Nada#13


Bombástica. Esta é a palavra que melhor descreve, da capa à contracapa, o décimo terceiro número da revista portuguesa Nada. Lançado ainda em junho de 2009, só agora consigo escrever algo sobre ele aqui. E antes tarde do que nunca, pois este número da revista definitivamente não pode passar em branco.

A revista se divide, para mim, em três blocos. O primeiro, que inclui os três primeiros textos da revista, abre com o pé direito, com um texto magnífico (já publicado anteriormente em outros veículos em inglês e francês) do sociólogo Alberto Toscano: “O disparate: ontologia e política em Gilbert Simondon“. O texto oferece uma leitura de Simondon que se distingue daquelas de Paolo Virno e de Muriel Combes (classificados por Toscano como “naturalista” e “relacional”, respectivamente) e se aproxima bastante daquela de Herbert Marcuse (que Toscano apresenta como “um dos primeiros leitores de Simondon”), notando entretanto que “Marcuse perde de vista a descontinuidade impulsionada pelo evento, que em Simondon caracteriza a invenção e os objetos técnicos como maneiras de relacionar a colectividade social e política ao devir da natureza”(p.11). Iluminando as importantes ressonâncias políticas entre invenção e subjetivação no pensamento do filósofo francês, Toscano oferece uma valiosa contribuição para qualquer esforço de aproveitamento sociológico de Simondon.

Na seqüência vem “Acidente e simulação em JG Ballard: notas sobre e a partir de Crash“, no qual Luís Quintais desenvolve um estudo luminoso sobre o processo de concepção da idéia do livro Crash (1973) por JG Ballard. Teve especial importância nesse processo uma exposição do próprio Ballard no New Arts Laboratory de Londres, em 1970, na qual carcaças de automóveis acidentados foram expostas e, assim, permitiram ao artista “testar ali a sua hipótese sobre a relação inconsciente entre sexo e acidente de automóvel” (p.21).

Susana Ventura nos brinda em seguida com seu belo exercício literário/teórico “Being stuck: entre realidade e ficção, apropriação e representação, um piso e outro“. Ventura já havia publicado um texto sobre a “casa de Bordéus” (Maison à Bourdeaux, projeto de Rem Koolhaas) na Nada#10 (“E o elevador irrompeu em direção ao céu, atravessando as nuvens, rumo ao infinito…”), e agora retorna ao tema por ocasião do filme Koolhaas Houselife, do qual foram retiradas as seqüências de fotogramas da casa e de sua zeladora Guadalupe, que ilustram o texto. Guadalupe, segundo Ventura, “é o lado prático desta casa. Incumbida das tarefas diárias de cuidado e limpeza, é possível segui-la para todo o lado e verificar como tudo funciona – coisas que nem me passariam pela cabeça – ou desvendar as pequenas disfunções da casa.” (p.27) Daí a qualidade esquizoanalítica do texto, na medida em que oferece um acesso àquilo que poderia, com justiça, ser definido como o inconsciente maquínico da “casa de Bordéus”.

O segundo bloco da revista (segundo a minha leitura particular) abre com o amplamente ilustrado “Uma genealogia da Nano-Art através da escala: práticas fotográficas de Nigel Henderson no Arquivo da Tate Gallery“, no qual Assimina Kaniani argumenta, com base em certa pesquisa, que “o trabalho fotográfico de Henderson [desenvolvido nas décadas de 40 e 50] pode ver-se como precursor da nanoarte” (p.50). Josias de Paula Jr., da UFPB, vem em seguida com o instigante texto “Virtualização e guerra: biopolítica e robótica” (grande destaque deste segundo bloco, na minha opinião), no qual guerra, política e tecnologia são pensadas historicamente e em suas correlações contemporâneas. Chegamos então à única entrevista deste número, uma conversa sobre arte e filosofia (em uma palavra, “estética”) entre Jorge Leandro Rosa e a esteta Christine Buci-Glucksmann intitulada “Diálogo sobre as imagens cristalinas e o pensamento na arte“. E na seqüência vem o ricamente ilustrado “Infotransportadores biológicos para arquiteturas ubíquas“, dos arquitetos-artistas Frederico Fialho e Muge Belek.

O terceiro bloco no qual eu propus dividir a revista, que inclui seus últimos 4 textos, se inicia com o formidável “Humanos-não-humanos: apontamentos de campo sobre a exposição Sem simetria o social fica suspenso“, no qual Jorge Gomes desenvolve um estudo sócio-estético pontual e preciso da Actor-Network-Theory, em especial em sua versão latouriana. Gomes deixa clara a interessante possibilidade de inserir, com ressalvas importantes, a sociologia latouriana na tradição weberiana “compreensiva” (e também na do interacionismo simmeliano), ao retomar a clássica oposição entre os paradigmas sociológicos “explicativo” e “interpretativo”.

O arquiteto-fotógrafo Eduardo Costa, pesquisador dos usos documentais da fotografia de arquitetura, vem em seguida com “Fotografia de arquitectura: uma escrita da cultura“. Neste texto, a seqüência fotográfica que Arthur Köster fez em 1927 da Ein Wohmhauss (projeto de Bruno Taut), é tomada como ponto de partida para uma reflexão sobre “como a fotografia de arquitectura […] carrega uma série de recursos lingüísticos inerentes à câmara fotográfica e, ainda, manipuláveis pelo fotógrafo” (p.113).

A revista termina com: “Liberdade“, pílula literária na qual Aécio Amaral nos transporta para um dia na vida de um ex-presidiário em Recife; e “Na valeta“, mais uma máquina literária de fazer o tempo parar armada por João Urbano.

Tanto este quanto os números anteriores da revista Nada podem ser encontrados em Portugal, na Espanha e no Brasil – interessados podem deixar um comentário no final deste post. E vale noticiar também que, com o décimo terceiro número da revista, foi lançado o novo site da Nada, reformulado para oferecer, agora, um conteúdo exclusivo.

Pedro P. Ferreira

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