Um pacifista no meio do fogo cruzado


Latour político?
O texto “Para distinguri amigos e inimigos no tempo do Antropoceno”, de Bruno Latour [1], coloca todas as conquistas de sua Teoria Ator-Rede (TAR) a serviço de uma tomada de partido com relação ao negacionismo científico. É um texto importante, tanto para uma compreensão mais ampla da sua sociologia da ciência, quanto para uma possível tomada de partido do próprio leitor. É, talvez, o texto mais político (no sentido de propositalmente parcial, assumindo partido) de Latour que eu já li.

Antropoceno como oportunidade
O texto começa argumentando que filmes como Gravidade (Alfonso Cuaron 2013) e Melancolia (Lars von Trier 2011) nos forçam a testemunhar “a destruição gradual da velha ideia galileana da Terra como um corpo entre outros corpos espaciais”, e a “trazer nosso olhar de volta à Gaia sublunar, tão ativamente modificada pela ação humana que ingressou em um novo período, que os geólogos-feitos-filósofos propõem chamar de Antropoceno” (p.12). Uma transição, enfim, de “um corpo entre outros”, para “Gaia”.

O conceito de “Antropoceno” é então apresentado pragmaticamente como uma oportunidade para: “evitar o perigo da naturalização” (p.12); chamar nossa atenção para o fim da “bifurcação da natureza” entre objetividade e subjetividade (p.13); e “sair da noção de modernização” (p.13). Latour propõe que a diferença geológica entre “Holoceno” e “Antropoceno” seja vista como a diferença entre a modernização (que partia da diferença entre a natureza objetiva-científica e a sociedade subjetiva-política) e os híbridos (simultaneamente objetivos e subjetivos, naturais e sociais, científicos e políticos). Em outras palavras: já que os geólogos estão falando em Antropoceno, uma era geológica na qual humanidade e natureza não podem mais ser dissociadas, então porque não aproveitar para mostrar como elas sempre estiveram ligadas?

Vacina anti-negacionismo
O principal ponto de ataque do texto é “o debate espúrio sobre a ciência do clima” (p.14). Por um lado, “não há debate algum” (p.14), pois o aquecimento global e a previsão de crises globais já foi provada e confirmada cientificamente de todas as formas possíveis. Ou seja, não há debate pois não existe dúvida, entre cientistas, de que o planeta Terra (Gaia) já entrou num processo de radical transformação ambiental que pode ser letal para a humanidade (ou para a maior parte dela). Por outro lado, o debate não tem fim, pois “não há a menor chance de chegarmos a uma conclusão final, uma vez que o sucesso dos negacionistas não reside em vencer algum conflito, mas simplesmente em assegurar que o resto do público esteja convencido de que há um conflito” (p.16).

O objetivo dos negacionistas, longe de ser chegar a um consenso, é estender indefinidamente o estado de dúvida e incerteza num “pseudo-tribunal, cujo objetivo não é chegar a um veredito” (p.16-7); manter a dúvida é favorecer a continuidade de seus interesses políticos e econômicos. Trata-se da “estratégia de Luntz”, que propõe, como principal arma contra (sim, contra) as políticas de enfrentamento ao aquecimento global, “continuar a fazer da falta de certeza científica uma questão central” (p.16). Outro nome, emprestado por Latour de James Proctor, para se referir à estratégia negacionista, é “agnotologia”, ou “a produção deliberada de ignorância” (p.17). Para Latour, levantar dúvidas sobre fatos só faz sentido se for para colocar outros fatos no lugar, sendo condenável e destrutiva a atitude de apenas levantar dúvidas. É neste sentido que Latour compara os negacionistas climáticos aos negacionistas do nazismo, lamentando que só existam leis contra os segundos (p.14).

O problema, segundo Latour, reside no “repertório ciência versus política” (p.16), algo que ele já chamou de “constituição moderna”, e que agora podemos chamar de repertório “holocênico”. É esse repertório que (numa imagem cara em nosso dias atuais de Covid-19) mina nosso “sistema imunológico” (p.16). Precisamos, segundo Latour, ser vacinados contra esse repertório. Precisamos, enfim, de “um repertório alternativo muito mais razoável e, de modo geral, muito mais racional”, i.e, que não oponha ciência a política, natureza a sociedade, objetividade a subjetividade. Sem isso, somos presas fáceis do vírus negacionista. É nesse sentido que Latour propõe a divisão do campo em “dois lados”: o lado daqueles que opõem ciência e política (que ele nomeia como “acordo do Holoceno”, outra expressão para a “constituição moderna”); contra “aqueles que compreenderam que essa antiga epistemologia política […] é o que enfraquece tanto a ciência como a política” (que ele apresenta como um desejável “acordo do Antropoceno”) (p.17).

