Apontamentos sobre Deleuze e Guattari

D&G
“…tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e se eles não lhes servem, consigam outros, encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate.” (Gilles Deleuze, tomando para si palavras de Proust)

Pensamentos avulsos sobre Deleuze e Guattari, tecidos por ocasião de uma troca de e-mails que não chegou a nenhum lugar específico, e que disponibilizo aqui na expectativa de algum efeito.

POIESIS
Para mim, Deleuze e Guattari é poesia e ciência, tudo ao mesmo tempo, na máxima potência. Como nos bons e velhos tempos antes de separarem o mitos do logos e essas coisas todas. Na minha opinião, o que garante o bom funcionamento da máquina literária D&G é a busca daquele arrepio que se tem quando se lê algo que muda a vida. É a abertura para um devir, uma individuação conjunta escritor-livro-leitor. Nada é garantido. Sempre haverão frases que podem colocar tudo a perder. Essa é a aventura e a beleza. Não é um sistema. Não fecha. Há sempre um resto, um excesso, algo que escapa e que garante a continuação. Estamos sempre no meio, nunca no começo e nem no fim.

SOCIUS
Sobre o socius, eu prefiro pensar segundo a formula deleuze-guattariana de que só existem duas coisas: o desejo e o socius. O desejo é o que pulsa e produz (corte e fluxo, máquinas desejantes, formação=funcionamento), espécie de élan vital bergsoniano (ou o id freudiano). O socius é o que regula, desvia, contabiliza etc (codificação, sobrecodificação, axiomatização). Desejo é produção e socius é relação. Coração (repetição) e cérebro (diferença). Assim, o socius não seria “algo” substantivo, mas sim uma certa configuração mais ou menos estável de algo que tem mais o estatuto de um movimento do que de um movente (não é algo, mas sim algo que se faz com algo; socius como movimento de associação).

MÁQUINAS SOCIAIS
Segundo entendo, o socius não evolui, ele se transforma ou “involui”, ele ganha e perde camadas. A Máquina Capitalista Civilizada (MCC) não vem “depois” da Máquina Despótica Bárbara (MDB) e da Máquina Territorial Primitiva (MTP). Elas todas coexistem e prevalecem em graus variados em cada caso (a MCC já era conjurada pela MTP e a MTP é constantemente desterritorializada pela MCC). Cada máquina promove um socius diferente, um corpo pleno diferente. Boa parte da força da tipologia deleuze-guattariana de O Anti-Édipo deriva do evolucionismo que ela empresta da sua origem morganiana. Mas são eles mesmos que falam que as máquinas já coexistem desde sempre, e isso se evidencia nas ressonâncias de seu pensamento com o de Clastres. O Estado, segundo Clastres, é pressentido pelo selvagem e por isso é conjurado. O mesmo se pode dizer do capital. A MCC é uma virtualidade da MTP, assim como a MDB, e tudo isso reciprocamente. E de fato, foi essa não-linearidade das máquinas sociais que D&G acabaram privilegiando em Mil Platôs (Clastres, vale lembrar, está no meio: ele cita O Anti-Édipo em A sociedade contra o estado e depois é citado em Mil Platôs).

MÁQUINA DESEJANTE
Uma máquina desejante não evolui, ela simplesmente produz sua própria realidade. Não entendo que uma máquina desejante/acoplamento sofra transformações ao longo do tempo. Vejo as máquinas desejantes como constituintes do tempo, do espaço, e como operando todas as transformações. A existência desejante é uma coincidência do formar e do funcionar. Não existe “forma” para ser transformada, só “formação-como-funcionamento”.

CORPO PLENO e CORPO SEM ÓRGÃOS
Quanto ao corpo pleno, eu diria que o território é o corpo pleno da MTP, o déspota é o corpo pleno da MDB e o capital é o corpo pleno da MCC. O corpo pleno de cada uma das três máquinas sociais corresponde à palavra do meio de seu nome: MTP=”territorial”=território, MDB=”despótica”=déspota, MCC=”capitalista”=capital. Já o corpo sem órgãos é outra coisa, é outra estória. O corpo sem órgãos é o fantasma de todo corpo pleno existente. Ele assombra todas as máquinas sociais. E ele é também o gozo delas. Assim, o território, o déspota e o capital (os corpos plenos existentes) podem funcionar como corpo sem órgãos, mas apenas colocando em risco suas próprias organizações. Acho que o corpo sem orgãos corresponde ao que Deleuze e Guattari chamam de plano de consistência ou de imanência no Mil Platôs. É o grau-zero do real, onde MONISMO=MULTIPLICIDADE.

MATÉRIA, NATUREZA, REALIDADE etc.
E quanto à matéria, eu a entendo como uma maneira (histórica e dominante) de representar a resistência do mundo, mas que não precisa (e nem deve, na minha opinião) ser projetada sobre todo o mundo (lembro-me aqui da “concretudo mal-colocada” de Whitehead). Tenho a mesma opinião sobre outras palavras do mesmo tipo, como, por exemplo, “natureza” ou “realidade”.

DEVIR
Eu frequentemente uso o hífen para especificar o devir ao qual estou me referindo (devir-isso, ou devir-aquilo), mas acho importante nunca dar mais atenção ao lado direito da expressão do que ao seu lado esquerdo. É o devir que importa, e não aquilo que se devém (este último é mais propriamente o fim do devir, seu esgotamento). Além disso, já fui criticado (corretamente) por ter usado a expressão “devir-branco” para me referir aos índios que estavam usando as tecnologias modernas para fazer valer seus interesses na sociedade capitalista contemporânea. O problema é que o devir é sempre um devir minoritário, nunca majoritário. Existem devir-mulher e devir-criança, mas não devir-homem e devir-adulto. Assim, devir-índio até poderia haver, mas não devir-branco. Nada disso é certeza, pois o devir não obedece às leis. Mas eu tendo a achar estranho qualquer devir majoritário, como um devir-ciência por exemplo. Aliás, eu prefiro atualmente usar o devir intransitivamente. É devir e pronto. Mas isso tudo é questão em aberto para mim.

2 Comentários

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2 Respostas para “Apontamentos sobre Deleuze e Guattari

  1. Jair

    Olá!
    Gostei!
    estudo DG e achei mto legal seus avulsos!
    Grande abraço
    Jair