Porque Simondon é anticapitalista sem falar em capitalismo


Como desdobramento da última reunião do Grupo de Estudos Gilbert Simondon (GrEGS) deste semestre, segue minha tradução de uma passagem luminosa da conclusão de Du mode d’existence des objets techniques. Trata-se, vale dizer, da única ocorrência da palavra “capitalismo” na obra toda.

Por meio do objeto técnico se cria […] uma relação interhumana que é o modelo da transindividualidade. Isso pode ser entendido como uma relação que não coloca os indivíduos em relação por meio de suas individualidades constituídas (separando-os uns dos outros), e nem por meio daquilo que existe de idêntico em todo sujeito humano (por exemplo, as formas a priori da sensibilidade), mas por meio dessa carga de realidade pré-individual, dessa carga de natureza que é conservada com o ser individual, e que contém potenciais e virtualidade. O objeto que resulta da invenção técnica traz consigo algo do ser que o produziu, exprime deste ser aquilo que, nele, é menos ligado a um hic et nunc [aqui e agora]; poderíamos dizer que existe algo da natureza humana no ser técnico, desde que a palavra natureza designe isso que permanece de original, de anterior mesmo à humanidade constituída no ser humano; o ser humano inventa e coloca em funcionamento seu próprio suporte natural, esse ἄπειρον [ápeiron] que permanece ligado a cada ser individual. Nenhuma antropologia que parta do homem como ser individual pode dar conta da relação técnica transindividual. O trabalho, entendido como produtivo, na medida em que provém do indivíduo localizado hic et nunc, não pode dar conta do ser técnico inventado; não é o indivíduo que inventa, é o sujeito, mais vasto que o indivíduo, mais rico que ele, e comportando, para além da individualidade do ser individuado, uma certa carga de natureza, de ser não individuado. O grupo social de solidariedade funcional, como a comunidade de trabalho, só coloca em relação os seres individuados. Por isso, ele necessariamente os localiza e os aliena, inclusive fora de qualquer modalidade econômica do tipo descrito por Marx sob o nome de capitalismo: pode-se definir uma alienação pré-capitalista, essencial ao trabalho enquanto trabalho. […] Não queremos dizer que a alienação econômica não existe; mas pode ser que a principal causa de alienação esteja essencialmente no trabalho, e que a alienação descrita por Marx não passe de uma das modalidades dessa alienação: a noção de alienação merece ser generalizada, de forma a situar o seu aspecto econônico; se fizermos isso, a alienação econômica estaria já no nível das superestruturas, e suporia um fundamento mais implícito, que é a alienação essencial envolvida na situação do ser individual no trabalho. (Gilbert Simondon. 2008. Du mode d’existence des objets techniques. Paris: Aubier, pp.248-9).

Aqui Simondon argumenta que o trabalho é uma relação individual (orgânica, vital) com o mundo, e que a relação transindividual (coletiva, subjetiva, propriamente humana) com o mundo não corresponde ao trabalho, e sim à invenção (que é coletiva-subjetiva). O capitalismo, aqui, aparece como uma consequência, um desdobramento, da manutenção-continuação, em seres já potencialmente humanos, de uma relação ainda não propriamente humana com o mundo (i.e., mediada pelo trabalho individual). Muito importante aqui me parece ser o uso da expressão hic et nunc (aqui e agora) para precisar que: aquilo que há de humano no objeto técnico corresponde àquilo que o humano compartilha com o mundo não humano, a sua interface com esse mundo, algo que sempre existiu, mas que o objeto técnico torna mediável.

Pós-Escrito:
Vale acrescentar aqui a reação de nosso colega Rafael Alves da Silva a este post, apresentando duas passagens de A ideologia alemã (São Paulo: Boitempo, 2009.) “onde vemos que Marx também encontrou uma limitação para o ‘trabalho’ e precisou de outro termo, selbsttätig (auto-atividade):

“O trabalho, único vínculo que os indivíduos ainda mantêm com as forças produtivas e com sua própria existência, perdeu para eles toda aparência de auto-atividade e só conserva sua vida definhando-a. Enquanto, em períodos precedentes, a auto-atividade e a produção da vida material estavam separadas pelo único fato de que elas incumbiam a pessoas diferentes e que a produção da vida material, devida à limitação dos próprios indivíduos, era concebida ainda como uma forma inferior de autoatividade, agora a auto-atividade e a produção da vida material se encontram tão separadas que a vida material aparece como a finalidade, e a criação da vida material, o trabalho (que é, agora, a única forma possível mas, como veremos, negativa, da auto-atividade), aparece como meio”. (Marx & Engels, 2009: 72-73)

“É o mesmo fenômeno que o da subsunção dos indivíduos singulares à divisão do trabalho e ele só pode ser suprimido pela superação da propriedade privada e do próprio trabalho” (Marx & Engels, 2009: 63-64)

Seria o caso de explorar as conexões entre essas ideias, a começar pela tese de doutorado do próprio Alves da Silva: O trabalhador do futuro ou o futuro do humano.

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