NTICs e socialidade contemporânea: uma entrevista


Segue abaixo uma entrevista que cedi à jornalista Flaviana de Freitas e que foi usada na matéria “Viciados em mobilidade”, publicada no número 17 (pp.22-8) da Revista do Comércio de Jahu. Tentei responder às perguntas da melhor maneira possível (por email, pelo celular…), tentando ao mesmo tempo não ser muito acadêmico e nem muito superficial, por isso achei que a entrevista merecia ser publicada na íntegra aqui (com pequenas revisões). Para mim, a maior dificuldade nesse tipo de situação é o fato de que as respostas às perguntas precisam envolver, via de regra, desconstruções das próprias perguntas, dada a quantidade de pressupostos problemáticos implícitos e implicados nas perguntas. Mas mesmo assim acho válido o esforço, no sentido de ampliar possíveis efeitos de minhas pesquisas no mundo extra-acadêmico. Meus agradecimentos à jornalista pela entrevista!

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Por que a sociedade contemporânea é cada vez mais dependente de tecnologias?
De uma perspectiva sócio-antropológica, nossa dependência de tecnologias existe desde as origens da humanidade. Desde a pedra lascada somos “dependentes” de tecnologias, em parte devido à nossa própria constituição orgânica, mal servida de armas e proteções naturais (orgânicas), mas muito bem dotada de capacidades cognitivas. Assim, não vejo a sociedade contemporânea como cada vez mais dependente de tecnologias, pois toda sociedade o é. O que vejo é uma transformação nas tecnologias das quais somos dependentes, de tecnologias mecânicas e ligadas ao movimento (engrenagens, motores etc) para tecnologias informacionais e cibernéticas (computadores e sistemas de informação).

Isso revela uma maior carência da sociedade em geral, que encontra nas redes sociais e nos aplicativos de celular uma forma de estar mais próxima dos outros?
Prefiro não interpretar como “carência” algo que vejo simplesmente como uma característica de uma sociedade. Isso seria etnocentrismo ou mesmo senso comum. A partir desta perspectiva, as redes sociais digitais e os aplicativos de celular contribuem sim, para um novo tipo de proximidade entre as pessoas, um tipo que não existia antes, e que não elimina, mas se acrescenta àqueles que já existiam antes (e os transforma). É verdade que esse novo tipo de proximidade digital tem certas contradições, como a impessoalidade e a aparente perda de sentido de termos como “amizade”, mas é sempre mais interessante tentar entender como essa aparente impessoalidade e perda de sentido, na verdade, revelam novas formas de o ser humano viver em sociedade, novas formas de se conceber a amizade, em lugar de julgá-las por critérios tradicionais.

Qual é a consequência que o uso intenso de tecnologia gera para as pessoas?
Isso depende daquilo que se considera “intenso”, do tipo de tecnologia, e do tipo de pessoa. No geral, podemos notar que o uso intenso da tecnologia tende a tornar as pessoas mais sedentárias por um lado, mas também mais flexíveis e plurais por outro lado. Ou seja, o corpo vai perdendo a importância como meio de transporte e de ação, mas a mente vai se ampliando com um maior acesso à cultura, ao conhecimento, e à diversidade. Mas isso depende, varia caso a caso. Podem haver situações opostas, como no caso dos esportes extremos, que exigem muito mais do corpo, ou no caso de grupos de internet que fomentam a segregação social, o preconceito, e a violência, que em lugar de abrir a mente, intensifica o seu fechamento em preconceitos.

Hoje em dia, vemos grupos de pessoas que, apesar de estarem juntas, ficam cada uma conversando virtualmente pelo celular? Isso revela individualismo?
Isso depende do caso, evidentemente, mas se a pessoa está conversando virtualmente pelo celular, presume-se que ela esteja conversando com outras pessoas, e portanto não revela exatamente um “individualismo”, mas sim novas maneiras de se relacionar, que já não dependem mais apenas do contato direto. Muitas vezes, em lugar de promover um individualismo, a comunicação por celular potencializa as relações sociais. Isso se dá principalmente no caso de pessoas que, sem essa mediação, não conseguiriam se comunicar, e que com ela passam a poder (por exemplo, pessoas em países diferentes, ou que pertencem a grupos sociais que tradicionalmente não se misturam). Por outro lado, o contato direto tem a sua especificidade e o seu valor, e é de fato estranho ver como as pessoas preferem ficar olhando para a tela de seu celular a olhar para as pessoas ao seu redor. Isso pode, sim, acredito, contribuir para isolar as pessoas de seu entorno. Assim, existem muitas possibilidades, e acredito que cada caso deva ser entendido em sua especificidade.

1 comentário

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Uma resposta para “NTICs e socialidade contemporânea: uma entrevista

  1. Joana Peixoto

    Pedro, valeu o esforço. Acho que você conseguiu desconstruir os pressupostos implícitos nas questões propostas. E estou de acordo com todo o seu raciocínio.