Química sonora


C11H15NO2: Molécula da metilenodioximetanfetamina (MDMA), mais conhecida como “ecstasy”.

Segue abaixo uma versão editada das minhas reações a algumas questões enviadas por e-mail pelo jornalista e etnomusicólogo Felipe Maia para a redação da matéria “Até Anitta entrou na onda: som das raves domina o eletrônico nas periferias“, publicada em 14/02/2020, na seção Arte & Design do site TAB, da UOL. Agradeço muito ao Felipe pela oportunidade de resgatar um trabalho já antigo, agora à luz de novas questões.

Música e substâncias alteradoras

O uso de substâncias alteradoras, associado à música e à dança, faz parte da evolução humana, desde os primórdios. Embora nem todos os grupos sociais pratiquem esse tipo de associação, não acredito que tenha existido um tempo em que nenhum grupo humano o fizesse.

A ingestão de substâncias alteradoras tem, como efeito previsto e esperado, a alteração das relações da pessoa com o mundo. O tempo passa diferente, as cores assumem aspectos excepcionais, formas e objetos conhecidos se revelam sob outros ângulos e contextos. Surge, em suma, uma mediação nova, entre a pessoa e o mundo, que exige reconfigurações nas suas formas habituais de agir, pensar e sentir. Alterações desse tipo podem ser provocadas de muitas outras maneiras além da ingestão de substâncias específicas. Exercícios aeróbicos e técnicas de meditação também podem alterar a relação do praticante com o mundo. Experiências de dor, sofrimento e doença também produzem esse tipo de alteração. Experiências estéticas, disparadas por obras de arte, também têm esse potencial alterador, e acho que a MEP entra aqui, como experiência estética de tipo corporal, que envolve o movimento do corpo na dança.

Música eletrônica de pista (MEP) e alteração

A associação entre ecstasy e MEP é tão forte quanto aquela entre maconha e reggae, ou entre rock progressivo e LSD, no sentido de serem essas todas associações sinérgicas entre certas alterações psicossomáticas geradas pela substância ingerida, e outras alterações, igualmente psicossomáticas, geradas pelo som em alta intensidade. O fato de o ecstasy ser uma substância sintética, produzida em laboratório, é significativo, se entendermos que o transe promovido pela MEP tem uma qualidade técnica. O fato de ser uma substância empatogênica também me parece relevante, se considerarmos o ambiente individualista e neoliberal dominante no qual surgiu, e a partir do qual se disseminou, o seu uso associado à MEP: a Inglaterra de Thatcher.

É interessante pensar também na participação das substâncias alteradoras na coevolução do som e do movimento na MEP. Por um lado, existe um vínculo explícito entre ecstasy e MEP. Este vínculo pode se manifestar de muitas formas no próprio som. Uma delas, por exemplo, é a sutil manipulação das frequências que compõem o timbre de sequências de baixo de sintetizadores como o Roland TB-303, e a maneira como essa manipulação corresponde a, e intensifica, alterações na sensibilidade tátil, geradas pelo ecstasy. Mas além de se somar e se associar aos efeitos dessas substâncias, a música pode também mimetizar e incorporar estes efeitos, de maneira a inclusive provocar, por meio do som, certos efeitos da substância. Trata-se da experiência, muito comum, de sentir os efeitos de uma substância sem de fato ingeri-la, apenas se deixando levar pelo efeito de sons ligados aos seus efeitos.

As frequências graves, abaixo de 300 Hz, quando amplificadas acima de 90 dB, têm efeitos ressonantes sobre o corpo humano, em especial nas cavidades do tórax, abdome e pescoço. É quase como se estivéssemos sendo “empurrados”, pelo som, para a pista de dança. Somada às alterações geradas pela ingestão de certas substâncias, este efeito dinamogênico pode ser potencializado, ou desdobrado em novos sentidos. Em festas de MEP, os graves agem como um meio vibratório que envolve os corpos na pista de dança, alterando seus movimentos como ondas num mar invisível. Mas esse uso “imersivo” dos graves, impraticável antes dos desenvolvimentos na captação e amplificação elétrica do som, que ocorreram em meados do século passado, não é exclusivo da MEP, antes sendo encontrado em todos os tipos de música eletricamente amplificada, do sertanejo ao heavy metal.

O estudo científico da relação música-dança-drogas

A relação entre os efeitos da ingestão de certas substâncias, e os efeitos dos sons da música no corpo humano, está bem longe de ser um tema muito pesquisado nas ciências sociais ou áreas relacionadas. Na verdade, os efeitos das substâncias alteradoras acabam sendo muito pesquisados pela área da saúde (medicina, psicologia), e os efeitos da música, pela área das artes ou comunicação. Via de regra, as ciências sociais costumam recortar seu objeto de forma a trabalharem apenas com representações (as visões do sujeito sobre essa experiência, e as relações dela com parâmetros sociológicos como classe, etnia, gênero, geração etc), e raramente com “o corpo” ou com processos não representacionais.

Música eletrônica e xamanismo

Minha tese de doutorado (Música eletrônica e xamanismo: técnicas contemporâneas do êxtase) resultou de uma pesquisa sobre: o que é xamanismo, quando um DJ diz que é um xamã. É uma pesquisa que buscou colocar em movimento estas duas noções (xamanismo e música eletrônica, ou xamãs e DJs) a partir da forma como elas eram relacionadas por DJs e frequentadores de festas. Eu parti da relação estabelecida por essas pessoas, para tentar fazer sentido dela. Meu objetivo não foi questionar essas relações, ou conferir se era verdadeira, mas sim tentar compreender como ela seria possível, se fosse.

No xamanismo indígena tradicional, costuma-se traduzir a sua viagem como um “êxtase”, que corresponde a um movimento do espírito-alma para fora (ex-) do corpo. O caso paradigmático, e muito comum em diversas partes do mundo, é o desmaio do xamã, quando a imobilidade de seu corpo (no chão, ou numa rede) corresponde a uma viagem de sua alma. Mas no caso da MEP, a experiência parecia menos a de uma disjunção corpo-alma, e mais de uma sinergia som-movimento, que eu achei mais apropriado designar pela palavra “transe.” Um transe que eu qualifiquei como “maquínico”, pela sua qualidade técnica. Com isso, cheguei à conclusão de que, se o DJ é um xamã, então seu êxtase é uma espécie de transe maquínico, definido pela sinergia entre som e movimento: quando os movimentos do corpo são comandados pelo som, e quando o som corresponde a estes movimentos.

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