Karl Marx

BIOGRAFIA
Karl Marx nasceu a 5 de maio de 1818 em Treves, capital da província alemã do Reno. Pouco se sabe a respeito de seus antepassados mais longínquos. Seu pai, Hirschel, era advogado e conselheiro de justiça. Sua mãe, Enriqueta Pressburg, era descendente de rabinos. Em 1824, Marx abandonou o judaísmo.

Terminando o curso secundário em Treves, Marx matriculou-se na Universidade de Bonn, com a intenção de estudar jurisprudência. O jovem Marx descobriu a vida boêmia do estudante romântico e escreveu versos apaixonados à sua amiga de infância, Jenny von Westphalen, jovem de alta posição social com quem viria a se casar.

Cumprindo o desejo do pai, que pedia o término dos estudos antes do casamento, Marx matriculou-se, em julho de 1836, na Universidade de Berlim. Afastando-se cada vez mais do direito e apaixonando-se pela História e pela Filosofia, entregou-se ao trabalho com entusiasmo.

Embora estivesse em gritante desacordo como idealismo de Hegel, não deixou de ser envolvido e atraído por ele. Hegel havia morrido pouco antes (1831), e sua filosofia se convertera numa espécie de ideologia oficial.

O jovem Marx retornou a Treves em 1841. Abandonara definitivamente a carreira de advogado, pretendendo conquistar uma cátedra universitária. Se se doutorasse pela Universidade de Bonn, onde contava com o apoio de Bruno Bauer, poderia ensinar ali mesmo. Por isso redigiu Diferença entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e Epicuro, publicado postumamente. Esse opúsculo tem relação com a problemática levantada pela Fenomenologia do Espírito, de Hegel. Para Marx, o átomo, em Demócrito, representaria apenas uma categoria abstrata, uma hipótese que exprimiria um elemento empírico da natureza. Em Epicuro, ao contrário, consistiria numa forma natural que a consciência de si assume, de sorte que a atomística se transformaria num princípio absoluto, o qual, se realmente fosse concretizado, deixaria de referir-se exclusivamente às coisas, para configurar um momento do próprio Espírito.

Marx logo perdeu as esperanças de abraçar a carreira universitária, pois crescera a oposição a Bauer, que acabaria sendo expulso de Bonn. Antes disso, porém, Marx tivera a cautela de procurar uma universidade menor e mais neutra, doutorando-se então por Iena. Nessa época, Marx enviou um artigo para a revista Anedota contra a censura de imprensa, passando ainda a colaborar sistematicamente na Gazeta Renana, orgão liberal publicado em Colônia.

Inicia-se, assim, uma fase de transição, na qual Marx começou a ocupar-se com problemas propriamente políticos e sociais. Como assinalaria no prefácio de Para a Crítica da Economia Política, nesse momento ele se deparou, pela primeira vez, com a oportunidade de tratar de questões “materiais”, vendo-se na obrigação de analisar o processo, movido pelo Estado, contra o roubo de madeira feito pelos camponeses: estes continuavam a colher lenha das florestas, como lhes assegurava o direito consuetudinário, embora tais florestas estivessem agora subordinadas a outro regime de propriedade. Pouco a pouco, o que para Marx parecia dever ser uma revolução política, reclamando uma reorganização do Estado, transformou-se na idéia de uma revolução social, que deveria modificar a própria estrutura da sociedade como um todo.

O namoro da burguesia liberal alemã com a esquerda hegeliana durou pouco. A crítica social-democrata desenvolvida por Marx, o socialismo utópico de Moses Hess, afastaram os leitores da Gazeta Renana, que finalmente foi fechada pelo governo. Para Marx não restou outra solução a não ser emigrar para a França. Junto com Ruge e Heine, Marx assumiu a direção da revista neo-hegeliana Anais Franco-Alemães, que seria sediada em Paris. Assegurado pelo salário que receberia da revista, Marx venceu a oposição dos familiares, casou-se e partiu para a França.

