Textos

Os textos abaixo são de minha autoria ou co-autoria e, quando disponíveis, podem ser baixados e citados livremente, desde que a fonte seja citada. Para cada um deles eu busquei fornecer, na medida do possível, uma “nuvem de palavras” contendo as 10 palavras mais repetidas no texto (o tamanho relativo das palavras no quadro é proporcional ao número de vezes que cada uma delas ocorre no texto).

2015_________________________________


Criaturas do Sol na Terra. Se é verdade que, como disse um fisiologista polonês, a percepção sensorial “permite ao organismo encarar ativamente as forças que operam em seu mundo”, então quais forças cada forma de visão permite encarar, e com que resultados? Este texto propõe sondar algumas dessas formas, tendo sempre em mente a dificuldade adicional envolvida em qualquer pesquisa que investigue seus próprios instrumentos de investigação – ou, na formulação de um fisiologista inglês: “Na maior parte de nossa investigação sobre o mundo, consideramos a informação que nossos sentidos nos dão, mas quando estudamos os sentidos eles mesmos, estamos tentando examinar os próprios meios pelos quais obtemos informação”. Publicado em: Ciência e Cultura 67(3):51-5, 2015.


Skatografias: o caso do pico. Diante da proposta de explorar diversas possibilidades gráficas incluídas nas relações entre etnografia e biografia, expressa no grupo de trabalho cujas discussões resultaram neste livro, nasceu o desejo de aproveitar a oportunidade para jogar luz sobre uma grafia ainda praticamente inexplorada nas ciências sociais, apesar de já bastante desenvolvida entre seus praticantes. Trata-se da “skatografia”, ou escrita do skate, que envolve tanto a dimensão indicial das marcas trocadas entre o skate, o corpo do skatista e os obstáculos, quanto a produção fotográfica, videográfica e textual de skatistas sobre skate. Exploro aqui rapidamente o caso da “picologia”, a ciência dos picos, por considerá-la um valioso caso de conceito nativo complexo, elaborado e intrinsecamente ligado a práticas correspondentes. Uma skatografia em pleno direito. Publicado em: Suely Kofes; Daniela Manica (Orgs.). Vida & grafias: narrativas antropológicas, entre biografia e etnografia. Rio de Janeiro: Lamparina, pp.9-15, 2015.

2014_________________________________


Cleodon Silva e a Casa dos Meninos: mecanologia, do reco-reco à internet. Este texto busca narrar o encontro feliz das trajetórias do ativista Cleodon Silva e da instituição Casa dos Meninos, e como esse encontro pode nos ajudar a repensar o papel daquilo que Gilbert Simondon chamou de “mecanólogo” ou “tecnólogo”: aquele que estuda os indivíduos técnicos completos, que introduz na cultura “a consciência da natureza das máquinas, de suas relações mútuas e de suas relações com o homem, e dos valores implicados nestas relações”. Escrito em coautoria com Guilherme Flynn Paciornik (IFCH/Unicamp; CTeMe) e publicado em: Filosofia e Educação 6(3):260-300, 2014.

2012_________________________________


Fuga, transformação e sociogênese na música eletrônica de pista: experiências e experimentações de um DJ de techno. Venho desenvolvendo há algum tempo o argumento de que a dança coletiva ao som tocado pelo DJ é a condição sine qua non da música eletrônica de pista (MEP), para além das variações de contexto e de elementos secundários. Com isso pretendo alcançar uma compreensão da MEP, para além do contexto historicamente e geograficamente circunscrito das raves, como uma coevolução de sons e movimentos: sons mecânicos (não humanos) tecnicamente reproduzidos por um DJ; e movimentos coletivos de dança (humanos) a eles associados. É dessa perspectiva mais ampla que a MEP será abordada neste texto, partindo do caso concreto de um DJ brasileiro de techno. Publicado em: Léa F. Perez; Leila Amaral; Wania Mesquita (Orgs.). Festa como perspectiva e em perspectiva Rio de Janeiro: Garamond, pp.255-72, 2012.


