O preço e o valor de um Silva

Segue abaixo uma curta passagem editada de um texto que escrevi em co-autoria com Guilherme F. Paciornik, e que será publicado em breve na revista Filosofia e Educação.


[…]
Em 1978, Cleodon Silva (1949-2011) vivenciou ativamente sua primeira greve. Trabalhava, então, na metalúrgica Barbará, na zona sul de São Paulo. Nesse período, desenvolveu mecanismos de comunicação operária interna à fábrica: comprava os jornais, tirava fotocópias e montava uma publicação alternativa. Silva orquestrou todo um conjunto técnico para promover a reflexão de seus companheiros, uma “técnica para o enfrentamento” ao lado de tantas outras mobilizadas por ele em favor da luta dos trabalhadores (cf. Paciornik 2013:199).

“[C]hegava cedo, comprava o jornal e, nas minhas idas ao banheiro, eu recortava os artigos e, com um bastão de cola, montava os artigos do jornal de interesse ali. Inclusive, quando estava anunciando as primeiras greves, eu montava um jornalzinho dentro do banheiro da fábrica, cortando, e colocava em um plástico. […] Aí colocava dentro de uma pasta de desenho e, na hora do almoço, ia numa ótica que tinha perto, tirava 10, 15 cópias. No almoço já começava a circulação das notícias dos jornais que interessavam à luta dos trabalhadores. […] Colocava as coisas e escrevia uma pergunta, alguma coisa entre uma matéria e outra. Com lápis, com caneta mesmo fazia, em letra de forma, algumas perguntas para orientar a discussão. E isso era de uma eficácia enorme. A gente colocava dentro de um plástico, porque o pessoal trabalhava muito com óleo […]. De um lado estava o desenho [técnico da peça que estava sendo produzida], do outro lado, o boletim. O pessoal lia, inclusive, na hora do trabalho […], mas se chegasse um chefe, um encarregado, qualquer coisa, era só virar a página com o desenho da peça que você estava produzindo. Então tinha esquemas de burlar a vigilância e o controle patronal.” (Silva, in: Paciornik 2013:195).

Ainda em 1978, a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (OSM, de cuja direção Silva participou entre 1971 e 1972 e em 1975) ganhou as eleições sindicais, mas não tomou posse. A ditadura interveio, através do Ministério do Trabalho, e empossou novamente Joaquim Santos Andrade, o “pelego” Joaquinzão, como presidente do sindicato. O documentário Braços cruzados, máquinas paradas, de 1979, dirigido por Roberto Gervitz e Sérgio Toledo, registra esse momento histórico, contando, inclusive, com uma fala de Silva no episódio dessa eleição sindical. Com a fama de ser da direção da OSM, somada ainda com a assunção da identidade de Pedro Macambira (pseudônimo sob o qual Silva publicou cordéis militantes entre 1978 e 1990), começou a ficar cada vez mais difícil para Silva conseguir emprego em fábricas. Passou a ter de se transformar para cada entrevista: “Tive que aprender e desenvolver toda a técnica de falsificação de carteira profissional. A minha questão era falsificar para trabalhar”. (Silva, in: Paciornik 2013:199).

Em 1987, em mais uma disputa do sindicato dos Metalúrgicos, a OSM conseguiu a lista de filiados do Sindicato, e coube a Silva a “saga” de passar os dados daquela fita magnética para disquetes – na época 3:4, os “bolachões”. Silva viajou até Belo Horizonte para transferir os dados na sede do sindicato dos bancários, tendo sucesso na operação e voltando a São Paulo com caixas e caixas de disquetes com a informação dos filiados. Na capital paulista, encontrou um programador que trabalhava com banco de dados, e acompanhou os passos desse profissional enquanto ele fazia a transferência e lia os disquetes. “Fiquei ouvindo o programador discutir com o computador como se este fosse uma pessoa, e [fiquei] pensando naquilo”, relata. Foi a primeira vez que ouviu falar em banco de dados e em como organizar a informação.

Pouco depois, duas preocupações o levaram a procurar um programador. A primeira era a realização do mapeamento das empresas metalúrgicas na cidade, criando microrregiões, para que os militantes pudessem ter maior conhecimento das fábricas nesses espaços delimitados. A segunda, no campo da saúde, se tratava de referenciar os trabalhadores das fábricas ao sistema público de saúde. Isso era importante pois os médicos das fábricas, em lugar de assessorar os trabalhadores, frequentemente se limitavam a informar os patrões sobre as doenças, permitindo que estes demitissem funcionários antes que os sintomas se agravarem, o que criava obstáculos para demonstrar que um eventual problema de saúde fora causado pelo processo produtivo de uma fábrica específica, e responsabilizá-la por isso. O programador procurado então lhe explicou que, se a informação estivesse disponível no formato adequado, seria possível fazer uma programação que contemplasse as demandas de Silva.

“Pronto, isso mudou minha vida. […] Foi quando eu vi pela primeira vez a lógica da programação, a articulação dos códigos de programação. […] Mudou tudo na minha vida. Tudo que eu estava fazendo, todos os limites que eu estava encontrando foram sendo quebrados” (Silva, in: Paciornik 2013:203).