Os Anais Franco-Alemães não foram além do primeiro número duplo, publicado em fevereiro de 1844. Marx participou com dois importantes trabalhos: Introdução a uma Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e A Questão Judaica.

A própria noção de crítica, tal como vinha sendo desenvolvida pelos neo-hegelianos, foi posta em xeque. A análise da Filosofia do Direito de Hegel, considerada como a mais pura expressão da Filosofia do Estado moderno, deveria ser feita, no entender de Marx, a partir da crítica do Estado real que lhe serve de base. Uma crítica, portanto, que deixaria de mover-se exclusivamente ao nível do discurso, para visar ao concreto, transformando-se numa política, procurando penetrar nas massas e converter-se na força social capaz de mudar a sociedade.

Para Marx, o Estado alemão de sua época representava o passado dos povos modernos, e a luta contra sua opressão assinalaria, pois, o esforço geral de emancipar a humanidade de todos os laços que a alienam. O homem, ser genérico e comunitário, não poderia realizar-se cabalmente sem ultrapassar a fragmentação das classes, das nações, enfim, de todos os particularismos que criam obstáculos ao desenvolvimento de seu ser. Toda a crítica, porém, permanece inócua, diz Marx, se não atinge a raiz do próprio homem, a ele mesmo enquanto ser concreto e a sociedade no interior da qual vive e se manifesta. Pela primeira vez Marx proclamava a luta de classes como o motor da História e o proletariado como o germe que deveria subverter a estrutura da sociedade moderna.

Influências diversas estavam desaguando, assim, numa matriz que viria a constituir um sistema coerente. Ao socialismo alemão (Hess, Weitling, Heine) veio juntar-se o socialismo francês (Fourier, Saint-Simon, Proudhon), para assumir uma nova forma. Uma difusa teoria da alienação do homem serve a Marx de base para a crítica teórica e prática do sistema capitalista. É nesse momento, ademais, que Marx inicia seu diálogo com a classe operária, frequentando suas reuniões parisienses, particularmente as da Liga dos Justos, uma associação de artesãos proletarizados cujo programa dava ênfase especial à supressão da propriedade privada e ao retorno para o comunismo primitivo.

Nesse número único dos Anais Franco-Alemães foi publicado um artigo de Friedrich Engels, Esboço de uma Crítica da Economia Política, que marcou uma virada no pensamento de Marx. Engels, depois de ter estudado em Berlim, residia nesse momento em Manchester, na Inglaterra, ocupando-se dos negócios do pai. Lá tomou contato mais direto com a Economia Política e a situação da classe trabalhadora, sobre a qual, logo mais, escreveria um célebre trabalho. A crítica desenvolvida no artigo de Engels situava-se no exterior do campo da Economia Política, assentando-se numa antropologia de corte feuerbachiano.

Depois de Adam Smith, segundo Engels o primeiro economista a reconhecer o trabalho como fonte da riqueza, os economistas entraram numa escalada de cinismo. Progressivamente foram despojando o homem de suas qualidades propriamente humanas, até o ponto de Ricardo chegar a privilegiar o produto em prejuízo do produtor. A Economia Política, continua Engels, é a ciência da sociedade civil, terreno em que os homens se defrontam como particulares e proprietários, mas como tal não é mais do que o lugar da alienação, onde o homem perde seu caráter essencial e genérico. Por não ter posto em causa o postulado da propriedade privada e por não ter anteposto ao privativismo da sociedade civil a universalidade do homem, a Economia Política, segundo Engels, não consegue fazer uma crítica radical da sociedade moderna. A Economia Política, porém, não deixou defornecer preciosos subsídios para uma crítica da teoria do Estado. Esse aspecto foi imediatamente percebido por Marx, que, daí para a frente, faria dessa ciência seu principal objeto de estudo.

