Entre vírus e devires

O modo de existência do vírus permitiu a Gilles Deleuze e Félix Guattari falarem sobre algumas de suas principais ideias. Num rápido levantamento da palavra “vírus” em Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, cheguei em três textos. Segue abaixo uma breve síntese daquilo que eles falam sobre vírus nesses textos.

No texto “Rizoma”, Deleuze e Guattari (2000) elencam seis “Princípios”: (1o) de conexão; (2o) de heterogeneidade; (3o) de multiplicidade; (4o) de ruptura a-significante; (5o) de cartografia; e (6o) de decalcomania. É no contexto do 4o princípio (de ruptura a-significante), que eles retomam o tema, já trabalhado em O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia, da “mais-valia de código” no duplo devir vespa-orquídea, explicando que:

A orquídea se desterritorializa, formando uma imagem, um decalque de vespa; mas a vespa se reterritorializa sobre esta imagem. A vespa se desterritorializa, no entanto, tornando-se ela mesma uma peça no aparelho de reprodução da orquídea; mas ela reterritorializa a orquídea, transportando o pólen. A vespa e a orquídea fazem rizoma em sua heterogeneidade. (Deleuze e Guattari 2000:18)

Os autores destacam que não se trata apenas de “mímese, mimetismo, fingimento”, “imitação nem semelhança” (isso só ocorre “no nível dos estratos”), mas sim “de algo completamente diferente”:

[C]aptura de código, mais-valia de código, aumento de valência, verdadeiro devir, devir-vespa da orquídea, devir-orquídea da vespa, cada um destes devires assegurando a desterritorialização de um dos termos e a reterritorialização do outro, os dois devires se encadeando e se revezando segundo uma circulação de intensidades que empurra a desterritorialização cada vez mais longe. […] [E]xplosão de duas séries heterogêneas na linha de fuga composta de um rizoma comum que não pode mais ser atribuído, nem submetido ao que quer que seja de significante. (Deleuze e Guattari 2000:18-9)

Estamos, assim, diante de dois seres: a orquídea e a vespa. Dois seres em evolução a-paralela, segundo a qual a orquídea se desterritorializa na vespa ao reterritorializar sua silhueta, e a vespa se desterritorializa na orquídea ao reterritorializar o sistema reprodutor dela. Deleuze e Guattari (2000:18-9) usam um conjunto de termos expressivos de uma certa política libidinal, como “captura de código”, “mais-valia de código”, “aumento de valência”, para se referirem a esse duplo devir, segundo o qual algo que acontece entre a vespa e a orquídea se torna parte inseparável de suas respectivas transformações. Eles parafrasearam o biólogo Rémy Chauvin, para nomear esse processo como uma “[e]volução a-paralela de dois seres que não têm absolutamente nada a ver um com o outro” (Deleuze e Guattari 2000:19).

Neste ponto, eles passam para o caso do “vírus de tipo C”, ao qual os biólogos Raoul E. Benveniste e George J. Todaro dedicaram alguns artigos desde os anos 1970. Aquilo que até aqui foi apresentado como um duplo-devir da vespa e da orquídea, passa a ser apresentado como uma nova entidade, o vírus, bloco de devir entre múltiplas espécies.

Em certas condições, um vírus pode conectar-se a células germinais e transmitir-se como gene celular de uma espécie complexa; além disso, ele poderia fugir, passar em células de uma outra espécie, não sem carregar “informações genéticas” vindas do primeiro anfitrião (como evidenciam as pesquisas atuais de Benveniste e Todaro sobre um vírus de tipo C, em sua dupla conexão com o ADN do babuíno e o ADN de certas espécies de gatos domésticos). (Deleuze e Guattari 2000:19)

Numa nota de rodapé, Deleuze e Guattari (cf. 2000:19 nota 4) citam o seguinte trecho do artigo “Le rôle des virus dans l’évolution”, publicado por Beneviste e Todaro no número 54 da revista La Recherche, em 1975:

