in and for the worldings in play in these stories requires the cultivation of viral response-abilities, carrying meanings and materials across kinds in order to infect processes and practices that might yet ignite epidemics of multispecies recuperation and maybe even flourishing on terra in ordinary times and places. Call that utopia; call that inhabiting the despised places; call that touch; call that the rapidly mutating virus of hope, or the less rapidly changing commitment to staying with the trouble. (Haraway 2016:114)

HARAWAY, Donna. 1991. Simians, cyborgs, and women: the reinvention of nature. New York: Routledge.
__________. 2016. Staying with the trouble: making kin in the Chthulucene. Durham: Duke University Press

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Anatomia de uma inteligência artificial


A revista eletrônica de jornalismo científico ComCiência publicou recentemente a tradução que fiz, junto com a Cristiana Gonzalez, do texto-mapa Anatomy of an AI system, de Kate Crawford e Vladan Joler. O texto-mapa é um trabalho incrível, e nós caprichamos na tradução, para que ele esteja acessível também em português. A tradução contou também com a colaboração de Pedro Paulino, a quem agradeço. Trata-se de mais um fruto da pesquisa coletiva “A agência social dos elementos químicos“. Segue abaixo um trechinho do texto de apresentação que a Cris me ajudou a escrever.

Se um mapa deve nos permitir uma ação mais potente e eficaz sobre o território cartografado, então podemos dizer que o mapa de Crawford e Joler permite, sim, que qualquer um de nós se localize, e consiga começar a projetar uma ação eficaz, como usuário de sistemas de IA, no território do infocapitalismo contemporâneo. Também nos permite estabelecer conexões com o que não foi diretamente explicitado por Crawford e Joler neste texto-mapa, como os efeitos de racialização e a sexualização dos sistemas automatizados – efeitos esses materializados, por exemplo, na voz feminina da Alexa. O mapa anatômico é, acima de tudo, um convite para reanimar e reimaginar as tecnologias ligadas à IA, evidenciando o fato de que não são exatamente nem “inteligentes” – pois não operam automaticamente, antes dependendo de trabalho humano -, e nem “artificiais” – pois participam ativamente da crescente exploração dos recursos naturais de nosso planeta. Mostrando, enfim, que, mais do que soluções inocentes para problemas banais do dia-a-dia, tais dispositivos são responsáveis por parte importante de nossos problemas socioambientais atuais, e nada banais.” (Gonzalez e Ferreira 2020)

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Ainda vai piorar muito…

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agosto 11, 2020 · 11:24 am

Shit is real!

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julho 17, 2020 · 10:02 pm

Um pacifista no meio do fogo cruzado


Latour político?
O texto “Para distinguri amigos e inimigos no tempo do Antropoceno”, de Bruno Latour [1], coloca todas as conquistas de sua Teoria Ator-Rede (TAR) a serviço de uma tomada de partido com relação ao negacionismo científico. É um texto importante, tanto para uma compreensão mais ampla da sua sociologia da ciência, quanto para uma possível tomada de partido do próprio leitor. É, talvez, o texto mais político (no sentido de propositalmente parcial, assumindo partido) de Latour que eu já li.

Antropoceno como oportunidade
O texto começa argumentando que filmes como Gravidade (Alfonso Cuaron 2013) e Melancolia (Lars von Trier 2011) nos forçam a testemunhar “a destruição gradual da velha ideia galileana da Terra como um corpo entre outros corpos espaciais”, e a “trazer nosso olhar de volta à Gaia sublunar, tão ativamente modificada pela ação humana que ingressou em um novo período, que os geólogos-feitos-filósofos propõem chamar de Antropoceno” (p.12). Uma transição, enfim, de “um corpo entre outros”, para “Gaia”.

O conceito de “Antropoceno” é então apresentado pragmaticamente como uma oportunidade para: “evitar o perigo da naturalização” (p.12); chamar nossa atenção para o fim da “bifurcação da natureza” entre objetividade e subjetividade (p.13); e “sair da noção de modernização” (p.13). Latour propõe que a diferença geológica entre “Holoceno” e “Antropoceno” seja vista como a diferença entre a modernização (que partia da diferença entre a natureza objetiva-científica e a sociedade subjetiva-política) e os híbridos (simultaneamente objetivos e subjetivos, naturais e sociais, científicos e políticos). Em outras palavras: já que os geólogos estão falando em Antropoceno, uma era geológica na qual humanidade e natureza não podem mais ser dissociadas, então porque não aproveitar para mostrar como elas sempre estiveram ligadas?