When sound meets movement: performance in electronic dance music
. This article discusses the problem of performance in electronic dance music (EDM), considering its specificity in the use of technically reproduced sound to promote a non-stop dancing experience. Instead of a schizophonic rupture between performer and audience, EDM is seen to perform a transducive mediation between machine sound and human movement. Originally published in Leonardo Music Journal (18:17-20, 2008), it now appears in: Mark J. Butler. (Org.). Electronica, Dance and Club Music. Williston: Ashgate, p.134-7, 2012..

2010_________________________________


Por uma definição dos processos tecnicamente mediados de associação. Este texto é um exercício teórico em torno da definição de um recorte de pesquisa centrado naquilo que proponho denominar “processos tecnicamente mediados de associação” (ProTeMAs). O argumento central é que a “realidade objetiva dos fatos sociais” pode ser melhor investigada quando a sua base objetiva não é definida antecipadamente pelo pesquisador, mas sim inferida a partir dos rastros deixados pela propagação e reiteração de configurações relacionais. Para esboçar este argumento, autores diversos foram mobilizados em torno do conceito latouriano de mediação técnica. Publicado em: Revista Brasileira de Ciência, Tecnologia e Sociedade 1(2):58-75, 2010.


Do gorila amestrado de Taylor ao macaco de Nicolelis. Partindo de uma análise de Gramsci das transformações pelas quais passava o trabalhador humano no capitalismo do início do século XX, busca-se neste texto indicar aspectos de como tais processos de transformação vêm se dando no capitalismo do início do século XXI. Para isso, abordamos a transição da problemática muscular e energética da substituição do trabalhador humano pela máquina para a problemática cognitiva e informacional do controle nos acoplamentos homem-máquina. Do gorila amestrado de Taylor ao macaco de Nicolelis, mudaram as formas de subsunção do trabalhador ao capital, mas não a própria subsunção. Escrito em co-autoria com Laymert Garcia dos Santos (IFCH/UNICAMP, CTeMe) e Rafael Alves da Silva (IFCH/UNICAMP, CTeMe), e publicado em: Trabalho, Educação e Saúde 8(3):551-61, 2010.

2009_________________________________


Tecnociência e política: Einstein, Bergson e o mundo visto da perspectiva de um raio de luz. Desde o início da era moderna, tecnociência e política se tornaram cada vez mais indissociáveis, na mesma medida em que aumentou a nossa capacidade de manipular a matéria em um nível inacessível ao senso comum e, no limite, à própria imaginação humana. A experiência do tempo foi particularmente sensível a esse processo. Por um lado, foi dividida entre um tempo quantitativamente mensurável (o tempo-medida) e um tempo qualitativo vivido (o tempo-duração). Por outro lado, este último foi crescentemente reduzido a um tempo psicológico e, portanto, insignificante para a física. Privada de sua metafísica, a teoria se restringiu a uma sofisticada espacialização do tempo que é inacessível à nossa imaginação. Atualizando o significado do tempo na teoria einsteiniana, Bergson buscava ir além daquilo que aqui chamamos de “experiência antropométrica”, rumo a outras contrações da duração acima e abaixo da nossa. Escrito em co-autoria com Márcio Barreto (FCA/UNICAMP, CTeMe) e publicado em: Cadernos de História e Filosofia da Ciência 19(2):193-221, 2009.


Mito e tecnologia: desencontros e reencontros entre índios e brancos. Este texto é uma reflexão teórica em torno das implicações míticas e xamânicas, para os ameríndios mas também para os “brancos” com quem eles se relacionam, das tecnologias modernas associadas ao “homem branco”. Ele é baseado em uma pesquisa bibliográfica e videográfica sobre o tema, abrangendo a questão do contato com o branco em diversos grupos indígenas da América do Sul. São desenvolvidas no texto as idéias etnograficamente fundamentadas de um retorno do tempo mítico pelo encontro histórico entre índios e brancos, e de um xamanismo tecnologicamente distribuído nas máquinas modernas. Partindo do desencontro entre brancos e índios, resultante de seu encontro histórico, o texto chega em uma possibilidade de reencontro na chave de um duplo devir. Publicado em: Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar 1:46-70, 2009.


