Luto pelo Brasil


Quando Bolsonaro foi eleito, no final de 2018, eu percebi que alguma coisa tinha dado muito errado no Brasil. Acho que cada cidadãe brasileire deve ter o seu momento de perceber isso. Alguns devem ter percebido já antes de eu nascer. Outres ainda podem demorar muito para perceber. Mas para mim foi ali, no final de 2018, com a vitória eleitoral de Bolsonaro.

Lembro-me, então, de ter pensado: como as pessoas podem ter votado em uma pessoa que disse que as mataria? Uma pessoa que cultua a morte desde sempre, e que fez disso sua campanha eleitoral? Como alguém pode desejar a própria morte, votar em alguém cuja promessa de campanha é matar o eleitor?

Lembro-me de ter gastado algumas horas assistindo vídeos antigos de 1984, da campanha “Diretas Já!” (eu tinha 9 anos de idade na época), estarrecido com a tragédia anunciada, me perguntando: foi para isso que lutamos pelo voto direto? Para eleger alguém cuja campanha é baseada na morte de seres humanos, na morte de animais, na morte de florestas e ecossistemas, na morte da complexidade, na morte da arte e da cultura, na morte da educação, na morte da ciência, na morte da democracia? Chorei pelo Brasil, esse país que parece não valorizar a própria felicidade, transformando-a na sua própria tragédia.

Lembro-me também de ter relido as passagens de Mil platôs nas quais Deleuze e Guattari mostraram, a partir do caso do nazismo na Alemanha de Hitler, como é possível que alguém deseje a supressão do próprio desejo, como é possível que toda uma nação deseje fervorosamente a sua própria morte. Sábias palavras escreveram esses dois franceses.

Acompanhei, admirado, meu ex-orientador, e eterno mestre, Laymert Garcia dos Santos, explicitar o problema da maneira mais direta possível em um panfleto intitulado “Viva a morte!” (2018, Pandemia, n-1). E lembro sempre das aulas dele, nas quais ele mostrava, fazendo referência ao livro A palavra falsa de Armand Robin, como a linguagem pode ser privada de todo o seu sentido, de toda a sua força, de toda a sua eficácia. Agradeço a Stella Senra pelo resgate certeiro dessa referência em “O Haiti é aqui, o Haiti não é aqui” (2020, Pandemia, n-1)

O fato é que 2019 foi, para mim, um ano de negação. Um ano no qual tentei evitar pensar no assunto. Um ano durante o qual direitos e conquistas civilizatórias e humanitárias que custaram anos de luta para serem alcançadas, foram jogados no lixo com “talqueis” e canetadas de Bic. Um ano que desejei ver passar muito rápido, como um banho frio, ou uma ressaca, para chegar logo no final desse túnel escuro. Um ano no qual meu sistema nervoso central buscou desesperadamente, em nome da sanidade, desenvolver mecanismos de filtragem de toda informação relativa ao (des)governo federal.

Não foi fácil fechar os ouvidos e os olhos todas as vezes que o presidente da república ou algum ministro absurdo aparecia em alguma mídia, pois é evidente a relação de simbiose entre este (anti)governo e a mídia: ela ama odiar ele, e o engajamento da audiência que isso gera; e ele se esbalda em mantê-la ocupada, desviada de coisas mais importantes. Lembro de me revoltar por ver veículos jornalísticos importantes gastarem mais de metade de suas páginas ou minutos de transmissão para repercutir pronunciamentos vazios de sentido (mas plenos de rancor, ódio e violência), cuja mais evidente função era reduzir ao máximo o tempo e o espaço (e a capacidade mental) disponível para pensar e debater coisas mais importantes. Palavras transformadas em pequenos pedaços de isopor tóxico, cuja única função é proteger algum conteúdo oculto durante o transporte: Isopalavras de Tróia.

Desviando o olhar e fechando meus ouvidos, fui levando os dias. Mas evidentemente não é possível ter uma vida cidadã desta maneira, ainda mais quando se é professor de sociologia, de quem se espera respostas para todos os problemas sociais (como se isso não fosse o fim da sociologia). Por isso, até tentei acompanhar discursos, pronunciamentos e argumentos do presidente e de seus ministros, mas confesso que falhei. Mas será que fui eu que falhei? Falha quem não consegue encontrar o sentido de um elogio ao caos, à violência, à agressão e à morte?