Vacina anti-negacionismo
O principal ponto de ataque do texto é “o debate espúrio sobre a ciência do clima” (p.14). Por um lado, “não há debate algum” (p.14), pois o aquecimento global e a previsão de crises globais já foi provada e confirmada cientificamente de todas as formas possíveis. Ou seja, não há debate pois não existe dúvida, entre cientistas, de que o planeta Terra (Gaia) já entrou num processo de radical transformação ambiental que pode ser letal para a humanidade (ou para a maior parte dela). Por outro lado, o debate não tem fim, pois “não há a menor chance de chegarmos a uma conclusão final, uma vez que o sucesso dos negacionistas não reside em vencer algum conflito, mas simplesmente em assegurar que o resto do público esteja convencido de que há um conflito” (p.16).

O objetivo dos negacionistas, longe de ser chegar a um consenso, é estender indefinidamente o estado de dúvida e incerteza num “pseudo-tribunal, cujo objetivo não é chegar a um veredito” (p.16-7); manter a dúvida é favorecer a continuidade de seus interesses políticos e econômicos. Trata-se da “estratégia de Luntz”, que propõe, como principal arma contra (sim, contra) as políticas de enfrentamento ao aquecimento global, “continuar a fazer da falta de certeza científica uma questão central” (p.16). Outro nome, emprestado por Latour de James Proctor, para se referir à estratégia negacionista, é “agnotologia”, ou “a produção deliberada de ignorância” (p.17). Para Latour, levantar dúvidas sobre fatos só faz sentido se for para colocar outros fatos no lugar, sendo condenável e destrutiva a atitude de apenas levantar dúvidas. É neste sentido que Latour compara os negacionistas climáticos aos negacionistas do nazismo, lamentando que só existam leis contra os segundos (p.14).

O problema, segundo Latour, reside no “repertório ciência versus política” (p.16), algo que ele já chamou de “constituição moderna”, e que agora podemos chamar de repertório “holocênico”. É esse repertório que (numa imagem cara em nosso dias atuais de Covid-19) mina nosso “sistema imunológico” (p.16). Precisamos, segundo Latour, ser vacinados contra esse repertório. Precisamos, enfim, de “um repertório alternativo muito mais razoável e, de modo geral, muito mais racional”, i.e, que não oponha ciência a política, natureza a sociedade, objetividade a subjetividade. Sem isso, somos presas fáceis do vírus negacionista. É nesse sentido que Latour propõe a divisão do campo em “dois lados”: o lado daqueles que opõem ciência e política (que ele nomeia como “acordo do Holoceno”, outra expressão para a “constituição moderna”); contra “aqueles que compreenderam que essa antiga epistemologia política […] é o que enfraquece tanto a ciência como a política” (que ele apresenta como um desejável “acordo do Antropoceno”) (p.17).

Acordo do Antropoceno
Um “acordo do Antropoceno” exigiria, assim, que: a política não fosse reduzida apenas a “distorcer os fatos”, mas contribuísse fundamentalmente para “construir uma politeia” (p.18), um coletivo com alguma autodeterminação; e a ciência não fosse reduzida apenas ao “campo de fatos incontroversos e incontestáveis”, mas fosse encarada como a “produção, por meio da instituição de muitas disciplinas e do monitoramento de muitos instrumentos, de um amplo acesso a um grande número de entidades com as quais a politeia deve ser construída” (p.18). Sempre agindo em conjunto, nunca em oposição, ciência e política têm como “tarefas essenciais”: “definir quantas entidades devem ser consideradas e como elas podem permanecer juntas de maneira viável” (p.18).

Guerra!
A parte mais fortemente política do texto, a meu ver, começa quando Latour diz que “[o] deslocamento de uma ciência versus política para uma ciência com política certamente não se dá sem perigo”(p.19). É a partir daqui que a oposição nós/eles ganha força, sendo “eles” os negacionistas-capitalistas, e “nós” este coletivo que Latour deseja ajudar a compor, aparentemente simpático a uma ciência mais humana. É a partir daqui também que Latour declara as vantagens de se “imitar o que as feministas chamam de ‘essencialismo estratégico’”, e de se “empregar, quando necessário, uma forma de ‘positivismo estratégico’”. “Trata-se”, nas palavras de Latour, “de uma questão de tomar conhecimento de ‘fatos desconfortáveis’ relacionados a questões urgentes que dizem respeito ao próprio solo habitado por todos”, a “conflitos que produzem antagonismos entre diferentes definições da Terra às quais as várias politeias estão ancoradas”, a “uma guerra pela ocupação, definição e composição daquilo a que […] Gaia […] se assemelha” (p.20-1).