Considerações acerca do trabalho imaterial e da produção de valor no capitalismo contemporâneo. Nosso principal objetivo neste texto foi chamar a atenção para as contribuições que a teoria do trabalho imaterial pode trazer para uma investigação crítica ou operatória do funcionamento do capitalismo contemporâneo. No século XIX, Marx se defrontou com os problemas do capitalismo industrial, construindo as bases para qualquer análise consistente e conseqüente do capitalismo. Seria preciso inspirarmo-nos em sua obra para discernirmos, no século XXI, os problemas próprios ao capitalismo pós-industrial, e para sermos capazes de analisá-los de maneira igualmente consistente e conseqüente. É isso que, nos parece, os teóricos do trabalho imaterial vêm tentando fazer com sucesso variável: buscar, com o referencial do materialismo histórico, o futuro que se gesta no nosso próprio presente. Texto escrito em co-autoria com o sociólogo Rafael Alves da Silva (IFCH/Unicamp, CTeMe) e aprovado para participação no XXVII Congreso ALAS (Asociación Latinoamericana de Sociología) – GT 18: “Reestructuración productiva, trabajo y dominación social” – Buenos Aires (Argentina), 31 de agosto a 4 de setembro de 2009.

2008_________________________________


A regra do jogo: desejo, servidão e controle. Tratamos aqui das confusões entre “produção” e “consumo”, “trabalho” e “jogo/lazer/brincadeira”, que motivam o uso de palavras como “prosumidor” e “jogalho”. Com destaque para o caso dos Games – e relacionando-o com os conceitos de Gizmo e Spime propostos por Bruce Sterling –, abordamos questões de controle, interatividade, rastreabilidade, sujeição social e servidão maquínica. Propomos uma reflexão sobre uma espécie de metajogo do capitalismo contemporâneo que transforma todo jogo/brincadeira em trabalho não-pago. Versão em português de texto escrito em conjunto com Laymert Garcia dos Santos (IFCH/Unicamp, CTeMe) para o seminário internacional Novas mídias digitais (audiovisual, games e música): impactos econômicos, sociais e políticos, organizado pelo Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e realizado em São Paulo no dia 12 de junho. O texto foi publicado em: Fábio Villares (org.). Novas mídias digitais (audiovisual, games e música): impactos políticos, econômicos e sociais. Rio de Janeiro: E-papers, pp.85-104, 2008.


The rules of the game: desire, servitude, control. We deal here with the confusions of “production” with “consumption”, “labor” with “play”, that motivate the use of words such as “prosumer” and “playbor”. Emphasizing the case of Games – and relating it to the concepts of Gizmo and Spime proposed by Bruce Sterling –, we discuss matters of control, interactivity, traceability, social subjection and machinic servitude. We propose a reflection about a kind of meta-Game of contemporary capitalism that transforms every game into unpaid labor. English version of the paper written together with Laymert Garcia dos Santos (IFCH/Unicamp, CTeMe) to the International Seminar New digital media: audiovisual, games and music, promoted by the Institute of Economic and International Studies (IEEI) and realized at São Paulo on June 12th. The paper was published in: Fábio Villares (org.). New digital media: audiovisual, games and music. Rio de Janeiro: E-papers, pp.77-96, 2008.


