Orientações gerais para orientandos

Apesar de ainda não ser tão experiente assim como orientador, a prática de orientar algumas pesquisas de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado, somada à experiência de já ter sido orientando nas mesmas modalidades (e também uma leitura atenta das tiras PhD Comics!), me fizeram perceber alguns problemas típicos da relação orientador-orientando, que poderiam ser minimizados ou até eliminados caso alguns acordos fossem estabelecidos entre as partes. Com esse objetivo, resolvi reunir aqui algumas propostas gerais de orientação que já venho fazendo para meus próprios orientandos, imaginando que poderiam eventualmente ajudar também outras pessoas.

Orientações gerais (valem para todos os níveis)
E-mails: difícil responder rápido, mas insista.
Agências de financiamento: existem fórmulas, e eu posso ajudar nisso. Não vou te enganar. FAPESP, CAPES, CNPq. FAEPEX, PIBIC.
Publicações: fundamental, de preferência comigo.
Congressos: sempre bom. Favorece o avanço da pesquisa e a sua divulgação.
Prazos: você cuida de seus prazos. Tenho muitos orientandos, não posso controlar todos os prazos. Além disso, tenho os meus próprios prazos para controlar. Um pesquisador que não cuida de seus próprios prazos compromete não apenas sua própria pesquisa e credibilidade, como também a de outros.
Mudanças no projeto de pesquisa: É bastante comum que projetos de pesquisa mudem durante a pesquisa. Na verdade, isso é sinal de que a pesquisa avançou, exigindo assim reformulações no projeto original. Não há nada de errado nisso, e tais mudanças são sempre justificáveis como tendo se mostrado necessárias pelo avanço da própria pesquisa originalmente proposta. Também é comum que projetos de pesquisa mudem imediatamente após serem aprovados em alguma seleção. Isso pois tende a ser muito mais fácil escrever um bom projeto sobre algo que você conhece bem, mas que não deseja realmente pesquisar no momento, do que sobre algo que vc realmente deseja pesquisar, mas não conhece bem. Este caso de mudança de projeto é um pouco mais complicado, pois na prática o proponente enganou a banca ou o parecerista dizendo que ia pesquisar uma coisa, quando na verdade sabia desde o início que não levaria adiante a pesquisa proposta. Assim, neste caso, é fundamental que o proponente articule sua estratégia com seu orientador, pois é ele quem vai ter que assinar os papéis e, portanto, arcar com as consequências da estratégia. Neste caso, portanto, o fundamental é ser honesto com seu orientador sobre sua estratégia de propor um projeto que não será levado adiante, para que este não seja surpreendido depois, perdendo assim toda confiança (e possivelmente qualquer interesse) em você.
Temas e objetos de pesquisa: Num nível mais geral, é fácil compreender que o fato de minha formação ser em Ciências Sociais me impede de orientar pesquisas em outras áreas (e.g.: Física, Biologia, Química etc). Em outras palavras, eu não posso orientar pesquisas em áreas nas quais eu não tenha nenhuma formação específica. O fato de eu trabalhar na área de estudos sociais da ciência já gerou alguma confusão neste ponto, mas não deveria: orientar a pesquisa de um sociólogo em um laboratório de física é totalmente diferente de orientar a pesquisa de um físico no mesmo laboratório, pois o sociólogo e o físico fazem coisas diferentes e o sociólogo não vira um físico só porque está investigando sociologicamente a sua atividade. Isso não exclui possíveis experiências de co-orientação, nas quais eu poderia colaborar com um orientador de outra área numa pesquisa transdisciplinar. Mas mesmo nesse caso, eu a princípio poderia me responsabilizar apenas pela dimensão sócio-antropológica da pesquisa. Mas para além da questão disciplinar mais geral (i.e. só posso orientar pesquisas em Ciências Sociais), existem também vertentes internas às próprias Ciências Sociais nas quais eu não poderia atuar como orientador. Assim como um físico quântico pode não se sentir apto a orientar uma pesquisa na área de raios cósmicos, ou um biólogo molecular pode não se sentir apto a orientar uma pesquisa na área de etologia, um sociólogo interacionista pode não se sentir apto da orientar uma pesquisa na área de teoria do Estado. Trata-se, ainda neste caso, dos limites e possibilidades que a trajetória de pesquisa de cada um colocam para a sua atuação. No meu caso, além da formação em Ciências Sociais, minha trajetória de pesquisa me conduziu para o estudo da ciência e da tecnologia, em especial sob influência da Teoria Ator-Rede. Ao mesmo tempo que em que isso me qualifica para orientar pesquisas nesses campos e sob tal influência teórica, me torna menos apto para orientar pesquisas em outros campos ou sob outras orientações teóricas. Informações detalhadas sobre minhas preferências de pesquisa para possíveis orientações podem ser encontradas aqui.
Orientação teórica: Apesar de ter predileção por orientar pesquisas empíricas, é importante notar que não existe pesquisa empírica sem teoria. Duas pessoas observando a mesma coisa numa situação prática podem ver coisas totalmente diferentes dependendo de sua orientação teórica.
A importância do texto: O texto é a principal mídia do Cientista Social. É por meio de textos que entramos em contato com outras pesquisas e é por meio de nossos textos que outros entrarão em contato com nossas pesquisas. Desse fato deriva um princípio fundamental de orientação para mim: não existe avanço verificável na pesquisa se este não se concretizar na forma de texto. Isso vale desde o início da elaboração de um projeto até a redação final de um relatório/dissertação/tese: a pesquisa só existe fora da cabeça do pesquisador se ela conseguir assumir a forma de um texto. E desse princípio deriva uma exigência fundamental da pesquisa: todo texto precisa ser bem escrito e revisado, caso contrário ele será tão eficaz quanto um rádio mal sintonizado. Orientandos que me entregam textos com muitos problemas de escrita perdem qualquer oportunidade de receber contribuições substanciais, pois receberão apenas uma revisão (feita com muita má vontade) de português. Infelizmente, isso é muito comum.

