Conversa com o skatógrafo Renato Custódio

Alexandre Cotinz - bs smith - Sampa (2007) - Foto: Renato Custódio
Alexandre Cotinz – bs smith – Sampa (2007) – Foto: Renato Custódio

Obs: Esta conversa ocorreu por troca de mensagens em junho de 2008 e foi ligeiramente editada para este post. Agradeço a Renato Custódio pela disponibilidade em trocar essa idéia comigo e autorizar a sua publicação aqui.

Pedro: Eu queria começar nosso papo com uma impressão bem geral sobre como é escolher (ou encontrar) um lugar na cidade para manobrar o skate. No seu caso, como skatista-fotógrafo, você provavelmente precisa procurar também lugares fotográfáveis, né? Não estou falando de pistas feitas para andar de skate, mas de lugares com funções específicas (uma calçada, uma escada, um canteiro, um bloqueio etc.) que um skatista “subverte”, transformando-os em outra coisa. Olhando fotos de skate feitas nas ruas das cidades, percebo que os picos são geralmente lugares desertos, meio abandonados, muitas vezes detonados (ou pelo menos detonáveis). São geralmente os “fundos” de alguma construção, ou então a fachada de algum estabelecimento comercial fechado, ou então os arredores de galpões ou de estruturas rodoviárias. E mesmo quando são picos no centro da cidade e em lugares movimentados, eles ficam geralmente nas partes menos visadas desses espaços, partes que normalmente não seriam vistas, usadas, e muito menos fotografadas, se não fosse pelo skate. Em outras palavras, skatistas têm uma experiência muito singular da cidade. Basta comparar a Sampa que aparece numa revista de skate e a “mesma” Sampa que aparece em qualquer outro tipo de revista: é outra cidade que aparece! Parece que picos são lugares geralmente “socialmente mortos” que voltam à vida pelo desejo de skatistas de ativá-los, de trazê-los de volta à vida – e a fotografia só amplifica e multiplica esse potencial ativador. Isso pode nos levar a assuntos controversos como a repressão ao skate em certos locais e os esforços inúteis de urbanistas em “revitalizar” zonas urbanas pela “higienização” e pela “comercialização” ao invés de estimular atividades coletivas espontâneas e genuínas como o skate. Queria então saber sua opinião sobre esse tipo de coisa, tanto como skatista quanto como fotógrafo.

Renato Custódio: Sobre o olhar pela cidade à procura de um pico para executar uma manobra (ou vice-versa: achar o pico para executar a manobra que esta no pé), muitas vezes a influência do fotógrafo ajuda bastante nesse quesito de olhar um lugar e saber um skatista que terá facilidade de andar naquele pico. Acredito que cada lugar tem sua especialidade, assim como cada skatista. Então temos que juntar o útil ao agradável para assim conseguirmos uma boa foto ou imagem.

Sobre os picos desertos, movimentados e proibidos, temos diversas classificações nesse sentido. Os monumentos normalmente são os mais preciosos e difíceis de se andar. Normalmente, se não for em lugar movimentado e com policiais passando sempre, é tranquilo ficar andando neles. Praças públicas também são sempre bem vindas, pois andar com tranquilidade, sem o incômodo de seguranças e trânsito, rende mais. Os lugares particulares com vigilância 24hrs são os mais chatos, pois na maioria das vezes dá um trabalho enorme para montar todo o equipamento de fotos e são poucas as tentativas até o segurança “tisourar” a sessão. Mas, por outro lado, se conseguirmos fazer algum registro, normalmente esses são os lugares mais “modernosos” (mármore e fachada mais clean) e, diríamos, “perfeito”, para andar de skate. Mas existem os picos que são comércio durante a semana e, nos finais de semana e feriados, ficam fechados e sem vigilância. Esses também são os mais procurados durante o fim de semana, e por isso vida de skatista, fotógrafo e videomaker tem o domingo meio que clássico para lugares desse tipo.