Do mesmo modo que Engels, Marx partiu da idéia feuerbachiana do homem como um ser genérico, pensando, além do mais, a sociedade civil como o lugar de sua alienação. Esta, porém, segundo Marx, nasce da forma de trabalho a que o sistema de produção, orientado para a posse e para o mercado, submete o trabalhador. No entanto, por mais que se veja fechado no circuito de ferro da propriedade privada, o homem não deixa de carecer humanamente de produtos que estão nas mãos de outrem. Estabelece-se, assim, uma tensão que o projeta além da propriedade privada e o leva à desalienação. Obedecendo a esse esquema, Marx escreveu uma série de textos que seriam postumamente publicados, em 1932, sob o título Manuscritos Econômico-Filosóficos.

A coincidência de perspectivas e de resultados conduziu Marx e Engels a um trabalho comum. O primeiro desses trabalhos, A Sagrada Família: Crítica de uma Crítica Crítica, analisa as consequências políticas do neo-hegelianismo. É uma polêmica feroz contra Bruno Bauer e seus irmãos Edgard e Egbert, os quais, como editores da Gazeta Geral Literária, publicada em Charlottemburgo, preconizavam uma política liberal que se poderia chamar de “elitista”. Em lugar do isolamento do Espírito diante das massas, Marx e Engels preconizavam um amplo entrosamento da teoria com os proletários, pois, diziam, nada é mais ridículo do que uma idéia isolada de interesses concretos.

O livro ainda não havia sido publicado, quando Marx foi expulso do território francês em fevereiro de 1845, refugiando-se em Bruxelas. O motivo imediato da expulsão foi um artigo escrito para a revista Vorwaerts, publicada em Paris por Einrich Bornstein, que circulava entre os emigrados alemães. O artigo, que tratava da greve dos tecelões da Silésia, foi usado pelo governo prussiano para pressionar o ministro francês Guizot a fechar a revista e perseguir seus redatores.

No novo exílio, entre 1845 e 1846, Marx e Engels redigiram a Ideologia Alemã, um balanço de suas próprias consciências filosóficas, onde a ruptura com Feuerbach, por certo, ocupa o lugar mais importante. Para Marx e Engels, por desconhecer o caráter ativo dos objetos naturais, mediados pela prática do homem, Feuerbach caiu numa concepção especulativa sobre a naturalidade do homem, desligada da política e da história, do desenvolvimento de si próprio a partir de suas condições reais de existência. A despeito de seu interesse, a Ideologia Alemã não encontrou editor e ficou, até sua publicação póstuma em 1932, abandonada, como disseram mais tarde seus autores, “à crítica roedora dos ratos”.

Em Bruxelas, Marx continuou a ocupar-se de política. As condições eram propícias, pois a Europa estava sendo sacudida por comoções sociais em 1848. Marx começou, em Bruxelas, participando da recém fundada Liga dos Comunistas, que para ele representava o primeiro ensaio de superar a contradição entre uma organização internacional e os agrupamentos nacionais em que se aglutinavam os operários. Foi para o segundo congresso da Liga que Marx e Engels prepararam o célebre Manifesto do Partido Comunista.

O texto abre-se com uma análise da luta de classes e termina convocando os operários do mundo inteiro à união. Marx estava visando a fins precisos. O movimento comunista apresentava, antes de tudo, um caráter utópico. Reduzidos a uma pobreza crescente, conforme aumentava a riqueza da sociedade, os operários passavam a sonhar com uma sociedade sem classes em que a abolição da propriedade privada garantiria a todos a satisfação de suas necessidades. Como imprimir a essa força social utópica um cunho científico, capaz de uma crítica teórica efetiva da sociedade capitalista que redunde num programa político? É nesse sentido que o Manifesto Comunista insiste na necessidade de substituir a luta contra a propriedade privada em geral pelo projeto da apropriação coletiva dos meios de produção, atingindo, pois, pela raiz, tanto o funcionamento do modo de produção capitalista, quanto a fonte da alienação do homem que vive numa sociedade desse tipo.