Parâmetros, tendências e limiares de funcionamento na música eletrônica de pista. Apresento as linhas gerais de uma teoria da música eletrônica de pista (MEP) atualmente em processo de formalização. Por tomar como objeto uma relação funcional abstrata – a relação som-movimento – e não os contextos particulares nos quais ela se concretiza – festas específicas, gêneros musicais, localidades geográficas, grupos sociais determinados, pessoas individuais etc. –, essa teoria é freqüentemente questionada quanto à sua pertinência disciplinar às Ciências Sociais ou suposta ingenuidade política. Pretendo responder a tais questionamentos ao longo da própria exposição da teoria, sendo esta interessada menos em categorizações disciplinares (como se as Ciências Sociais tivessem objetos exclusivos, distintos daqueles das outras ciências) e mais em operacionalizações transversais (assumindo as Ciências Sociais como uma perspectiva a partir da qual é útil investigar qualquer objeto). Texto apresentado no GT 26 – Novos modelos comparativos: antropologia simétrica e sociologia pós-social – do 32o Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu (MG), 27 a 31 de outubro de 2008.


When sound meets movement: performance in electronic dance music
. This article discusses the problem of performance in electronic dance music (EDM), considering its specificity in the use of technically reproduced sound to promote a non-stop dancing experience. Instead of a schizophonic rupture between performer and audience, EDM is seen to perform a transducive mediation between machine sound and human movement. Publicado em: Leonardo Music Journal 18:17-20, 2008.

A identidade na era de sua reprodutibilidade técnica (entrevista com Eduardo Viveiros de Castro). “À medida que a economia capitalista vai incorporando a imagem diretamente como mercadoria, na medida em que é o conhecimento e o signo que se tornam mercadoria, em que o fluxo do capital passa a investir a imagem de uma maneira e com uma violência e eficiência inauditas, não há dúvida de que a tecnologia de imagem passa a ser estratégica do ponto de vista político-econômico para os povos indígenas. Não são mais apenas as terras indígenas que são cobiçadas, mas também o simulacro fantasmático dessas terras: as imagens que elas projetam, o conhecimento suposto que representam – o imaterial, o incorporal. Na medida em que o incorporal começa a ser maciçamente capitalizado, as tecnologias de produção da imagem se tornam tecnologias cruciais para os índios dominarem, tanto quanto o eram as tecnologias agrícolas as tecnologias de transporte, etc. Então as tecnologias de imagem passam a ser particularmente importantes e o que está em questão hoje é a capacidade de os índios controlarem as condições técnicas de produção e reprodução da própria imagem. É a identidade na era de sua reprodutibilidade técnica.” Entrevista realizada junto com Francisco A. Caminati (IFCH/Unicamp, CTeMe), Fábio M. Candotti (IFCH/Unicamp, CTeMe) e Eduardo Duwe, no Instituto Goethe-S.Paulo, e publicada em: Nada 11:34-51, 2008.

More than meets the eye: os Transformers e a vida secreta das máquinas. Para além ou aquém de toda a tortuosa saga desses robôs-máquinas desde o seu surgimento comercial em 1984, o que os Transformers propõem é, em essência, a participação em uma vida maquínica fantástica, uma vida que se manifesta, acima de tudo, na capacidade que todos eles têm de se transformar. É a transformação da máquina em robô e vice-versa que singulariza a linha de brinquedos Tranasformers, aquilo que ao mesmo tempo a diferencia dos brinquedos unimodais e unifica todas as suas variações internas. Usando Optimus Prime como exemplo, vimos que uma clara emancipação formal do robô com relação à máquina da qual ele é uma transformação ocorreu desde os primeiros modelos de 1984 até os mais recentes. Enfim, observamos que essa mudança teve como importante consequência o deslocamento da atenção do principal – a transformação – para o secundário – as formas entre as quais ela se dá. Mas o que essa evolução morfológica dos Transformers nos diz exatamente sobre o modo de existência das máquinas em geral? Publicado em: Nada 11:158-67, 2008.