Voce falou tudo na hora que comparar a Sampa que aparece numa revista qualquer e a Sampa que aparece numa revista de skate. O que realmente valoriza esses lugares que chamamos de “mortos para a sociedade”, são o valor que nós skatistas damos para ele. Colocamos muita luz para destacar a manobra e o lugar no qual estamos aplicando a tal manobra. Então a luz disparada dos flashs tem um poder de deixar aquele lugar morto “mais do que vivo”, deixa ele renascido através da manobra iluminada.

O estilo do skatista influencia muito na fotografia. A expressão de cada manobra executada em determinados lugares tem uma força que é multiplicada através da dificuldade dela mesma. Portanto, quando um skatista se depara com uma foto, logo ele identifica a dificuldade que está presente ali, juntamente com o estilo da manobra executada. Por isso os vídeos também têm extrema importância no universo cultural do skate.

Pedro: A coisa dos seguranças é realmente um capítulo à parte, aliás um capítulo muito complicado, que envolve negociações também com toda sorte de “proprietários” dos picos. Mas o que mais me chamou a atenção foi o que você falou sobre reativar o espaço urbano morto, pela “manobra iluminada”. Sinto isso mesmo quando vejo fotos como as suas. As texturas dos materiais, o desgaste do tempo e do uso, ou o contraste dos materiais novinhos, lisos e reluzentes. Faz toda diferença para um skatista se a superfície é lisa ou estriada, né?

Renato Custódio: A superfície ou textura dos lugares nos quais andamos de skate é fundamental. Se o lugar tem uma superfície estriada, e a foto valoriza essa textura, isso também acaba valorizando a manobra. A dificuldade é maior. Isso contando que o lugar seja “skateável”. Os gringos, quando vêm para cá, (dependendo dos gringos) gostam desses lugares, digamos, mais “roots”, pois têm uma característica diferente da que estão acostumados. Na Europa e nos EUA existem muitos lugares lisos e perfeitos para andar de skate. Às vezes deve saturar.

Pedro: Eu queria que você falasse um pouco sobre o seu uso das lentes grande-angular (olho de peixe). Acho muito legal como esse tipo de lente ao mesmo tempo amplia o campo de visão (contextualizando o objeto fotografado) e destaca de maneira exagerada aquilo que está em primeiro plano (geralmente é o chão ou o objeto que está servindo de base para a manobra). Sinto que fotos com grande-angular tendem a aproximar, ampliar, e portanto trazer à tona, as qualidades do material sobre o qual a manobra está sendo feita. O que você acha? Como você vê o uso desse tipo de lente?

Renato Custódio: A “lente” (ou no caso da filmadora “adaptador”) fish eye é essencial para se trabalhar com o skate. Você falou tudo: temos que aproximar, ampliar, e portanto trazer à tona as qualidades do lugar sobre o qual a manobra está sendo realizada. Só que o excesso de fotos ou filmagens com fish eye cansa nossos olhos, mesmo estando acostumados com elas. Por isso, as imagens de tele [obs: lente tele-objetiva] têm um valor mais artístico, quando bem trabalhadas. Existem umas manhas para se trabalhar com a fish eye, pois ela também pode acabar estragando um lugar perfeito para uma tele. No caso de lugares relativamente pequenos para executar uma manobra, a fish eye tem mais valor. Agora quando o pico é grande, ela pode distorcer e faz perder a “grandeza” do pico, que deve existir na foto ou filmagem. Lembrando também que foto e filmagem muitas vezes seguem o mesmo enquadramento. É claro que existem as exceções. Podemos dizer que quando se aprende a trabalhar com a fish eye, isso torna mais valorizado o trabalho com a tele, pois a fish eye limita um pouco os enquadramentos mais artístiscos e perde um pouco da arquitetura que pode estar atrás dos picos.