Melhor seria dizer que este (pseudo)governo conseguiu esvaziar de tal forma o conteúdo da linguagem, que seus discursos, pronunciamentos e argumentos se tornaram impossíveis de serem acompanhados, exceto por curtidas e compartilhamentos em redes sociais, acompanhados de urros bestiais de culto à destruição. Concluí que, se não é possível ter uma vida cidadã ignorando as notícias diárias, menos ainda o é acompanhando estas notícias, pois tudo o que elas fazem é esvaziar o conteúdo humano, poético e complexo da linguagem, transformando-a num meio bruto de agressão e confusão, propagando o ódio, e com isso impedindo o pensamento e o debate sobre aquilo que realmente importa para o nosso país e o nosso povo.

Quando a pandemia global do coronavírus começou a ser sentida no Brasil, em março todes ficamos apreensivos. A ampla circulação global de informações científicas e jornalísticas permitiu que todes nós, cidadães e seres humanos, pudéssemos acompanhar os desdobramentos da pandemia dia a dia, no mundo inteiro. Intelectuais do mundo todo começaram a publicar reflexões sobre o problema, tentando compreender o que ele significava para o futuro da vida humana na Terra. Parte da sociedade tentou se mobilizar ficando em casa, desenvolvendo novos hábitos de higiene e contato corporal, se informando sobre o vírus, sobre a doença e sobre como evitar o sofrimento e a morte.

É intuitivo imaginar que ninguém quer morrer, ou ver uma pessoa querida morrer. Mas será? Eleitores de Bolsonaro elegeram a morte, e estão agora promovendo-a ativamente. Desrespeitando a quarentena, as mudanças de hábitos, e o luto que se espalham pelo Brasil, eles estão renovando diariamente seu voto na morte.

A morte foi eleita explicitamente, democraticamente, no final de 2018, como o desejo da maior parte dos brasileiros. Ela não veio de uma só vez, mas vem com força cada vez maior. E não vejo motivos para que ela retroceda no Brasil que a desejou, e que reiteradamente confirma que ainda a deseja. Uma morte desigual, que desde 1500 se volta para aqueles menos preparados materialmente para evitá-la, as chamadas “minorias”. Minorias que, tragicamente, foram amplamente convencidas a, não apenas aceitar resignadamente a própria morte como sendo merecida, mas a desejarem-na ativamente, a votarem nela e a buscá-la ativamente nas ruas.

Aproveito o luto oficial decretado em 07/05/2020 pelo Estado de São Paulo para entrar, retroativamente, em um luto pelo Brasil; um luto que deveria ter começado em outubro de 2018. Passei 2019 em negação, tentando fechar os olhos e os ouvidos ao assassinato do Brasil, mas não consigo mais. Não consigo fechar as narinas para o cheiro da morte misturada com álcool gel, e preciso encontrar uma maneira de devolver à palavra, símbolo de humanidade, o seu conteúdo. Ainda haverá esperança para este país? Ainda voltaremos a valorizar nossa cultura? Ainda conseguiremos voltar a ser governados por representantes honestos, mais interessados em “construir um país” do que em “abandoná-lo com uma pasta de dólares” (Cazuza 1989)?

Lágrimas escorrem pelo meu rosto. Por mim, pelo meu país, por meus amigos e familiares, por meus filhos. Pelos nossos limites e potências. Sou feliz por ter conseguido me rodear de pessoas humanas e sensíveis, que dão valor à vida e ao conteúdo das palavras. Já morei no exterior, já vi o Brasil de fora, e senti o que é pertencer a um país. Sei que sou, e sempre serei, brasileiro. Nunca abandonarei meu país, como nunca abandonarei minha Terra. Minha tristeza é ver meu país me abandonando, desejando a própria morte. Daí meu luto, decretado hoje, mas retroativo a 28 de outubro de 2018. Um luto que só vai terminar quando eu reencontrar, nos olhos e na aura de um governante, o brilho de vida daqueles que sonham com uma vida melhor para todes nós, o brilho daqueles que sabem que dinheiro e armas não são objetivos, mas meios muito imperfeitos e improvisados de se alcançar aquilo que realmente importa: uma vida humana com sentido.

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