Após integração-extração numa célula, e tendo havido um erro de excisão, os vírus podem carregar fragmentos de ADN de seu anfitrião e transmiti-los para novas células: é, aliás, a base do que se chama engenharia genética. Daí resulta que a informação genética própria de um organismo poderia ser transferida a um outro graças aos vírus. Se se interessa pelas situações extremas, pode-se até imaginar que esta transferência de informação poderia efetuar-se de uma espécie mais evoluída a uma espécie menos evoluída ou geradora da precedente. Este mecanismo funcionaria então em sentido inverso àquele que a evolução utiliza de uma maneira clássica. Se tais passagens de informações tivessem tido uma grande importância, seríamos até levados em certos casos a substituir esquemas reticulares (com comunicações entre ramos após suas diferenciações) aos esquemas em arbusto ou em árvore que servem boje para representar a evolução. (Benveniste e Todaro, apud Deleuze e Guattari 2000:19 nota 4)

Beneviste e Todaro (apud Deleuze e Guattari 2000:19 nota 4) mostram, a partir de casos nos quais poderia ter havido “transferência de informação […] de uma espécie mais evoluída a uma espécie menos evoluída ou geradora da precedente”, a vantagem de “substituir esquemas reticulares (com comunicações entre ramos após suas diferenciações) aos esquemas em arbusto ou em árvore que servem boje para representar a evolução”. Infelizmente não encontrei o artigo publicado em La Recherche, mas em outros dois artigos publicados na mesma época por Benveniste e Todaro (1974, 1975), encontrei diagramas que ilustram perfeitamente tais “esquemas reticulares”:


Fig.01: Figura 3 de Benveniste e Todaro (1974:458), demonstrando possíveis vias de cruzamento genético, mediado por vírus, entre ramos filogenéticos já diferenciados (neste caso, felinos e primatas).


Fig.02: Figura 3 de Benveniste e Todaro (1975:4093), demonstrando possível via de cruzamento genético, mediado por vírus, entre ramos filogenéticos já diferenciados (neste caso, roedores e artiodátilos).

Mais adiante, em “10.000 a.C – A geologia da moral (quem a Terra pensa que é?)”, Deleuze e Guattari (2000:68) retomam implicitamente as pesquisas de Benveniste e Todaro para falarem das “transferências de fragmentos de código entre células oriundas de espécies diferentes, Homem e Rato, Macaco e Gato, por intermédio de vírus ou outros procedimentos”.

Ao apresentarem “[c]omunicações transversais [“ao-lado”] entre linhas diferenciadas embaralham as árvores genealógicas”, as pesquisas de Benveniste e Todaro ajudaram Deleuze e Guattari (2000:19-20, 68) a evidenciarem um “esquema de evolução” diferente do usual, um esquema que não é baseado no “velho modelo da árvore” e da “descendência arborescente, indo do menos diferenciado ao mais diferenciado”, mas sim num “rizoma que opera imediatamente no heterogêneo e salta de uma linha já diferenciada a uma outra”. Primatas e felinos ocupam, aqui, o mesmo papel da vespa e da orquídea. O “vírus de tipo C”, vetor material desse devir interespecífico, é aqui a novidade, junto com todos os pressupostos sobre espécies mais ou menos evoluídas.

É o caso, ainda aqui, da evolução a-paralela do babuíno e do gato, onde um não é evidentemente o modelo do outro, nem o outro a cópia do primeiro (um devir babuíno no gato não significaria que o gato “faça como” o babuíno). Nós fazemos rizoma com nossos vírus, ou antes, nossos vírus nos fazem fazer rizoma com outros animais. […] Evoluímos e morremos devido a nossas gripes polimórficas e rizomáticas mais do que devido a nossas doenças de descendência ou que têm elas mesma sua descendência. O rizoma é uma antigenealogia.(Deleuze e Guattari 2000:19-20)

