Cultura tecnocientífica (Hottois)


Na Introdução de Simondon et la philosophie de la “culture technique” [Simondon e a filosofia da “cultura técnica“] (Buxelles: De Boeck-Wesmael, 1993), Gilbert Hottois afirma:

“Para G. Simondon, é por meio da Pesquisa e Desenvolvimento tecnocientíficos que o devir da humanidade é atualmente buscado. Assim, é a coevolução do homem e da técnica que se deve pensar, prevenindo os riscos de bloqueio e de dissociação, a fim de tornar essa coevolução autenticamente viável, isto é, sensata. O filósofo deve se voltar para o local onde a questão do sentido está em jogo; é por isso que a elaboração de uma cultura tecnocientífica, condição de uma gestão simbólica progressiva da coevolução do homem e da técnica, se tornou a tarefa essencial e urgente da filosofia.” (p.9-10)

O importante aqui, parece-me, é menos a especificidade disciplinar da filosofia e mais a atitude filosófica proposta por Simondon e apresentada por Hottois: buscar uma compreensão consistente do sentido da técnica, participar da construção daquilo que Simondon chamou de “cultura técnica” e que Hottois prefere chamar de “cultura tecnocientífica”.

O livro de Hottois é extremamente útil para refletir sobre as complexidades e implicações de tal tarefa. A seguir, eu me limito a apresentar uma síntese pessoal do prólogo [Liminaire] do livro, onde Hottois apresenta as linhas gerais do “debate em torno da ‘cultura tecnocientífica'”.

O prólogo começa comparando o diagnóstico de C.P. Snow (contemporâneo, aliás, de Simondon) a respeito da existência de duas culturas (uma tradicional-literária e outra moderna-científica) à perene querela entre os Antigos e os Modernos. Trata-se de uma oposição entre duas dimensões da vida humana: uma operatória (ação) e a outra simbólica (representação). Leroi-Gourhan é citado como exemplo de expressão dessa oposição quando opõe ação técnica e linguagem em Le geste et la parole.

Na seção “1. Não existe ‘cultura tecnocientífica’“, Hottois cita M. Henry (La barbarie) e J. Ellul (Le bluff technologique) como exemplos de autores que opõem radicalmente “cultura” (entendida como linguagem simbólica e representativa) e “tecnologia” (entendida como ação operatória e pragmática), tornando assim impossível a existência de qualquer coisa parecida com uma “cultura tecnocientífica”. Trata-se, segundo Hottois, de uma negação a priori, ou “analítica”, pois que baseada em conceitos falhos de “cultura”, “tecnologia” e “ciência”. Ele então se pergunta:

“o que deve ser a ciência contemporânea e a cultura humana para que qualquer coisa como uma cultura científica ou técnica seja propriamente inconcebível?” (p.18)

E a resposta é dada na forma de dois pressupostos:

“(a) a ciência contemporânea é definida como tecnociência; (b) a cultura é principalmente o domínio da expressão lingüística.” (p.18)

O ser humano é assim visto como essencialmente simbolizador e, portanto, como essencialmente distinto do domínio tecnocientífico, o que torna inconcebível uma “cultura” propriamente “tecnocientífica”.

Na seção “2. Breve retorno às ‘duas culturas’ de Snow“, Hottois confirma os pressupostos da negação de uma cultura tecnocientífica plena ou autêntica (no sentido simondoniano), pois também para Snow:

“a ciência contemporânea é tecnociência e a cultura é fundamentalmente assunção verbal da condição humana, então não pode haver qualquer coisa como uma ‘cultura tecnocientífica’.” (p.20).

Na seção “3. Os dois postulados da recusa da ‘cultura tecnocientífica’“, Hottois deriva dos pressupostos já mencionados o principal problema da recusa da “cultura tecnocientífica” no sentido simondoniano: a separação, o isolamento, da cultura e da técnica, da língua e do gesto, do sentido e da ação. Ele afirma:

“A tecnociência não deixa nenhum lugar legítimo à expressão especulativa. Essa ruptura com a cultura verbal, que é também o culto do Verbo, começa explicitamente com o nascimento da ciência moderna.” (p.22).

No entanto, Hottois faz notar, tal isolamento é problemático pois existem de fato inúmeras sobreposições entre esses pólos, e.g., os “meios simbólicos de cálculo e comunicação” da própria tecnociência e “as técnicas e as práticas, isto é, os instrumentos e os meios físicos […] que permitem a adaptação e a interação de um grupo cultural e de seu meio natural” (p.22-3). Mesmo assim, é a oposição apriorística e problemática entre “cultura” e “tecnologia” que fará com que, atualmente, a tecnociência coloque seus valores internos (sua “cultura” no sentido fraco do termo) contra e acima das representações e ideologias políticas e culturais (também no sentido fraco do termo) que lhes seriam exteriores. O técnico-científico (objetivo, quantificável, factual) como superior ao “meramente” político (subjetivo, ideológico, matéria de opinião).