Se “eles” dizem que “nós” não fazemos ciência, e sim política, devemos responder: “Sim, claro, onde vocês estiveram? E o que vocês estão fazendo?” (p.19). E se eles afirmam que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é “um lobby”, devemos responder:

“É claro que é um lobby, agora vamos ver quantos são vocês, de onde vem o dinheiro de vocês. E, já que estamos nisso, já que vocês estão nos acusando de sermos tendenciosos devido a uma ‘ideologia’, vamos colocar todas as cartas na mesa: em que mundo vocês vivem, onde, com que recursos, por quanto tempo, que futuro vocês vislumbram para seus filhos, que tipo de educação vocês desejam dar a eles, em que paisagem vocês gostariam que eles vivessem.” (p.23)

“Há decerto”, insiste Latour, “uma guerra pela definição e controle da Terra: uma guerra que coloca uns contra os outros” (p.23). Uma guerra entre um mundo que pode continuar sendo destruído indefinidamente, e outro que deseja se curar. Uma guerra que, sintetizada na palavra-oportunidade “Antropoceno”, oferece a condição urgente que exige o abandono da constituição moderna, do acordo holocênico, em nome de uma pragmática da mobilização.

Se há algo que todos são capazes compreender é que quando a vida de uma pessoa é posta em questão, quando o território em que ela vive é ameaçado, quando ela é atacada por outros povos que querem o seu lugar, sua terra, seu solo, seu estimado pedaço de chão, o que se costumava chamar de sua “terra-mãe”, eles decerto não esperam que os experts concordem. Eles precisam identificar rapidamente aqueles que podem ajudar e aqueles […] que correm o risco de traí-los. […] O sentimento a que poderíamos chamar de mobilização é perigoso, incômodo e intranqui-lo, uma fonte de consequências mal definidas; mas uma coisa é certa: em caso de guerra, a atitude não é de complacência, apaziguamento e delegação aos experts. (p.22)

O uso que os negacionistas-capitalistas fazem da ciência (para favorecer a dúvida e a incerteza sobre a urgência de transformações) é comparado por Latour ao uso, feito por exércitos, das inscrições “Deus está conosco” (“Gott mitt Uns”). Basta substituir “Deus” por “Natureza”, para perceber que, para além de um “positivismo estratégico”, nem um, nem a outra, está realmente do lado de nenhum dos exércitos em guerra. Em lugar de opor “fatos científicos
incontestáveis” a “opiniões políticas contestáveis” como fazem os modernos- holocênicos-negacionistas-capitalistas, Latour propõe uma “Gaia-grafia” baseada no delineamento do mundo proposto por cada lado da guerra, na forma de respostas a questões “cosmogramáticas” (referência a John Tresch) do tipo: “o que você está defendendo”?; “quanto vale a Terra”?; “com que outros organismos, com que tipo de solo, com que tipo de paisagem, com que tipo de indústria, com que tipo de comércio você gostaria de sobreviver”? (p.23-4). Se um território é “isso sem o qual não poderíamos viver”, então “[l]istemos todos esses seres, essas agências sem as quais nada seria possível” (p.24).

Covid-19 como oportunidade
Esta parte deste texto me lembrou o fechamento de outro texto de Latour: “Imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré- crise” [2]. Nesse outro texto, publicado já durante a pandemia global de Covid-19 (em 29/03/2020), Latour propõe seis questões para que “[a]proveitemos a suspensão forçada da maior parte das atividades para fazer um inventário daquelas que gostaríamos que não fossem retomadas e daquelas que, pelo contrário, gostaríamos que fossem ampliadas”:

1a pergunta: Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que não fossem retomadas?
2a pergunta: Descreva por que essa atividade lhe parece prejudicial / supérflua / perigosa / sem sentido e de que forma o seu desaparecimento / suspensão / substituição tornaria outras atividades que você prefere mais fáceis / pertinentes. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 1).
3a pergunta: Que medidas você sugere para facilitar a transição para outras atividades daqueles trabalhadores / empregados / agentes / empresários que não poderão mais continuar nas atividades que você está suprimindo?
4a pergunta: Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que fossem ampliadas / retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?
5a pergunta: Descreva por que essa atividade lhe parece positiva e como ela torna outras atividades que você prefere mais fáceis / harmoniosas / pertinentes e ajuda a combater aquelas que você considera desfavoráveis. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 4).
6a pergunta: Que medidas você sugere para ajudar os trabalhadores / empregados / agentes / empresários a adquirir as capacidades / meios / receitas / instrumentos para retomar / desenvolver / criar esta atividade?