Essa nova orientação revela uma mudança radical de Marx diante da Economia Política, que se percebe claramente se forem comparados os Manuscritos Econômico-Filosóficos, de 1844, com a Miséria da Filosofia, escrito durante o inverno de 1846-7. Proudhon acabara de publicar Filosofia da Miséria, cujo programa político centra a luta contra a sociedade capitalista no controle sobre o lucro e os juros. Para Marx, esses são fenômenos meramente superficiais da produção burguesa, que não podem ser postos em causa se não forem atingidos os próprios mecanismos de exploração postos em ação pelo capital. A análise de tais mecanismos só pode ser feita, segundo Marx, levando em consideração os resultados da Economia Política, passando em revista, de uma forma crítica, os processos de produção da mercadoria. Se antes Ricardo era censurado como um cínico, porque confundia homens com chapéus, agora Marx reconhecia que tal confusão não reside na cabeça do economista, mas provém da própria ordem das coisas no sistema capitalista.

Nesse ano turbulento de 1848, Marx desenvolveu intensa atividade. O rei da Bélgica, Leopoldo, respondia à agitação popular do início do ano dissolvendo todo tipo de associação operária e perseguindo os exilados que haviam fixado residência no país. Marx e sua mulher foram tratados duramente e, afinal, expulsos, retornando a Paris.

A Liga dissolveu-se no próprio crescimento da vaga revolucionária, e Marx transferiu-se para Colônia, onde fundou a Nova Gazeta Renana. Nessa nova situação, passou a defender a aliança do proletariado e dos camponeses com a burguesia, numa soma de esforços que deveria visar à liquidação dos restos do Antigo Regime, ainda vigentes na Alemanha. Mas a vitória de seus adversários obrigou-o, mais uma vez, a buscar exílio.

Pobre como nunca, pois até a herança que acabara de receber fora gasta na aventura da revista, Marx, depois de passar por Paris, fixou-se definitivamente em Londres.

Em Londres, Marx aproveitou o recesso político para dedicar-se integralmente a seus estudos. Mas, antes de retomar os trabalhos de Economia, escreveu O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852), onde analisa o golpe de Estado de Napoleão III, e o bonapartismo como uma forma de governo em que a burguesia se deixa levar quando se vê na emergência de uma crise.

O 18 Brumário representava também uma tentativa de resolver a péssima situação financeira de seu autor. Tratando de um assunto do momento, Marx esperava ganhar algum dinheiro. Ele, a mulher, duas filhas, mais uma fiel empregada que os acompanhou a vida inteira, passavam as piores privações, pois Marx insistia em não aceitar um emprego que não estivesse de acordo com suas orientações intelectuais. A única vez que, por desepero, pleiteou um lugar num escritório de uma empresa, foi recusado em virtude de sua péssima caligrafia. Vivia só dos artigos que conseguia encaixar nesta ou naquela revista. Por oito anos colaborou, com dois artigos semanais, no New York Tribune, que, no entanto, não lhe garantia um rendimento regular. O mais importante para sua sobrevivência era o auxílio de Engels, que o socorria sistematicamente. Mas não foi fácil editar O 18 Brumário, que somente veio à luz em Nova Iorque, quando um emigrado alemão ofereceu suas economias, uns 40 dólares, a Weydemeyer, amigo e colaborador de Marx, que no “Novo Mundo” continuava sua propaganda política.

Trabalhando árdua e sistematicamente, Marx passou a concentrar todos os seus esforços no projeto de uma crítica da Economia Política. Todos os dias, por volta das 9 horas, chegava ao Museu Britânico e abandonava-o às 7 da noite; muitas vezes continuava o trabalho madrugada adentro. Descanso, além dos períodos de estafa em que caía doente, só o tinha regularmente aos domingos, quando passeava com a família pelos prados de Hampstead. Algumas vezes recebia a visita de um amigo, mas raros eram aqueles que quebravam seu isolamento voluntário. Muitos o consideravam pretensioso e arrogante.

