Monólogo de um vírus francês


Em 21 de março de 2020 o site lundimatin publicou o texto “Monologue du virus”. Traduzido para o português como “Monólogo do vírus”, ele é estranhamente apresentado como “Anônimo”, quando foi evidentemente escrito por um vírus francês, um vírus que cita François Quesnay e Lois-Auguste Blanqui, evoca o Antropoceno e a Revolução Francesa, e faz curvar Emmanuel Macron. Trata-se, portanto, mais do monólogo “de um” vírus, do que “do” vírus. Fiquei, por exemplo, pensando como seria diferente se o monólogo fosse de um vírus brasileiro… faria curvar Jair Bolsonaro? Mas antes vamos lembrar o que o vírus francês falou.

Pra começar o vírus francês dá toda a pinta de ser um revolucionário eco-anarquista. Ele não dá nenhum valor para governantes e políticos em geral: “aqueles que vos levaram ao abismo” e que fingem “tirar-vos dele” “só vos prepararão um inferno mais perfeito, um túmulo ainda mais profundo”. Bancos também não parecem nada estimados por ele, e viver sem poder cultivar um jardim é, para ele, o mesmo que suicídio. Ele só acredita no cuidado de si e daquilo com que nos identificamos, numa espécie de solidariedade mecânica durkheimiana: “cuidar de si mesmo, daqueles que amamos e do que amamos naqueles que não conhecemos”. É um vírus que, por motivos que Pierre Clastres poderia bem explicar, não surgiria numa sociedade Guarani. Mas um vírus que resolveu falar a partir de um contexto no qual o próprio ato de ir “viver com os vossos entes queridos […] em casa” e parar de “estar em trânsito rumo à morte”, leva a “odiar o vosso marido”, “odiar os vossos filhos” e “explodir o cenário da vossa vida quotidiana”.

É um vírus altamente crítico com relação a “todo este absurdo lucrativo”, a “toda essa sociabilidade inebriada que é apenas o contrário da angustiada solidão das mónadas metropolitanas”. Com ares de pastor, o vírus francês prega eloquentemente:

A verdade é que, já não estavam neste mundo nessas metrópoles de separação. O vosso mundo já não era habitável em nenhum dos seus pontos, se não em fuga constante. Tinham de se atordoar com o movimento e a distracção à medida que o hediondo ganhava terreno. E o fantasmagórico reinava entre os seres. Tudo se tinha tornado tão eficaz que já nada fazia sentido. Agradeçam-me por tudo isto e sejam bem-vindos à terra!

Este singular vírus também acredita que devemos agradecê-lo por fazer-nos parar de considerar “necessárias todas estas coisas aparentemente inquestionáveis, cuja suspensão é imediatamente decretada”, por podermos “finalmente viver a vossa [nossa] própria vida, sem os milhares de subterfúgios que, mal ou bem, sustentam o insustentável”. “Agradeçam-me”, ele insiste, pois “coloco-vos ao pé da encruzilhada que tacitamente estruturou a vossa existência: economia ou vida”. Mas o que um vírus francês sabe da nossa vida, ou de nossa existência? Por acaso “[a] globalização, as competições, o tráfego aéreo, as restrições orçamentais, as eleições, o espectáculo das competições desportivas, a Disneylândia, os ginásios, a maioria das lojas, o parlamento, o encarceramento escolar, as aglomerações de massas, a maior parte dos trabalhos de escritório” parecem igualmente “inquestionáveis” no Brasil quanto parecem na França?

Quando, mais uma vez, se regozija de que “[g]raças a mim, por um tempo indefinido, não trabalharão mais, os vossos filhos não irão mais à escola”, o vírus francês está falando dos trabalhadores com cada vez menos direitos, que ficarão sem empregos se não forem trabalhar, ou se forem trabalhar gripados? Está falando das crianças educadas pelos valores neoliberais das mídias eletrônicas em escolas sem recursos? Quando ele se apresenta como uma oportunidade para a invenção de uma “nova arte da distância”, estará ele falando de pessoas que nem sequer têm um cômodo no qual se isolarem? Quando ele afirma que “[n]inguém consegue ignorar quanta polícia, quanta vigilância, quanta propaganda, quanta logística e quanto teletrabalho será necessário” para suprimir o fato de que “[a] economia é o desastre”, de quem ele está falando? Certamente não de todos os brasileiros que estão, neste momento, precisando se virar na mão de empresas como Skype, Whatsapp, Facebook, Youtube e Google para atender às exigências da quarentena à la brésilienne. Um vírus brasileiro talvez dissesse: “Me culpe por te condenar ao teletrabalho precarizado!”