Acordo do Antropoceno
Um “acordo do Antropoceno” exigiria, assim, que: a política não fosse reduzida apenas a “distorcer os fatos”, mas contribuísse fundamentalmente para “construir uma politeia” (p.18), um coletivo com alguma autodeterminação; e a ciência não fosse reduzida apenas ao “campo de fatos incontroversos e incontestáveis”, mas fosse encarada como a “produção, por meio da instituição de muitas disciplinas e do monitoramento de muitos instrumentos, de um amplo acesso a um grande número de entidades com as quais a politeia deve ser construída” (p.18). Sempre agindo em conjunto, nunca em oposição, ciência e política têm como “tarefas essenciais”: “definir quantas entidades devem ser consideradas e como elas podem permanecer juntas de maneira viável” (p.18).

Guerra!
A parte mais fortemente política do texto, a meu ver, começa quando Latour diz que “[o] deslocamento de uma ciência versus política para uma ciência com política certamente não se dá sem perigo”(p.19). É a partir daqui que a oposição nós/eles ganha força, sendo “eles” os negacionistas-capitalistas, e “nós” este coletivo que Latour deseja ajudar a compor, aparentemente simpático a uma ciência mais humana. É a partir daqui também que Latour declara as vantagens de se “imitar o que as feministas chamam de ‘essencialismo estratégico’”, e de se “empregar, quando necessário, uma forma de ‘positivismo estratégico’”. “Trata-se”, nas palavras de Latour, “de uma questão de tomar conhecimento de ‘fatos desconfortáveis’ relacionados a questões urgentes que dizem respeito ao próprio solo habitado por todos”, a “conflitos que produzem antagonismos entre diferentes definições da Terra às quais as várias politeias estão ancoradas”, a “uma guerra pela ocupação, definição e composição daquilo a que […] Gaia […] se assemelha” (p.20-1).

Se “eles” dizem que “nós” não fazemos ciência, e sim política, devemos responder: “Sim, claro, onde vocês estiveram? E o que vocês estão fazendo?” (p.19). E se eles afirmam que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é “um lobby”, devemos responder:

“É claro que é um lobby, agora vamos ver quantos são vocês, de onde vem o dinheiro de vocês. E, já que estamos nisso, já que vocês estão nos acusando de sermos tendenciosos devido a uma ‘ideologia’, vamos colocar todas as cartas na mesa: em que mundo vocês vivem, onde, com que recursos, por quanto tempo, que futuro vocês vislumbram para seus filhos, que tipo de educação vocês desejam dar a eles, em que paisagem vocês gostariam que eles vivessem.” (p.23)

“Há decerto”, insiste Latour, “uma guerra pela definição e controle da Terra: uma guerra que coloca uns contra os outros” (p.23). Uma guerra entre um mundo que pode continuar sendo destruído indefinidamente, e outro que deseja se curar. Uma guerra que, sintetizada na palavra-oportunidade “Antropoceno”, oferece a condição urgente que exige o abandono da constituição moderna, do acordo holocênico, em nome de uma pragmática da mobilização.

Se há algo que todos são capazes compreender é que quando a vida de uma pessoa é posta em questão, quando o território em que ela vive é ameaçado, quando ela é atacada por outros povos que querem o seu lugar, sua terra, seu solo, seu estimado pedaço de chão, o que se costumava chamar de sua “terra-mãe”, eles decerto não esperam que os experts concordem. Eles precisam identificar rapidamente aqueles que podem ajudar e aqueles […] que correm o risco de traí-los. […] O sentimento a que poderíamos chamar de mobilização é perigoso, incômodo e intranqui-lo, uma fonte de consequências mal definidas; mas uma coisa é certa: em caso de guerra, a atitude não é de complacência, apaziguamento e delegação aos experts. (p.22)

O uso que os negacionistas-capitalistas fazem da ciência (para favorecer a dúvida e a incerteza sobre a urgência de transformações) é comparado por Latour ao uso, feito por exércitos, das inscrições “Deus está conosco” (“Gott mitt Uns”). Basta substituir “Deus” por “Natureza”, para perceber que, para além de um “positivismo estratégico”, nem um, nem a outra, está realmente do lado de nenhum dos exércitos em guerra. Em lugar de opor “fatos científicos
incontestáveis” a “opiniões políticas contestáveis” como fazem os modernos- holocênicos-negacionistas-capitalistas, Latour propõe uma “Gaia-grafia” baseada no delineamento do mundo proposto por cada lado da guerra, na forma de respostas a questões “cosmogramáticas” (referência a John Tresch) do tipo: “o que você está defendendo”?; “quanto vale a Terra”?; “com que outros organismos, com que tipo de solo, com que tipo de paisagem, com que tipo de indústria, com que tipo de comércio você gostaria de sobreviver”? (p.23-4). Se um território é “isso sem o qual não poderíamos viver”, então “[l]istemos todos esses seres, essas agências sem as quais nada seria possível” (p.24).