Transe maquínico: quando som e movimento se encontram na música eletrônica de pista. Desde sua emergência histórica em meados da década de 1970, a música eletrônica de pista (MEP) sempre teve como principal objetivo fazer as pessoas dançarem pela escolha criteriosa de músicas dançantes e dos melhores momentos e maneiras para reproduzi-las. Apesar do crescente interesse de pesquisadores de diversas áreas pelo estudo de assuntos relacionados à MEP, nota-se uma certa tendência de reduzi-la a idéias e conceitos forjados para o estudo de estilos musicais que não se baseiam na dança. Este artigo buscará apontar alguns dos problemas trazidos por essa tendência, além de sugerir alternativas a ela, dentre as quais merecerá destaque a relação entre som e movimento no transe maquínico. Publicado em: Horizontes Antropológicos 29:189-215, 2008.


Conhecimento tradicional como patrimônio imaterial: mito e política entre os povos indígenas do rio Negro. Em maio de 2004, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em atendimento a uma solicitação do Iphan, abriu as portas da grande maloca existente em sua sede na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM) para a realização de uma reunião destinada a iniciar uma discussão sobre patrimônio cultural com os grupos indígenas do rio Negro. O pano de fundo da reunião dizia respeito à nova política de registro dos chamados “bens culturais de caráter imaterial”, instaurada pelo Iphan após a promulgação do Decreto 3551/2000. Colaboração com o antropólogo Geraldo Andrello (UFSCar, ISA), publicada em: Ciência e Cultura 60:42-4, 2008.

2007_________________________________


Um duplo devir: quando a música eletrônica encontra o xamanismo e o xamanismo encontra a música eletrônica. Apresento neste texto o trajeto percorrido durante minha pesquisa de doutorado sobre as relações entre xamanismo e música eletrônica. A pesquisa focalizou o discurso nativo da música eletrônica de pista no Brasil e fontes etnográficas sobre xamanismo amazônico, mas também considera casos de outras partes do mundo. Primeiro apresentarei aquilo que chamei de “discurso nativo” acerca das relações entre música eletrônica e xamanismo, isto é, aquilo que as pessoas diretamente envolvidas com a produção, distribuição e consumo de música eletrônica de pista dizem sobre o potencial xamânico desse tipo de música. Depois abordarei aquilo que chamei de o “devir máquina” do xamanismo tradicional, ou seja, situações de contato em que xamãs indígenas, diante de máquinas e tecnologias modernas, afirmam encontrar nelas materializações mais ou menos completas de suas próprias capacidades, funções e técnicas rituais. Em seguida apresentarei algumas qualidades do transe maquínico da música eletrônica, considerando o discurso nativo e também o acadêmico. Por fim, apresentarei aqueles que se revelaram os princípios funcionais e parâmetros elementares da máquina sonoro-motora que parece corporificar o xamanismo distribuído da música eletrônica de pista. Texto publicado em: XIV Jornadas sobre Alternativas Religiosas en América Latina: Religiones/Culturas. Buenos Aires: CIE/UNSAM/iDaes, 2007.


Sociologia da imagem corporal. A abertura permanente da imagem corporal ao outro, as complexidades de sua ontologia processual e relacional, estavam no cerne da Sociologia da Imagem Corporal de Paul Schilder. Os desenvolvimentos recentes das pesquisas sobre o papel do corpo nos processos de socialização comprovam cada vez mais a força de idéias que ele apenas intuiu, sem ter como expor e comprovar adequadamente. O objetivo deste texto foi mostrar como tais intuições podem ser aproveitadas em novas pesquisas sem necessariamente reproduzir alguns pressupostos problemáticos que Schilder ainda compartilhava com seus antecessores e contemporâneos. Trata-se, em poucas palavras, de chamar a atenção para o papel ativo do outro na construção da imagem corporal. Não simplesmente de um “outro sujeito”, “outra pessoa”, “outro indivíduo”, “outro corpo” etc., mas sim de um “outro para outrem”: outra forma de alteridade ainda insuspeitada e desconhecida, abertura para outros mundos possíveis que nos transformam e dos quais nós apenas poderemos conhecer aquelas partes atualizadas em nossas relações com ele. Publicado em: TAVARES, Maria da Consolação G.C.F. (org.) O Dinamismo da Imagem Corporal. São Paulo: Phorte, pp.33-67, 2007.