Outra passagem bastante típica do monólogo do “revíruscionário” francês é seu últimato para que decidamos: ou nós nos aliamos à sua revolução eco-anarquista (e o agradeçamos por isso); ou que nos estrepemos nas mãos desses governantes capitalistas neoliberais.

A decisão é vossa. O que está em jogo é histórico. Ou os governantes vos impõem o seu estado de excepção ou vocês inventam o vosso. Ou vocês se apegam às verdades que estão a vir a lume ou colocam a cabeça no cepo. Ou vocês aproveitam o tempo que vos estou a dar agora para imaginar o mundo do depois, a partir das lições do colapso a que estamos a assistir, ou ele será completamente radicalizado.

Mas por que, irado vírus francês, precisamos nos dilacerar em alternativas infernais que parecem feitas por, e para, colonizadores? Um vírus brasileiro talvez devesse ser mais pragmático: afinal, quem é o vírus aqui? De qualquer forma, segue abaixo um extrato daquela parte do monólogo do vírus frances que, a meu ver, pode ser apoveitados no dircurso de outras cepas menos chics do Covid-19. Podemos chamar isso de “mutação”. Minha seleção foi baseada naquilo que me parece ressoar com a virologia presente na filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari, de seus precurssores e descobramentos.

* * *

Monólogo [de um] vírus [Mutant Remix]

Olhem para mim com cuidado: sou apenas a outra face da Morte que reina.
Por isso, parem de me culpar, de me acusar, de me perseguir.
Parem de paralisar-se perante mim.
Tudo isso é infantil.

Que pena que apenas reconheçam no universo aquilo que se vos assemelha.
Mas, acima de tudo, parem de dizer que sou eu quem vos está a matar.
Não estão a morrer por causa do que estou a fazer aos vossos tecidos, mas porque deixaram de cuidar dos vossos semelhantes.

Só estou a cumprir a sentença que vocês próprios pronunciaram há muito tempo.
Os mais honestos de vós sabem bem disso: não tenho outro cúmplice que não a vossa própria organização social, a vossa loucura da ’grande escala’ e da vossa economia, o vosso fanatismo do sistema.

Olhem para mim como o vosso salvador e não como o vosso coveiro.
São livres de não acreditar em mim, mas eu vim desligar a máquina cujo freio de emergência vocês não encontram.
Eu vim suspender a operação da qual vocês são reféns.
Eu vim expor a aberração da ’normalidade’.

Nós somos os vossos ancestrais, como as pedras e as algas, e bem mais do que os macacos.
Nós estamos onde vocês estão e também onde não estão.

Se vocês não tivessem sido tão vorazes uns com os outros como foram com tudo o que vive neste planeta, ainda haveria camas, enfermeiros e ventiladores suficientes para sobreviver à devastação que causo nos vossos pulmões.
Se não armazenassem os vossos velhos em casas moribundas e os vossos cidadãos saudáveis em ratoeiras de betão armado, também vocês não estariam lá.
Se não tivessem transformado a ainda ontem exuberante, caótica, infinitamente povoada amplitude do mundo – ou melhor dito, dos mundos – num vasto deserto para a monocultura do Mesmo e do Mais, eu não teria sido capaz de me lançar à conquista planetária das vossas gargantas.
Se durante o último século não se tivessem convertido praticamente todos em cópias redundantes de uma mesma forma insustentável de vida, não se estariam a preparar agora para morrer como moscas abandonadas na água da vossa civilização adocicada.
Se não tivessem transformado os vossos ambientes em espaços tão vazios, transparentes e abstractos, podem ter certeza que eu não estaria a mover-me à velocidade de um avião.

Proponho-vos que mudem de visual: há uma inteligência imanente na vida.
Não precisam de ser um sujeito para ter uma memória ou uma estratégia.
Não é preciso ser-se soberano para decidir.
As bactérias e os vírus também podem fazer com que chova ou que faça sol.

Apenas os sistemas são ’vulneráveis’. O resto vive e morre.
Só há vulnerabilidade para aquilo que aspira a controlar, para a sua própria extensão e perfeição.

É uma civilização, e não vocês, que eu venho enterrar.

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