Orientações específicas para orientandos de Iniciação Científica (IC)
Ninguém nasce sabendo o que é uma pesquisa científica, muito menos como redigir um projeto ou um artigo. Assim, é bastante comum que o orientando de IC faça propostas de pesquisa bastante fora dos padrões aceitáveis pelos pareceristas de agências de financiamento. Noto três dificuldades principais para transformar uma ideia de pesquisa em um projeto que atenda às exigências acadêmicas: (1) definição do objeto de pesquisa (o que pesquisar: tudo tem a ver com tudo, e conseguir isolar artificialmente um objeto é parte do valor da proposta); (2) definição da forma de abordagem do objeto, i.e., da metodologia (como pesquisar aquilo que se propõe pesquisar); justificativa da pesquisa (por que pesquisar o que se propõe pesquisar da forma proposta). Sou pouco seletivo aqui. Prefiro gente no início da graduação, ainda sem vícios e preconceitos sociológicos. Geralmente 1 ano. Pode ser feita na forma de monografia ou TCC.

Orientações específicas para orientandos de Mestrado
Minha expectativa é que você já seja plenamente capaz de propor e formular sua própria pesquisa. Mas ainda é compreensível que você eventualmente tenha dificuldades para enquadrar sua proposta nos formatos das agências de financiamento. Posso ajudar nisso, mas minha paciência será menor do que no caso de orientandos de IC. Mais seletivo que IC, mas ainda corro riscos. Geralmente 2 anos.

Orientações específicas para orientandos de Doutorado
Compromisso mais sério, fico muito seletivo, não quero correr riscos aqui. Geralmente 3 anos.

Orientações específicas para supervisionados de Pós-Doutorado
Fique à vontade! Se você está desenvolvendo pesquisa de pós-doutorado sob minha supervisão, deve ser porque já tenho provas suficientes de sua autonomia como pesquisador. Por favor faça seu trabalho sem se preocupar comigo, e conte comigo para o que precisar (tendo em mente as “orientações gerais” acima, claro…). Seria desejável que, durante o seu estágio pós-doutoral, você oferecesse pelo menos uma palestra para o Departamento ou para o Programa de Pós-Graduação, voltada para a divulgação de sua pesquisa. Isso tem a dupla função de prestar contas de seu trabalho para seus anfitriões e oferecer pelo menos uma oportunidade para que a comunidade acadêmica local possa contribuir para sua própria pesquisa. Além disso, seria desejável que você propusesse a organização de palestras, seminários, eventos e publicações, afinal, é disso que boa parte do trabalho acadêmico é feito, e você é mais do que qualificado para isso.

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