Covid-19 como oportunidade
Esta parte deste texto me lembrou o fechamento de outro texto de Latour: “Imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré- crise” [2]. Nesse outro texto, publicado já durante a pandemia global de Covid-19 (em 29/03/2020), Latour propõe seis questões para que “[a]proveitemos a suspensão forçada da maior parte das atividades para fazer um inventário daquelas que gostaríamos que não fossem retomadas e daquelas que, pelo contrário, gostaríamos que fossem ampliadas”:

1a pergunta: Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que não fossem retomadas?
2a pergunta: Descreva por que essa atividade lhe parece prejudicial / supérflua / perigosa / sem sentido e de que forma o seu desaparecimento / suspensão / substituição tornaria outras atividades que você prefere mais fáceis / pertinentes. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 1).
3a pergunta: Que medidas você sugere para facilitar a transição para outras atividades daqueles trabalhadores / empregados / agentes / empresários que não poderão mais continuar nas atividades que você está suprimindo?
4a pergunta: Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que fossem ampliadas / retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?
5a pergunta: Descreva por que essa atividade lhe parece positiva e como ela torna outras atividades que você prefere mais fáceis / harmoniosas / pertinentes e ajuda a combater aquelas que você considera desfavoráveis. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 4).
6a pergunta: Que medidas você sugere para ajudar os trabalhadores / empregados / agentes / empresários a adquirir as capacidades / meios / receitas / instrumentos para retomar / desenvolver / criar esta atividade?

Trata-se de um esforço ativo de imaginação de outro mundo possível, um mundo no qual certas agências deveriam continuar ou ser expandidas, e outras deveriam ser interrompidas ou diminuídas. Acredito que todos nós, “terranos”, deveríamos refletir sobre essas questões, e tentar respondê-las. Não é fácil.

Paz?
O texto de Latour termina com uma digressão sobre aquilo que ele chama de “paz política”: diferentemente da “paz pedagógica obtida por meio do repertório ciência-versus-política”, a paz política é “negociada pelas facções bélicas que, tendo exaurido todas as outras opções e sabendo que nem o ‘Deus’ nem a ‘Natureza’ bordados em seus estandartes estão realmente por detrás deles, aventuram-se em um acordo como se não houvesse arbítrio algum acima deles” (p.25). A questão da temporalidade é central no fechamento do texto, uma vez que a urgência apresentada anteriormente como sendo devida ao estado de guerra é, no final, apresentada como uma diferença entre um tempo que flui do presente para o futuro e outro, que flui do futuro para o presente. Se no primeiro caso (do presente para o futuro), podemos vislumbrar uma marcha que poderíamos chamar de progresso, no segundo (do futuro para o presente) podemos vislumbrar uma urgência que poderíamos chamar de apocalíptica, reveladora da necessidade de “agir sem postergar” (p.27).

Cabe comentar, como conclusão, que apesar de a ênfase de Latour na “guerra” me incomodar, foi difícil para mim não acompanhar o belicismo de Latour neste texto, talvez por eu mesmo simpatizar excessivamente com o lado que ele escolheu defender nessa guerra. Não obstante, ainda acredito que reconhecer que estamos em guerra não significa que precisemos guerrear. Cabe à realidade mostrar-ensinar como (ou se) é possível ser pacifista no meio do fogo cruzado.

Notas
[1] LATOUR, Bruno. 2014. Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno. (Trad.: Renato Sztutman) Revista de Antropologia 57(1):11-31. O texto foi originalmente proferido como palestra no simpósio Thinking the Anthropocene, realizado na École d’Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) em 14 de novembro de 2013. Em 2015 foi incluído no livro The Anthropocene and the Global Environment Crisis: Rethinking Modernity in a New Epoch (London, Routledge), editado por Clive Hamilton et al..

[2] LATOUR, Bruno. 2020. Imaginer les gestes-barrieres contre le retour a la production d’avant-crise. AOC. Acessível em: https://aoc.media/opinion/2020/03/29/imaginer-les-gestes-barrieres-contre-le-retour-a-la-production-davant-crise/. Uma tradução de Déborah Danowski pode ser encontrada no site do Bruno Latour: http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/downloads/P-202- AOC-03-20-PORTUGAIS_1.pdf.

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