Entrevista com o DJ Lukas

DJ Lukas
DJ Lukas durante set especial de 8 horas no club espanhol Florida 135.

Obs: Entrevista com o DJ Lukas, realizada por Pedro P. Ferreira por e-mail entre fevereiro e março de 2009.

Pedro: Queria saber como você vê a relação da e-music com a dança. Muitos DJs dizem que a capacidade de animar a pista de dança é o principal critério para avaliar a qualidade de um DJ. O que você acha disso?

DJ Lukas: Eu sempre digo que o verdadeiro trabalho de um DJ não é mixar e sim entreter. Ou seja, o mais importante em um DJ não é se ele tem a melhor técnica do mundo, se mixa de ponta cabeça, se tem o cabelo alisado ou usa maquiagem, e sim que ele faça com que as pessoas voltem pra casa felizes, com sorriso no rosto!

Pedro: Então a animação da pista de dança é central para você como DJ?

DJ Lukas: Sem dúvida alguma. Existem dias que, tecnicamente, faço sets incríveis, porém não pego a pista de jeito. Nesses dias sempre saio insatisfeito. E o mesmo ao contrário: tem dias que não toco muito bem, mas vejo que a recepção da pista é excelente. Por mais que normalmente saia insatisfeito quando toco mal, no caso de a pista ter gostado eu vou feliz pra casa!

Pedro: Como a animação da pista de dança influencia na sua performance?

DJ Lukas: É a pista que me diz quais as músicas que vou tocar, em que ordem, a que velocidade e por aí vai. É sentindo a pista também que decido como mixar essas mesmas músicas. Tem dias que as mixagens são mais técnicas e suaves, buscando uma transição natural entre cada música. Tem dias que as mixagens são super agressivas, buscando dar mais energia e vibração. Algumas vezes acontece até de eu sentir que não tenho que mixar as músicas. Simplesmente paro uma e começo a outra. Tudo isso vem das sensações que a pista de dança transmite e de como essas sensações são interpretadas naquele determinado momento.

Pedro: Como você vê a relação entre a animação da pista de dança e a qualidade de sua apresentação?

DJ Lukas: Eu sempre falo que a pista sente tudo que você sente. Isso significa que eles só vão gostar se eu gostar. E na verdade eu só gosto se eles gostam. É um ciclo, uma troca de energia que rola, ou que ao menos deveria rolar! Alguns dias é simplesmente impossível conectar com a pista. Não sei dizer o porquê, mas em alguns lugares simplesmente não consigo conectar e sentir o público. Em geral, nesses dias eu saio bem descontente com o set.

Existem muitos tipos de DJ. Alguns não dão a mínima importância para a pista. Muitos inclusive dizem que a pista não está pronta para a música que eles tocam quando o set vai mal. Eu acho isso pura prepotência! Eu acho que a pista é o mais importante pra um DJ e que são eles (o público) que vão dizer como devemos trabalhar.

Pedro: Fiz contagens de BPM em uma apresentação sua em 2003 (festa Techcardia) e notei que o seu set começou com 143BPM e terminou, duas horas depois, com 149BPM. Fui a uma apresentação sua na Kraft no final de 2008 e fiz algumas contagens de BPM e descobri valores parecidos. Gostaria então de saber se você sempre toca nessa faixa de velocidade ou se você também se aventura em outras faixas de velocidade. Gostaria de saber também como você vê a relação entre as variações de velocidade dos seus sets e a animação da pista de dança. Você acha que a pista de dança tem preferência por certas velocidades?

DJ Lukas: Na verdade eu nem olho muito para a velocidade que estou tocando! Deixo sempre a pista me dizer a que velocidade querem que eu toque. Na Techcardia de 2003 eu acho que essa velocidade tá aproximada sim, porém na outra imagino que tenha sido algo mais rápido… De qualquer forma, não sei te dizer, pois realmente é algo que eu não levo muito em consideração na hora de tocar. Deixo mesmo que o público comande essa parte!

Claro que quando se escolhe uma linha de som, automaticamente você está escolhendo uma margem de velocidade pra tocar. Se mudar demais a velocidade da música, ela deforma demais. Mas eu sou muito aberto para isso. Me aventuro bastante em outras velocidades. Faço sets especiais de clássicos, que em geral são mais lentos, ou mesmo de coisas atuais com BPMs mais tranquilos. Digamos que toco de 120 a 180 BPM (risos).

Vale ressaltar que não toco sempre com o BPM crescente. Existem sets em que começo mais rápido e vou desacelerando, outros em que mudo a velocidade para mais e para menos no decorrer do set, e tem os típicos, quando começo numa velocidade e vou sempre aumentando. Também faço sets longos (de até 8hs em algumas ocasiões especiais) onde posso começar mais de boa e ir subindo. Realmente tento deixar a pista comandar isso e, dentro da flexibilidade que tenho pra cada ocasião, acelero ou seguro o pé de acordo com o que sinto da pista.

Sobre a preferência da pista por certa velocidade, acho que isso depende muito de onde você tá tocando, da cultura musical local de cada região e assim por diante. Porém, um bom DJ sabe levar a pista por vários caminhos.

Pedro: Eu queria saber como você vê a função do “break” (pra que ele serve, como ele funciona), e se ele tem alguma importância especial para você como DJ.