Êxtase: do ser ao devir. Neste texto investigaremos as transformações por que passa a imagem corporal quando entramos em descompasso com aquilo que era até então vivido como o nosso corpo e entramos em uma relação modulativa e metaestável com um exterior desconhecido. O êxtase, nesta perspectiva, seria aquilo que se coloca entre a destruição de uma imagem corporal e a constituição de outra. Ele pode ter durações variáveis e ter conseqüências muito diversas para quem o experiencia, podendo inclusive ser mantido indefinidamente, controlado ou provocado intencionalmente através de técnicas específicas. Publicado em: TAVARES, Maria da Consolação G.C.F. (org.) O Dinamismo da Imagem Corporal. São Paulo: Phorte, pp.223-42, 2007.


Fotografia, cinema e velocidade. Cinema = fotografia + velocidade. É segundo essa equação que entendemos a idéia, formulada em 1936 por Walter Benjamin, de que o cinema já estava contido virtualmente na fotografia. É dessa relação entre cinema e fotografia, constituída sobretudo pelo encontro da velocidade de uma máquina com os limites de nossa percepção, que trata este texto, escrito em co-autoria com o pesquisador Márcio Barreto (FAC/Unicamp, CTeMe) e publicado em: Com Ciência: Revista de Jornalismo Científico 93, 2007.

Que século é este? Uma coisa que os textos reunidos neste volume certamente permitem perceber é a extrema complexidade e simplicidade da filosofia deleuziana, tudo ao mesmo tempo, como quando ele responde à pergunta “Quais são as precauções a serem tomadas para produzir um conceito?” dizendo: “Você liga a seta, verifica no seu retrovisor se um outro conceito não está ultrapassando; uma vez tomadas essas precauções, você produz o conceito”. Com efeito, uma ultrapassagem automobilística pode ser simples e complexa ao mesmo tempo, dependendo do ponto de vista. Resenha de A ilha deserta (São Paulo: Iluminuras, 2006), de Gilles Deleuze, publicada em: Foco: economia e negócios 48:64-5, 2007.

2006_________________________________


Xamaquinismos amazônicos. Se houvesse algum sentido em tentar propor uma definição de xamanismo, eu proporia a seguinte: trata-se de um conjunto de técnicas para entrar em contato com outros níveis da realidade, o que quer dizer ver o mundo de perspectivas outras do que aquela habitual, e em especial assumir aquela perspectiva que importa, aquela que faz alguma diferença, ou, nas palavras de Deleuze, “o bom ponto de vista, […] aquele sem o qual só haveria desordem e mesmo o caos”. Texto apresentado no seminário Ensaios Amazônicos, organizado por Laymert Garcia dos Santos (IFCH/Unicamp, CTeMe) e Eduardo Viveiros de Castro (PPGAS-UFRJ, NuTI) em conjunto com o Goethe-Institut São Paulo e o Zentrum für Kunst und Medientechnologie (ZKM) Karlsruhe, e realizado no SESC-SP da Avenida Paulista (São Paulo) de 8 a 10 de dezembro de 2006.


Transe maquínico – ou: o que pode uma máquina? O ambiente inteiro vibra com a intensidade sonora de 120 decibéis do Techno que pulsa a mais de 140 batidas por minuto. Meu corpo não me pertence totalmente; meu quadril, meu peito, meu pescoço, meus pés, minhas mãos, minhas articulações, todos os meus órgãos parecem rebelar-se, movimentando-se por conta própria. Pedaços das velhas paredes que me envolvem chegam a se soltar, abrindo rachaduras e me preocupando com a possibilidade de que a casa venha abaixo, literalmente. Mas poucos parecem preocupados. O som é poderoso. Publicado em: Nada 8:74-7, 2006.