Pedro: Eu queria saber como você vê a relação entre a imagem fixa da foto e a imagem em movimento do filme. O fato é que o skate é, sobretudo, movimento. Daí a importância das sequências de fotos nas revistas, mostrando a manobra inteira quadro por quadro. Queria saber qual é o critério para escolher se você vai fotografar ou filmar uma manobra? Ou ainda, como você decide se vai fazer uma sequência quadro-por-quadro ou apenas uma foto única da manobra? Ou é tudo misturado? E quando você tá tirando só uma foto da manobra, como você faz para apertar o botão na hora certa? Existe hora certa?

Renato Custódio: A fotografia e o vídeo estão sempre lado a lado. Na verdade é muito mais comum ter alguém filmando uma sessão de foto do que alguém fotografando uma sessão de filmagem. Aqui no Brasil, o vídeo ainda não se massificou como deveria e a revista tem mais força na história do skate brasileiro. Mas no decorrer dos anos, os vídeos devem ganhar maior importância, assim como nos EUA.
Na verdade, no meu cotidiano já tem a mesma importância, mesmo porque sempre tem alguém comigo filmando a sessão. Porém, o vídeo é mais livre, por haver a liberdade de filmar linhas e outros comportamentos que nem sempre são comuns na fotografia.

Existem muitas manobras que são mais interessantes para o vídeo e que não têm tanta força para revistas. Isso pois na revista entra somente o melhor do melhor, enquanto o vídeo tem mais abertura para mais manobras, pois não depende de impressão gráfica.

O lance de fotografar somente um quadro ou uma sequência inteira da manobra depende muito da manobra a ser fotografada e do skatista. Existem muitas manobras que ficariam incompreensíveis só com um quadro. A revista fica mais bonita tendo uma mescla de moments (um quadro somente) e sequências. Uma revista com muita sequência fica cansativa.

Quando estou fazendo o moment da manobra, tenho que saber qual é o momento em que a manobra se expressa por completo, digamos, o seu “ápice”. Cada manobra já tem o seu moment, quando os skatistas sabem que ela já foi quase completada por inteiro. É difícil explicar…

Pedro: É possível dizer, olhando a foto, se o fotógrafo acertou ou não o “moment” da manobra?

Renato Custódio: Não são todas as manobras que têm moments bonitos para uma foto. Existem manobras que ficam melhores quando fazemos a sequência dela, pois somente com o moment não se expressa toda a técnica dela. Mas por outro lado, hoje em dia estamos usando mais moments de manobras do que usávamos antigamente. Com o tempo, vamos enjoando das sequências, porque perde o valor artístico da foto. E o que você falou é certo: quando vemos uma foto, sabemos na hora se está no moment ideal ou não. Mas isso é relativo, dentro do moment ideal ainda tem micro-segundos que agradam mais a uns do que a outros.

Pedro: Queria te perguntar algo sobre uma perspectiva muito comum nas fotos de skate: a perspectiva rente ao chão. Isso me interessa pois acho que ela mostra o mundo (ou pelo menos uma parte dele) da perspectiva que interessa ao skatista, i.e., da cabeça para baixo.

Renato Custódio: Realmente, é muito comum, nós que fotografamos e filmamos skate, estarmos sempre muito rentes ao chão. Mas isso é mais quando estamos trabalhando com a fish eye, e também não é uma regra. Às vezes mudamos e fazemos de cima, ou na altura da manobra. Isso depende do tamanho do obstáculo também. Já fotografei manobra em banco baixinho que, se a foto não fosse feita bem rente ao chão, desvalorizaria o banco, que ficaria pequeno na foto. Então, muitas vezes, quanto mais rente ao chão, maior fica o obstáculo que está sendo usado para a manobra. Logo, a manobra será mais valorizada na primeira impressão.

1 comentário

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Uma resposta para “Conversa com o skatógrafo Renato Custódio

  1. Irado a matéria/entrevista – Renato custódio é um dos grandes fotógrafos de skate e artista. Tem técnica, talento… SKATE SEMPRE.

    Boas sessions.