Os dualismos de Deleuze e Guattari não são simples oposições. Ao oporem rizoma a genealogia, eles não nos obrigam escolher entre elas, apenas nos indicam como transitar de uma para a outra e de volta. Se o rizoma é “uma antigenealogia”, esta nem por isso deixa de fasciná-lo, a ponto de ser possível falar em “descendência” mesmo de “nossas gripes polimórficas e rizomáticas”. Se a desterritorialização da orquídea é a reterritorialização da vespa, no caso dos vírus cria-se mais uma instância de des-reterritorialização, mais multiplicidade: os próprios vírus passam a poder se desterritorializar e reterritorializar em seus diferentes hospedeiros. Novos tipos de bulbos intermediários surgem entre os bulbos já existentes. O rizoma só se adensa.

Em “1730 – Devir-intenso, devir-animal, devir-imperceptível)”, Deleuze e Guattari (1997:19) retomam o caso do vírus ao apresentarem os seguintes três “blocos de devir”: o que “toma a vespa e a orquídea, mas do qual nenhuma vespa-orquídea pode descender”; o que “toma o gato e o babuíno, e cuja aliança é operada por um vírus C”; e o que toma “raízes jovens e certos microorganismos, as matérias orgânicas sintetizadas nas folhas operando a aliança (rizosfera)”. A novidade aqui é a “rizosfera”, na qual plantas e microorganismos ocupam os lugares já ocupados por vespa e orquídea, felinos e primatas, roedores e artiodátilos, nós e nossos vírus. E o termo “involução” é aqui proposto com alternativa à ideia de evolução por filiação, como “evolução que se faz entre heterogêneos”. Involuir, para Deleuze e Guattari (1997:19), não é regredir “em direção ao indiferenciado”, mas sim “formar um bloco que corre seguindo sua própria linha, ‘entre’ os termos postos em jogo”.

Os bandos, humanos e animais proliferam com os contágios, as epidemias, os campos de batalha e as catástrofes. É como os híbridos, eles próprios estéreis, nascidos de uma união sexual que não se reproduzirá, mas que sempre recomeça ganhando terreno a cada vez. As participações, as núpcias anti-natureza, são a verdadeira Natureza que atravessa os reinos. A propagação por epidemia, por contágio, não tem nada a ver com a filiação por hereditariedade, mesmo que os dois temas se misturem e precisem um do outro. O vampiro não filiaciona, ele contagia. A diferença é que o contágio, a epidemia coloca em jogo termos inteiramente heterogêneos: por exemplo, um homem, um animal e uma bactéria, um vírus, uma molécula, um microorganismo. Ou, como para a trufa, uma árvore, uma mosca e um porco. Combinações que não são genéticas nem estruturais, inter-reinos, participações contra a natureza, mas a Natureza só procede assim, contra si mesma. (Deleuze e Guattari 1997:22-3)

Acho que poderíamos dizer que, para Deleuze e Guattari, os vírus podem ser vistos de duas perspectivas: (1) como agentes patogênicos que diminuem a vitalidade de nosso organismo individual, de nossa unidade específica (como “núpcias anti-natureza”); (2) como agentes rizomáticos que conectam nosso devir orgânico, e mesmo específico, a outros devires de nosso ambiente (como “a verdadeira Natureza que atravessa os reinos”). Com Deleuze e Guattari, vírus não deixam de ser ameaças à nossa saúde, mas passam também a ser informação sobre o estado de nossa (des)conexão com o nosso ambiente.

Referências
BENVENISTE, Raoul E.; TODARO, George J. 1974. Evolution of C-type viral genes: inheritance of exogenously acquired viral genes. Nature 252:456-9.
__________. 1975. Evolution of type C viral genes: preservation of ancestral murine type C viral sequences in pig cellular DNA. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America 72(10):4090-4.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. 1997. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. vol.4. São Paulo: Ed.34. [1980]
__________. 2000. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. vol.1. São Paulo: Ed.34. [1980]

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