Música eletrônica e xamanismo: técnicas contemporâneas do êxtase. Começamos com uma análise das relações entre música eletrônica de pista e xamanismo a partir de um assim chamado discurso nativo e descobrimos que elas se concentram principalmente na produção de uma experiência de transe pela imersão em um ambiente sonoro intenso, repetitivo e técnico. Depois, realizamos uma pesquisa bibliográfica sobre xamanismo indígena e sobre suas relações com a tecnologia moderna, que revelou não apenas a íntima relação entre xamanismo e tecnologia, mas também uma tendência do xamanismo tradicional a se distribuir tecnologicamente em situações de contato entre índios e brancos. Enfim, propomos uma interpretação da música eletrônica de pista como o som de uma máquina e de seu xamanismo como o uso dessa máquina pelo DJ e pelo seu público na produção de estados de transe maquínico. Esboçamos também as linhas gerais de uma metodologia para a verificação dessa proposta em pesquisas futuras. Esta pesquisa se insere num esforço mais amplo de investigar os maquinismos inconscientes que fazem funcionar a máquina capitalista contemporânea. Tese de Doutorado em Ciências Sociais, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 2006.


O analógico e o digital: tecnoestética, micropolítica e fetichismo na música eletrônica. Mas por que se preocupar tanto com a defesa de uma mídia? Por que não deixar simplesmente que cada DJ toque com a mídia que considerar melhor? E principalmente, por que, além de defender o uso do vinil, esse discurso de vê na aparente obrigação de deslegitimar com forte carga afetiva os DJs que utilizam CDs? Sendo a politização tecnoestética do discurso dos DJs um fato empírico, tentemos então conhecer em que termos ela se dá. Publicado em: Ricardo Rosas; Giseli Vasconcelos. (Org.). Net_cultura 1.0: digitofagia. São Paulo: Radical Livros, p.140-9, 2006.

2005_________________________________


O dentro e o fora. O que move o pensar? O que nos faz agir? Qual é o motor do desejo? Algo que se move no canto do olho. Algo que se ouve no limiar da audição. Uma ideia que quase não se pode ser expressa. Não tenhamos pressa em cruzar o limiar. Demoremo-nos ali, no meio, entre o dentro e o fora, instalados na fenda que os relaciona, assumindo uma perspectiva provisória. Façamos da investigação sobre os limites entre o dentro e o fora uma constante modulação destes próprios limites. Publicado em: Nada 5:18-25, 2005.


Politizar as tecnologias (entrevista a Laymert Garcia dos Santos). “[E]m vez de pessimista eu diria que sou um realista, com relação à questão do horizonte negativo. Acho que nós nos encontramos efetivamente num momento do andar da carruagem da história que se apresenta como um horizonte negativo. Acho infantil denegarmos isso […]. Acho que só encontraremos critérios para reconhecer os sinais que aparecem na direção de saídas (o que é diferente de encontrar saídas) se assumirmos o tamanho da encrenca. Se a gente ficar “brincando de Polyana” não vai dar.” Entrevista realizada junto com o grupo de pesquisa CTeMe e publicada em: Nada 5:4-17, 2005. [VERSÃO PDF]


Demasiadamente pós-humano (entrevista com Laymert Garcia dos Santos). Na entrevista a seguir, o sociólogo Laymert Garcia dos Santos discorre sobre sua trajetória intelectual. A ênfase recai sobre um dos pontos de maior interesse do pesquisador: a questão do “futuro do humano”, vista a partir de suas implicações filosóficas e do debate acerca da “politização da tecnologia” que ela suscita. A conversa foi conduzida pelos integrantes do grupo “Conhecimento, Tecnologia e Mercado” (CTeMe), coordenado por ele. Publicada em: Novos Estudos CEBRAP 72:161-75, 2005.


Os xamãs e as máquinas.
Veremos aqui alguns exemplos de como objetos técnicos “modernos” são incorporados por xamãs em algumas cosmogonias, cosmologias, escatologias e rituais, procurando com isso, contribuir para o aprofundamento de nossa compreensão tanto dos objetos técnicos em si quanto das práticas rituais xamânicas que fazem uso deles (nos termos de Eliade, as “técnicas do êxtase”). Afinal, por que é hoje sociologicamente correto dizer que “[o] xamã é o primeiro técnico”, que foram os seus ancestrais “os verdadeiros inventores de toda sorte de objetos técnicos”? Publicado em: Alegrar 2.