“‘Homo loquax’ deverá então, no nível da determinação mesma de sua essência, dar lugar ao ‘Homo faber’, o que então suprimirá a possibilidade mesma de toda determinação de essência, isto é, de toda totalização [bouclage] especulativa, de toda totalização simbólico-semântica.” (p.25)

Na última seção, “4. O que é a ‘cultura tecnocientífica’?“, Hottois reforça a diferença entre os sentidos fraco e forte do termo “cultura tecnocientífica”, i.e., aquele que mantém a oposição “cultura”/”técnica” e aquele que a supera. Eu cito:

“A cultura tecnocientífica é ao mesmo tempo cognitiva e prática. ela deve tornar possível uma relação ao mesmo tempo livre e responsável entre o indivíduo e o meio social tecnocientífico” (p.26).

E mais adiante:

“Uma tal cultura tecnocientífica seria universal e liberadora ao mesmo tempo para os homens e os artefatos, pois ela comporta a capacidade de organizar as máquinas em sistemas e em redes e de desenvolvê-las no sentido de seu aperfeiçoamento. Dessa perspectiva, a cultura implica também uma relação direta, concreta, com o universo técnico. […] Graças à cultura técnica, o homem se torna o mediador-organizador do conjunto das máquinas e técnicas que já garantem, elas mesmas, uma mediação das relações entre os homens e entre os homens e o mundo. Ela permite, enfim, aceder ao sentido da beleza técnica, que postula que se compreenda a operação, a função e a estrutura dos artefatos.” (p.28)

Aqui Hottois toca diretamente na questão da tecnoestética e em como ela se liga ao conceito de “cultura tecnocientífica”.

O problema central de Hottois é, portanto, a possibilidade de existência de uma “cultura” que não seja “nem um simples jogo metafórico-metonímico e nem uma mistificação ideológica”, mas sim “um trabalho simbólico-verbal de elaboração semântico-especulativa (que comporta também, e não de maneira marginal, a expressão e a cristalização diferenciada do desejo, do afetivo e da sensibilidade)” (p.29) sobre a tecnociência enquanto tal. Para defender tal possibilidade, ele coloca “técnica” (instrumentos e habilidades) e “cultura” (símbolos e representações) lado a lado como meios sempre parciais que nós seres humanos usamos para nos “adaptar” ao nosso meio, e apresenta a “cultura técnica” como sendo uma totalização tecnocultural dessas parcialidades.

Em conclusão, Hottois esclarece ainda mais a distinção entre os dois sentidos, fraco e forte, da expressão “cultura tecnocientífica”: aquela parcial e ilusória, oficializada por Snow, que se opõe a uma “cultura tradicional-literária”; e aquela totalizante e autêntica, proposta por Simondon, que reúne os saberes técnico e filosófico em um só sistema. Eu cito:

“Uma cultura que ignora ou desvaloriza sua relação com o pensamento especulativo, isto é, que se recusa ao trabalho simbólico e reflexivo sobre sua própria organização sistemática e, simultaneamente, de seu próprio e constante questionamento radical, carece de uma dimensão essencial, tão essencial que poder-se-ia perguntar se se trata efetivamente ainda de uma cultura.” (p.32)

Minha própria conclusão quanto ao texto de Hottois pode ser resumida da seguinte forma: é preciso legitimar a extensão das questões da tecnociência para além dos técnicos e cientistas, sobretudo pois as conseqüências de tais questões serão inevitavelmente estendidas para o resto da sociedade. Em outras palavras, é o futuro do humano que está em jogo, e não podemos ficar apenas observando, sofrendo as conseqüências de ações sem sentido (sentindo o insensato). O problema, para mim, é saber como é possível o desenvolvimento de uma tal “cultura tecnocientífica” sem que todos se tornem tecnocientistas. Aí talvez esteja o papel da arte: tornar acessível, pela intuição, pelo afeto, pela sensação, aquilo que os tecnocientistas trabalham no nível da inteligência e da racionalização matemática abstrata. Será? Uma belíssima questão, mas se, como já disse Bergson, um problema bem formulado já traz em si a sua resposta, então eu não creio ter sido capaz de formulá-la adequadamente, pois não tenho, no momento, a menor idéia de como respondê-la.

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