DJ Lukas: O break é um momento de mudança de energia em uma track. Isso existe em quase todos os gêneros musicais. As músicas são divididas entre introdução, ponte, coro etc. Na maioria dos estilos, o break é uma parte importante que, no geral, fica próxima do meio da canção. Eu vejo ele com algumas funções: pode causar expectativa, acalmar, progredir, entre muitas outras coisas. Em geral, ele gera algum tipo de emoção e serve para romper com o que vinha acontecendo. É complicado de definir assim, porque existem mil maneiras de fazer um break e mil coisas que se pode passar através deles. Existem desde breaks bem pequenos até uns enormes. Porém é fato que quase toda track tem um. Existem, sim, tracks sem break, mas é dificil!

Pra mim eles têm uma grande função sim. Tem muita track que eu toco só porque break dela vai gerar uma sensação que é a que estou buscando passar para a pista naquele determinado momento. É mais uma ferramenta dentre as que posso e devo saber usar na hora que estou ali junto ao público.

Pedro: Você disse que existem “mil maneiras de fazer um break e mil coisas que se pode passar através deles”. Mais especificamente, eu queria saber sua opinião sobre o break como estímulo à dança, ou como ponto de engate do corpo na música. Você considera o break um momento privilegiado da música para que as pessoas que não estavam ainda dançando comecem a dançar? Ou não? Você usa os breaks das músicas com essa função “dançante” ou não?

DJ Lukas: Isso vai depender do talento e da intenção de quem produziu a música. Existem alguns breaks que são tão brilhantes que realmente têm essa função de botar pra dançar quem ainda não estava muito conectado com a música. Porém, tem aqueles que têm função inversa… Muita música vem “bunitona” e, quando cai no break, vira uma coisa que é triste (risos). Mas no geral considero o break um momento privilegiado sim. Geralmente é nele que a música mostra a sua “alma”, mostra o seu “tema”. É nele que os elementos soam mais nítidos, onde tem espaco pra mais sentimento, seja ele de agressividade, suavidade ou qualquer outro.

Sobre como eu os utilizo, depende muito. Eu sou um DJ que tenta não ter vícios como artista. Ou seja, não usar as mesmas técnicas pra todas as músicas. Tento sempre analisar cada canção e decidir, no momento, qual a melhor maneira de utilizar suas partes. Por isso não consigo te dar uma utlização padrão para os breaks. Uso eles pra criar expectativa, progressão, pausa, e até mesmo para criar uma música totalmente nova, seja com este break e parte de outra música ou muitas vezes até com 2 discos iguais, ambos no mesmo ponto (break), reconstruindo sua estrutura musical através de algumas técnicas de discotecagem.

Pedro: Eu queria que você falasse um pouco sobre seu processo de produção, principalmente sobre as suas expectativas com relação à reação do público. Eu queria saber três coisas: (1) se você compõe as músicas imaginando os efeitos que ela terá sobre o público; (2) quais são os efeitos que você tenta causar no público; e (3) se o público reage do jeito que você tinha imaginado quando você toca suas tracks.

DJ Lukas: Eu não tenho muito uma fórmula na hora de produzir não. Ainda considero que estou em processo de desenvolvimento da minha sonoridade, e até por isso estou sempre experimentando coisas novas e tentando não cair muito em fórmulas. Mas é claro que imagino um pouco, sim, o efeito que ela vai ter na pista. Em muitas tracks o importante é expressar algum sentimento. Em outras é só terminar mais uma música mesmo… Tem de tudo um pouco. O pessoal não é tão sincero como eu ao falar disso. Sempre tentam falar disso como algo mais mágico e blablablá… Mas eu estou nesse meio e sei que as coisas são bem mais simples do que pintam por aí (risos).

Os efeitos que tento passar para o público são parecidos com os que te descrevi no caso dos breaks. Algumas vezes é algo mais profundo. Outras vezes o que quero é alguma sensação de stress, agitação, agressividade, potência… Depende muito do que sinto no momento que estou trabalhando na track e do que sinto que ela precisa. Algumas vão para um caminho mais alegre, outras para um caminho mais dark, e assim por diante.

Sobre a reação do público, nem sempre é como esperamos, né? (risos) Depende muito de como está o clima da noite, a cultura musical e de festa do local onde está sendo tocada a música, o momento em que você coloca a música… Tem que considerar o que vem antes e o que vai depois. São muitos fatores. Porém, muitas vezes rola sim a sensação esperada, e isso é muito legal de ver!

Mas tem uma coisa que eu tenho que deixar claro aqui: eu não toco muito as minhas próprias tracks. Alguns artistas são loucos para tocar o que fazem, sentir a pista com o que fizeram etc. Eu sou meio o oposto. Gosto de ver outros DJs tocarem o que eu fiz, mas nunca sinto o momento de colocar minhas próprias faixas. É claro que eu toco o que faço, mas acho que menos do que os outros artistas. Não sei se é porque eu escuto tanto elas no processo de criação que me canso…

DJ Lukas na Internet:
http://www.djlukas.com
http://www.myspace.com/deejaylukas

Comentários desativados em Entrevista com o DJ Lukas

Arquivado em Uncategorized

Os comentários estão desativados.