A gestação do novo trabalho foi demorada, e só em 1859 ficou pronto o texto de Para a Crítica da Economia Política. O manuscrito teve que esperar alguns dias para ser enviado ao editor, na Alemanha, porque faltava dinheiro para os selos. Numa carta a Engels, Marx comenta:

“Seguramente é a primeira vez que alguém escreve sobre o dinheiro com tanta falta dele. A maioria dos autores que escreveram sobre esse tema estava numa magnífica harmonia com o objeto de suas investigações”.

O livro, entretanto, passou despercebido. Os próprios companheiros, que o esperavam e que se empenharam em sua edição, como Liebknecht e Lassalle, não o compreenderam.

Esse foi o período mais produtivo da vida de Marx. O público, porém, teria que esperar até 1867, quando da publicação de O Capital, para ler algum texto seu. À medida que aprofundava suas investigações, Marx escreveu para si próprio uma enorme quantidade de textos, hoje reunidos, em grande parte, em Esboços da Crítica da Economia Política e Teorias sobre a Mais-Valia, sendo que este último deveria constituir o quarto volume de O Capital.

Porém, tão logo ressurgiram as lutas operárias, Marx voltou à cena, dedicando um tempo precioso a trabalhos de organização. Em setembro de 1864, realizou-se no Saint Martin’s Hall uma grande assembléia de trabalhadores, onde Marx teve a oportunidade de apresentar o projeto de uma Associação Internacional dos Trabalhadores. Numa carta a Bolts, de novembro de 1871, quando essa associação já entrava em seu ocaso, Marx comenta:

“A Internacional foi fundada para substituir as seitas socialistas ou semi-socialistas por uma organização efetiva da classe operária que a levasse à luta. Os estatutos primitivos, assim como a alocução inaugural, mostram-no desde o primeiro instante. Além disso, a Internacional não poderia afirmar-se se a marcha da História já não tivesse despedaçado o regime de seitas. O desenvolvimento das seitas socialistas e o movimento operário real mantêm uma relação inversa constante. Enquanto tais seitas se justificam, a classe operária não está madura para um movimento autônomo. Tão logo atinja essa maturidade, todas as seitas se tornam reacionárias por essência. No entanto, na história da Internacional, repete-se o que a história mostra em toda parte. O que envelheceu procura reconstruir-se e manter-se no próprio interior da forma recém-adquirida. E a história da Internacional foi uma luta contínua no Conselho geral contra essas seitas e tentativas amadorísticas que, no quadro da Internacional, procuravam se afirmar contra o movimento real da classe operária”.

Como exemplo dessas “seitas reacionárias”, Marx cita os proudhonianos franceses, os lassallianos alemães e a Aliança Democrática Socialista, de Bakunin, de tendência anarquista. Para os estudiosos das Ciências Políticas, uma análise desse tipo coloca questões cruciais ligadas, no fundo, à relação entre um movimento internacional e os movimentos nacionalistas.

A obra máxima de Marx ficou apenas no primeiro volume. No primeiro capítulo, Marx resume, dando-lhes forma mais acabada, os resultados obtidos em Para a Crítica da Economia Política. A riqueza da sociedade em que predomina o modo de produção capitalista – assim começam ambos os livros – aparece como um enorme acúmulo de mercadorias. Daí surge a primeira questão: o que é a mercadoria na qualidade de forma elementar da produção capitalista? Marx adota a teoria do valor, desenvolvida pelos clássicos, para a qual o valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção. Mas ele o faz integrando-a num contexto diferente, onde a dielética hegeliana, funcionando de ponta-cabeça, deve conduzir a trama das categorias. Dessa perspectiva, a mercadoria se apresenta como, ao mesmo tempo, um objeto a ser usado (um valor de uso) e um objeto a ser trocado (um valor de troca). Graças ao desenvolvimento dessa contradição, Marx pôde explicar o dinheiro como uma mercadoria que passa a ocupar uma posição muito especial dentro do sistema de troca: a ele, todas as mercadorias se referem para encontrar a expressão de seu valor.