Silva foi aos poucos migrando para a discussão de sistemas de informação. É a partir daí que começa seu trabalho de localização da informação no espaço urbano, programando ainda em DOS e relacionando o dado que estava no computador com o mapa em papel que estava ao lado. Em 1988, fundou o Instituto Lidas – Ligas em Defesa do Ambiente e da Saúde, originariamente voltado para a questão do ambiente e saúde do trabalhador, mas que, a partir de 1990, começou a se dedicar também à questão de políticas urbanas com ênfase nos filhos de trabalhadores. O Lidas existe até hoje e sempre serviu como um ambiente de trabalho para Silva, auxiliando tanto em suas necessidades materiais como no financiamento das lutas nas quais se envolvia.

Em 1992, pelo Instituto, Silva apresentou um projeto junto à ECO 92 que partia de uma ideia interessante e nunca antes realizada: fazer o cruzamento da malha urbana de ruas com o mapa de bacias e sub-bacias hidrográficas e com o cadastro industrial do Senai de empresas com mais de cinco trabalhadores. Na época, a representação na tela do computador ainda não era em mapas (não se visualizava com imagens gráficas), mas Silva fazia a transposição gráfica dos dados para mapas de papel.

“Numa sub-bacia, se eu encontrasse no córrego mercúrio ou chumbo, metais pesados, pelo código de atividade econômica das empresas daquela sub-bacia, eu inferia quem trabalhava com chumbo. Porque o código da atividade econômica diz o que produz. E pelo que produz você sabe se contém chumbo ou não. Com rápidas aproximações […] eu estava com todas as empresas que destinavam os efluentes para o córrego sem tratamento.” (Silva, in: Paciornik 2013:204).

Infelizmente, o projeto foi muito mal aceito pelos empresários e pela área do governo responsável pelo Programa de Despoluição do Tietê à época, pois a ideia central do programa não era, segundo Silva, a efetiva despoluição do Tietê:

“[O] programa de despoluição foi usado por uma determinada faixa de empresários, que tinha alguma influência, que pegava o dinheiro da despoluição do Tietê pra reequipar, fazer inovação tecnológica na maquinaria. Na verdade não foi para despoluir, foi utilizada essa grande massa de dinheiro por interesses particulares.” (Silva, in: Paciornik 2013:204)

Em moldes semelhantes, durante o governo de Luiza Erundina na cidade de São Paulo, entre 1989 e 1993, Silva fez o georreferenciamento de crianças nas creches, cruzando os dados de localização de creches e de moradia e trabalho dos pais, de forma que as crianças pudessem ir de fato para a creche mais conveniente e com o menor deslocamento possível.

“Nós cadastramos todas as crianças que estavam em creches. Relacionei a moradia da criança com o trabalho do responsável dela: moradia e trabalho, do pai e da mãe. Então a gente sabia exatamente qual era a situação para racionalizar a utilização do sistema. Ou não se deslocar muito tempo com a criança nesses ônibus lotados. Tem muitos e muitos casos em que a mãe sai 5h da manhã com a criança no colo. Poderia deixar a criança numa creche próxima da casa, evitaria o deslocamento da criança.” (Silva, in: Paciornik 2013:204)

Outra experiência que o marcou foi georreferenciar, para o Sindicato dos Motoristas de São Paulo, todos os dados profissionais e de moradia dos filiados – quem era da comissão de garagem, quem era da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) etc. “Foi um fiasco”, conta Silva. Em um primeiro momento, os representantes do Sindicato ficaram maravilhados, mas, pouco depois, admitiram que fizeram um pacto para recusar o sistema. A justificativa era simples, conta Silva: “Porque se uma tendência (interna do sindicato) pegasse aquilo ia acabar com as outras. A questão da transparência, um monte de coisas ficava muito visível.” (Silva, in: Paciornik 2013:205).

“Foi uma grande decepção da minha vida. Quando eu descobri uma coisa que ia ajudar o enfrentamento e a luta dos trabalhadores, verifiquei que isso daí, dentro do movimento sindical, não tem vez. […] Pode entrar qualquer coisa, mas […] transparência, não […] entra nesse movimento sindical que nós temos. E essa não foi a primeira não. Tive outras experiências com o movimento sindical. É tanto que, agora, eu não tenho interesse nenhum em atender qualquer solicitação do movimento sindical. Às vezes eu vou, só para ver se tem algum sinal de vida, […] mas não tem. […] Inclusive uma agora, recente […] Era a coisa mais horrorosa que tem. Queria utilizar tudo só do ponto de vista do controle, realmente na questão do controlar, monopolizar e estabelecer pensamento único. E, aí, o preço que eu cobrei, não se dispuseram a pagar.” (Silva, in: Paciornik 2013:205)

[…]

Referência:
PACIORNIK, Guilherme F. 2013. Movimentos sociais e as novas tecnologias da informação e comunicação: um estudo de caso na zona sul da cidade de São Paulo, a Casa dos Meninos. Dissertação de Mestrado. Campinas: Programa de Pós-Graduação em Sociologia do IFCH/Unicamp. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000920115

Comentários desativados em O preço e o valor de um Silva

Arquivado em Uncategorized

Os comentários estão desativados.