encontros codificados


Respondi recentemente a algumas questões do jornalista Vinícius Martins para uma matéria sobre apps de relacionamento (“Apps da paquera”), que foi publicada (em versão editada) na página 16 da edição de 9 de abril de 2017 da revista semanal Metrópole, do jornal Correio Popular, de Campinas. Como já fiz em outras ocasiões, segue abaixo a íntegra da entrevista.

1) Como esses aplicativos (Tinder, Happn, Par Perfeito, Badoo etc.) interferiram nas relações das pessoas?

Entendo que esses aplicativos de relacionamento são redes sociais digitais, e que redes sociais existem desde que existem sociedades. Assim, trata-se de uma nova versão, digital, de algo que sempre existiu: redes sociais.

Tendo dito isso, vejo essa interferência sob dois aspectos. Por um lado, entendo que a interferência é a mesma que a de qualquer outro meio de comunicação: eles colocam realidades, antes isoladas, em comunicação, por meio de uma redefinição de suas diferenças. Assim, esses apps interferem nas relações das pessoas da mesma forma que a linguagem articulada, a linguagem escrita, ou o telefone: redefinindo as diferenças entre as pessoas ao colocá-las em comunicação. Por outro lado, e diferentemente da linguagem articulada, escrita, ou do telefone, a digitalização da cultura e da vida apresenta algumas novidades importantes, que começaram a surgir com a informática e a automação em meados do século XX, e ganharam sua forma atual com a Internet na passagem para o século XXI. A novidade é a informação digital e o seu modo de existência codificado, fazendo de cada ação, ou acontecimento, um registro resgatável e capitalizável.

Hoje, cada clique, cada post, cada tecla digitada, deixa um rastro que pode tanto nos ajudar a realizar nossos objetivos, quanto nos tornar vulneráveis àqueles que podem nos impedir de realizá-los. Um perfil num app de relacionamento pode favorecer tanto encontros felizes como tristes, e se o objetivo do usuário é encontrar um parceiro, o objetivo da empresa é gerar lucro, e a quantidade de informações que ela reúne sobre cada um de seus usuários é, cada vez mais, sua maior riqueza. Numa época em que os apps e seus algoritmos usam os rastros digitais de nossas interações para nos sugerir novos produtos, novos relacionamentos interpessoais, novos sonhos e desejos, não estamos mais apenas nos comunicando pelas nossas diferenças, mas fazendo disso um processo rentável para muitos (os donos das empresas), e até mesmo para nós mesmos, se nossos encontros forem felizes.

Resumindo, como sociólogo, entendo que os apps interferem nas relações pessoais da mesma forma que qualquer outro meio de comunicação, exceto por uma diferença: a possibilidade que a empresa (mas também cada um de nós, em diferentes medidas) tem, de resgatar e capitalizar nossos rastros digitais, as pegadas que deixamos quando interagimos nesses apps.

2) Em sua opinião, esses apps vieram para ajudar ou dificultar as relações?

Em minha opinião, esses apps ajudam e dificultam as relações interpessoais. Ajudam, pois possibilitam a manutenção de dezenas, centenas, ou até milhares de parceiros virtuais, potenciais, latentes, só esperando o momento certo para serem ativados. Nesse sentido, a sorte é uma oportunidade bem aproveitada, e ter um perfil online permanentemente disponível à interação tende a aumentar as oportunidades de interação que podem, eventualmente, ser bem aproveitadas. A força dos laços fracos, proposta originalmente pelo sociólogo norte-americano Mark Granovetter em 1983, só aumenta com as redes sociais digitais. Hoje é possível manter muito mais laços fracos do que antes das redes sociais digitais. Isso multiplica nossas possibilidades de experiências relacionais.

Por outro lado, também acho que esses apps dificultam as relações, uma vez que estabelecem cada vez mais mediações técnicas como condição para que elas existam. O sociólogo alemão Max Weber definiu, em 1918, a ação social, como sendo “uma ação que, quanto a seu sentido visado pelo agente, se refere ao comportamento de outros, orientando-se, por este comportamento, em seu curso”. Quando um perfil em um app pode ser visto por dezenas, centenas, ou até milhares de outras pessoas, como agimos socialmente quando criamos esse perfil, ou mesmo quando interagimos online? Como levar em consideração o comportamento de tantos outros em cada ação que realizamos nesses apps?

Resumindo, apesar de, geralmente, ampliar significativamente o leque de possibilidades de relacionamento para os usuários, esses apps também podem agir negativamente, aumentando a pressão social que normatiza nossos comportamentos, podendo até intensificar problemas relacionais já existentes ou latentes.

3) O app é capaz de substituir as relações físicas, propriamente ditas?

Não acredito nisso, por dois motivos. Primeiro, pois a informação digital não é imaterial, antes é objeto da engenharia elétrica e de computação. Segundo, pois tudo nesses apps de relacionamento leva a crer que o objetivo final é um encontro presencial entre as pessoas. De qualquer forma, seria interessante imaginar se não poderia existir um modo de vida diferente, que prescindisse de encontros presenciais, e que encontrasse nesses apps um ambiente propício para se reproduzir. Este seria até um bom tema de pesquisa sociológica.

4) Como perceber que está extrapolando na quantidade de uso?

Como sociólogo, não vejo como estabelecer um critério para avaliar o uso desses apps a ponto de identificar exageros. Aproveitando uma ideia clássica de Durkheim, eu diria que a diferença entre o normal e o patológico é que, enquanto normal é aquilo que é visto como socialmente positivo, o patológico é aquilo que é visto como socialmente negativo. Em outras palavras, quem define o que é bom ou mau são as próprias pessoas que sofrem as consequências dessa definição, e elas fazem isso juntas, e das mais diversas formas.

5) Nos apps as pessoas ficam mais soltas. Quando se conhecem, pode existir alguma frustração?

Acredito que sim, pois frustrações podem acontecer em qualquer relacionamento, e não vejo porque seria diferente em relacionamentos mediados por apps. De qualquer forma, acredito que aquilo que eu já disse à luz de Weber pode ser lembrado aqui: quando agimos socialmente, levamos em consideração o efeito que nossa ação tem sobre os outros. Assim, o app pode sim levar o usuário a agir de uma maneira que ele não consegue sustentar presencialmente, gerando frustração.

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