Problema maior é compreender a natureza do capital, isto é, de uma soma de dinheiro (ou de mercadoria) que passa a ter naturalmente a propriedade de engendrar mais dinheiro. Donde provém, por exemplo, a riqueza que garante a uma pessoa, cujo dinheiro está no banco, receber juros depois de um prazo determinado? Nas condições mais simples, o dinheiro serve para facilitar as relações de troca ou pagar dívidas, sendo pois uma espécie de intermediário entre valores previamente determinados. Se as trocas movimentam valores equivalentes, se, além disso, o salário representa uma troca entre o produtor e o trabalhador, o valor de um produto final seria determinado pela soma de todo o tempo de trabalho socialmente necessário acumulado nele, desde o momento em que começou a ser trabalhado até sua chegada ao consumo. Nessas condições, se não houver logro nas trocas, e se a produção consistir tão-somente numa adição de valores ao objeto, como alguém pode receber mais dinheiro do que investiu na produção desse objeto? Para resolver essa questão, Marx recorre ao duplo caráter do trabalho produtor de mercadoria.

Na sua forma mais simples, o trabalhador produz uma utilidade, um valor de uso; não produz, porém, apenas para si, mas também para outrem, que por sua vez deve ter disponível outra utilidade com a qual trocará o resultado de seu trabalho. Se, todavia, não encontrar quem troque com ele o objeto produzido, simplesmente perde seu tempo e o produto excedente apodrece em sua casa. Isso mostra que, do ponto de vista do sistema, não importa o trabalho concreto (se é de lavrador ou de artesão), mas unicamente o trabalho abstrato (sem qualidades específicas), aquele de que a sociedade como um todo precisa para produzir os objetos de que seus membros necessitam. Um tal trabalho se apresenta no mercado como uma mercadoria muito especial: a força de trabalho.

Como trabalho concreto, o trabalho tem valor de uso e se distingue pelo fato de ser trabalho de lavrador, artesão, pedreiro etc. Como trabalho abstrato, o trabalho tem apenas valor de troca e, na forma de uma mercadoria vendida no mercado, se iguala como força de trabalho humana genérica. O mesmo ocorre com os produtos desse trabalho: como valores de uso, as mercadorias possuem qualidades específicas que as distinguem entre si; mas como valores de troca, elas se igualam por manifestarem apenas quantidades variáveis de uma mesma unidade monetária. Quando alguém compra uma dada quantidade de trabalho e depois vende os produtos desse trabalho, recebe, além da quantia originalmente investida, uma mais-valia, um excedente que provém do resultado do trabalho concreto gerido por ele. Daí a definição do capital como a propriedade que garante ao capitalista explorar trabalho alheio. Se, de fato, o capital se apresenta como uma coisa que cresce por si mesma, no fundo se resume a uma relação social de expoliação. Todo o sistema capitalista fica, assim, orientado para a exploração da mais-valia: se produz valores de uso, o faz de modo indireto, pois lhe interessa apenas o valor de troca.

Um modo simples de obter mais-valia é prolongando a jornada de trabalho, procedimento, contudo, que logo encontra seus limites físicos: o dia de 24 horas e o desgaste natural do trabalhador. Um meio mais eficaz de obter mais-valia é aumentando a produtividade do trabalho, fazendo com que, no mesmo intervalo de tempo, mais objetos sejam produzidos. É por essa via que o modo de produção capitalista promove um tremendo desenvolvimento das forças produtivas (aliando-se à cência e à tecnologia), libertando o homem do jogo da natureza e das tradições e criando, em seu próprio seio, as condições para a mudança das próprias relações sociais de produção que o definem.

O primeiro volume de O Capital teve também uma divulgação cheia de dificuldades. O mundo acadêmico por muito tempo o ignorou, embora os grupos políticos logo começassem a estudá-lo. Já em 1872 saiu a primeira tradução, naRússia, seguindo-se a tradução francesa. Marx não chegou a ver, entretanto, a tradução inglesa que tanto esperava, pois faleceu em 1883.

