Só a loucura salva


Como diria a Kátia (1987): “Não está sendo fácil”. Pessoas estão ficando loucas. Loucas no mau sentido: se tornando agressivas; se fechando; acusando umas às outras por coisas que não podemos controlar. Ou ainda tentando “manter a normalidade”, agindo “como se” nada estivesse acontecendo: mantendo compromissos feitos na antiga realidade; tentando manter os mesmos índices de produtividade; e o pior, exigindo des outres que façam o mesmo.

Colegas professores transferiram suas disciplinas presenciais para a a Internet, como se isso não mudasse toda a relação professor-estudante, e como se todes es estudantes pudessem, de uma hora para a outra, ficar o dia inteiro na frente do computador. Um computador que, magicamente, teria acesso ilimitado à Internet, e funcionamento garantido, sem falhas. E como se todes nós não tivéssemos avós, pais, filhes, companheires, vizinhos, animais de estimação, com quem precisamos agora inventar novas maneiras de nos relacionar e conviver. Como se não estivéssemos agora precisando dedicar parte de nossos dias à manutenção de nossas casas, de nossa saúde (física e mental), de nossos relacionamentos e de nossos vínculos sociais.

Já chegamos, no Brasil, no ponto em que cada um de nós pode dizer que conhece alguém que tem ou teve Covid-19. Eu já. E você? Em breve chegaremos ao ponto em que cada um de nós brasileiros poderá dizer que conheceu alguém que morreu de Covid-19.

Encontro sentido e conforto nas palavras de Paul B. Preciado: “Os Governos nos chamam ao confinamento e ao teletrabalho. Utilizemos o tempo e a força do confinamento para estudar as tradições de luta e resistência minoritárias que nos ajudaram a sobreviver até aqui. Desliguemos os celulares, desconectemos a internet. Façamos o grande blecaute perante os satélites que nos vigiam e imaginemos juntos a revolução que vem.” (Paul B. Preciado. 2020. “Aprendendo com o vírus”. (Trad. Gustavo Teramatsu e Wagner Nabarro) ABG-Campinas, 28/03).

No fundo, somos todes loucoas. Mas os piores são os que fingem não ser, sujeitando es demais à sua loucura monocrática, opressiva. Esta quarentena é uma espécie de apocalipse, no sentido de revelação: revelam-se os opressores, desejosos da morte; contra aqueles que tentam criar um novo mundo compossível. Por isso hoje acrescento duas músicas à minha Radio-luto. Duas músicas loucas e genias (loucas porque geniais), capazes de me lembrar que a esperança é a última que morre, pra quem insiste, contra todas as evidências, em sonhar com um mundo que faça sentido.


Maluco Beleza
Claudio Roberto / Raul Seixas
1977

Enquanto você
Se esforça pra ser
Um sujeito normal
E fazer tudo igual
Eu do meu lado
Aprendendo a ser louco
Um maluco total
Na loucura real

Controlando a minha maluquez
Misturada com minha lucidez

Vou ficar
Ficar com certeza
Maluco beleza

E esse caminho
Que eu mesmo escolhi
É tão fácil seguir
Por não ter onde ir

Controlando a minha maluquez
Misturada com minha lucidez

Eeeeeeeeuu!

Controlando a minha maluquez
Misturada com minha lucidez

Vou ficar
Ficar com certeza
Maluco beleza


Balada do louco
Arnaldo Baptista / Rita Lee
1972

Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim, sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz

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