Trata-se de um esforço ativo de imaginação de outro mundo possível, um mundo no qual certas agências deveriam continuar ou ser expandidas, e outras deveriam ser interrompidas ou diminuídas. Acredito que todos nós, “terranos”, deveríamos refletir sobre essas questões, e tentar respondê-las. Não é fácil.

Paz?
O texto de Latour termina com uma digressão sobre aquilo que ele chama de “paz política”: diferentemente da “paz pedagógica obtida por meio do repertório ciência-versus-política”, a paz política é “negociada pelas facções bélicas que, tendo exaurido todas as outras opções e sabendo que nem o ‘Deus’ nem a ‘Natureza’ bordados em seus estandartes estão realmente por detrás deles, aventuram-se em um acordo como se não houvesse arbítrio algum acima deles” (p.25). A questão da temporalidade é central no fechamento do texto, uma vez que a urgência apresentada anteriormente como sendo devida ao estado de guerra é, no final, apresentada como uma diferença entre um tempo que flui do presente para o futuro e outro, que flui do futuro para o presente. Se no primeiro caso (do presente para o futuro), podemos vislumbrar uma marcha que poderíamos chamar de progresso, no segundo (do futuro para o presente) podemos vislumbrar uma urgência que poderíamos chamar de apocalíptica, reveladora da necessidade de “agir sem postergar” (p.27).

Cabe comentar, como conclusão, que apesar de a ênfase de Latour na “guerra” me incomodar, foi difícil para mim não acompanhar o belicismo de Latour neste texto, talvez por eu mesmo simpatizar excessivamente com o lado que ele escolheu defender nessa guerra. Não obstante, ainda acredito que reconhecer que estamos em guerra não significa que precisemos guerrear. Cabe à realidade mostrar-ensinar como (ou se) é possível ser pacifista no meio do fogo cruzado.

Notas
[1] LATOUR, Bruno. 2014. Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno. (Trad.: Renato Sztutman) Revista de Antropologia 57(1):11-31. O texto foi originalmente proferido como palestra no simpósio Thinking the Anthropocene, realizado na École d’Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) em 14 de novembro de 2013. Em 2015 foi incluído no livro The Anthropocene and the Global Environment Crisis: Rethinking Modernity in a New Epoch (London, Routledge), editado por Clive Hamilton et al..

[2] LATOUR, Bruno. 2020. Imaginer les gestes-barrieres contre le retour a la production d’avant-crise. AOC. Acessível em: https://aoc.media/opinion/2020/03/29/imaginer-les-gestes-barrieres-contre-le-retour-a-la-production-davant-crise/. Uma tradução de Déborah Danowski pode ser encontrada no site do Bruno Latour: http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/downloads/P-202- AOC-03-20-PORTUGAIS_1.pdf.

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Chega


Hoje li esta notícia no site da BBC:

O Brasil registrou, em 24 horas, 807 mortes e 11.687 novos casos de covid-19, segundo boletim do Ministério da Saúde divulgado nesta segunda-feira (25/05). […] O total de casos desde a chegada do coronavírus ao país é de 374.898 e de mortos, 23.473. O recorde de registros em 24h foram no dia 21/05 (1.188 mortes) e no dia 22/05 (20.803 casos confirmados). […] São considerados casos recuperados ao menos 153.833. […] O Brasil já é o segundo país do mundo com mais infectados. (Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51713943)

Cansei de mostrar aqui o gráfico da tragédia. Chega.

Bruno Latour fechou um texto de 29 de maio sobre a Covid-19 com seis questões. Tenho pensado nelas, e ofereço abaixo aquelas que venho tentando responder (algumas delas não são do Latour, são minhas mesmo):

1 – Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que não fossem retomadas?

2 – Descreva por que essa atividade lhe parece negativa.

3 – Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que fossem retomadas?

4 – Descreva por que essa atividade lhe parece positiva.

5 – Quais as atividades obrigatórias na quarentena você gostaria que fossem mantidas?

6 – Descreva por que essa atividade lhe parece positiva.

7 – Quais as atividades obrigatórias na quarentena você gostaria que não fossem mantidas?

8 – Descreva por que essa atividade lhe parece negativa.

Parece perda de tempo pensar nessas coisas, principalmente quando assumimos que as coisas já estão decididas de antemão, ou que nosso mundo não está em nossas mãos. E muitas vezes pensamos assim. Mas às vezes abrimos mão dessa assumção, simplesmente porque podemos, e isso faz diferença. Encontrar pensamento onde antes parecia não haver nenhum. Insistir em pensar quando tudo nos obriga a só seguir em frente.

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