Não é fácil a leitura dessa obra, que exige do leitor uma verdadeira ruptura com o senso comum. Árduo é compreender como a lei do valor, por exemplo, não se verifica na superfície dos fenômenos econômicos, mas serve de ponto de partida de um tecido de categorias que, além decaminhar do abstrato para o concreto, vai das profundezas das estruturas para a superfície das aparências. Durante séculos, no interior de quadros institucionais diferentes, os homens produziram basicamente para seu próprio consumo e de seus chefes; apenas os excedentes eram lançados no mercado. Aos poucos, entretanto, amplia-se o sistema de trocas, que invade esses modos de produção seminaturais, até o momento em que logra subordinar toda a produção ao seu domínio. A produção se volta então essencialmente para a troca. Mas, com isso, se quebra a naturalidade do homem, que fica prestes a aceder a um outro tipo de História, na qual seria o dono de seu próprio destino.

Além dessas dificuldades com o método e a História, a leitura do primeiro volume de O Capital defronta-se com as limitações inerentes a uma publicação inacabada. Faltavam os outros volumes. O segundo, sobre a circulação de capitais, só apareceu em 1885; o terceiro, que discute o processo capitalista em sua totalidade, só apareceu dez anos mais tarde. Ambos foram elaborados por Engels a partir dos manuscritos deixados por Marx.

Com o decorrer dos anos, as teses de Marx converteram-se no marxismo, um movimento social com características próprias.

CRONOLOGIA
1818 – Marx nasce em Treves (província alemã do Reno) em 5 de maio.

1836 – Marx se matricula na Universidade de Berlin e fica noivo de Jenny von Westphalen.

1846-1847 – Marx escreve A Miséria da Filosofia.

1848 – Marx e Engels publicam O Manifesto Comunista.

1852 – Marx publica O 18 Brumário de Luís Bonaparte.

1859 – Marx publica Para a Crítica da Economia Política.

1864 – Marx apresenta, no Saint Martin’s Hall, o projeto de uma Associação internacional dos Trabalhadores.

1852 – Marx publica o primeiro volume de O Capital.

1883 – Marx morre em Londres, em 14 de março.

1885 – É publicado o segundo volume de O Capital.

1894 – É publicado o terceiro volume de O Capital.

CITAÇÕES
“[N]a produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina a realidade; ao contrário, é a realidade social que determina sua consciência. Em certa fase de seu desenvolvimento, as forças produtivas da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade, no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas, que eram, essas relações convertem-se em seus entraves. Abre-se, então, uma era de revolução social. A transformação que se produziu na base econômica transtorna mais ou menos lenta ou rapidamente toda a colossal superestrutura. Quando se consideram tais transformações, convém distinguir, sempre, a transformação material das condições econômicas de produção — que podem ser verificadas, fielmente, com a ajuda das ciências físicas e naturais — e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas, sob as quais os homens adquirem consciência desse conflito e o levam até o fim. Do mesmo modo que não se julga o indivíduo pela idéia que de si mesmo faz, tampouco se pode julgar uma tal época de abalos pela consciência que ela tem de si mesma. É preciso, ao contrário, explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha sociedade.”
MARX, Karl. 1859. Prefácio. In: Contribuição à Crítica da Economia Política. [Extraído de: IANNI, Octavio (Org.). 1988. Karl Marx: Sociologia. (Trad. Florestan Fernandes) São Paulo: Ática, pp.82-3.]

FONTES
GIANNOTTI, José A. (cons.). 1974. Marx. In: Os Pensadores: história das grandes idéias do mundo ocidental. Vol.III. São Paulo: Abril Cultural, pp.685-704.
IANNI, Octavio (Org.). 1988. Karl Marx: Sociologia. (Trad. Florestan Fernandes) São Paulo: Ática.

OBRAS DIGITALIZADAS
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. 1848. Manifesto do Partido Comunista.
MARX, Karl. 1852. O 18 Brumário de Luís Bonaparte.
MARX, Karl. 1857. Para a Crítica da Economia Política.
MARX, Karl. 1867. O Capital: Crítica da Economia Política incluindo “Salário, Preço e Lucro” (pp.72-119).

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