Algumas considerações sobre o estudo das relações entre música eletrônica e xamanismo
. Muito mais do que sons organizados, “música” passa a ser aqui a desterritorialização de hábitos sensório-motores que não precisam, na origem, ser musicais, bastando que tragam consigo a potência produtora dos maquinismos que formam a infra-estrutura de nosso mundo sensível. A verificação dessa potência não pode ser feita diretamente, mas apenas pelos seus efeitos. No caso da música eletrônica, tais efeitos se manifestam na sua maior ou menor eficácia na produção da dança, interpretada como evidência da existência de relações funcionando aquém/além de nossa percepção mas acessíveis aos DJs através de técnicas específicas. Texto apresentado na reunião do Núcleo de Transformações Indígenas (NuTI/UFRJ-Museu Nacional) de 14 de outubro de 2005 e atualmente disponível na página do Núcleo de Antropologia Simétrica (NAnSi/UFRJ-Museu Nacional).

2004_________________________________


O analógico e o digital: a politização tecnoestética no discurso dos DJs. Desejo apresentar e problematizar o campo de forças produzido pelo agenciamento estético, técnico e político de diferentes mídias sonoras no discurso de DJs (Disc Jockeys) em contextos específicos (revistas especializadas, listas de discussão na Internet, workshops etc). Será abordada a valorização dos discos de vinil (mídia analógica) em detrimento dos CDs e outras mídias digitais, e também o caso paradigmático do Final Scratch, misto de software e hardware. Os argumentos estéticos (presença de determinadas freqüências sonoras), técnicos (o controle direto do som com as mãos) e políticos (valorização da cena underground através da compra de certos discos) dos defensores do vinil serão considerados à luz de discursos discordantes e da análise técnica das mídias. Espera-se contribuir para o corpo de conhecimento que vem sendo desenvolvido no Brasil sobre a cultura da música eletrônica produzida por DJs. Resumo publicado em: XXIV Reunião Brasileira de Antropologia: Programa e Resumos, p.282, 2004.


Código e criação: destilando intuições. O que é um código? Em diferentes domínios utiliza-se a noção de «código» como um termo genérico para aludir ao conjunto de relações ou conexões formais, regras, convenções que definem uma determinada composição. Assim, «código» pode remeter a formas de organização sociais, leis ou normas jurídicas que regulam relações entre «pessoas» (mais ou menos formalizadas em um «código de conduta», «código de ética», ou nos códigos civil/penal/comercial do direito ocidental moderno). A noção de código pode também se referir a regras de combinação e desenvolvimento (de obras musicais, por exemplo) ou a um repertório de símbolos. No campo da informática, fala-se em código para aludir às instruções escritas em uma linguagem de programação (código fonte) ou a comandos que podem ser «entendidos» diretamente pelo computador (código objeto), isto é, cadeias de dígitos binários que representam caracteres, elementos de imagem ou de sinal. E no sentido actualmente prevalecente na biologia, o «código genético» é entendido como o conjunto de seqüências de três nucleotídeos de adn, sendo a codificação um mecanismo de «transcrição» mediante o qual a informação genética contida no adn dos cromossomos se transcreve no ácido ribonucléico e nas proteínas. Mas, será que essa noção, aparentemente comum em diferentes disciplinas e áreas de conhecimento, apresenta ao menos alguns traços característicos que lhe outorgariam um valor significativo especial? Texto escrito em co-autoria com Emerson Freire (IG/Unicamp, CTeMe) e M. Cecilia Diaz-Isenrath (IFCH/Unicamp, CTeMe) e publicado em: Nada 3:68-80, 2004.


Código e criação: destilando intuições. Codificar é sempre selecionar, e o que fica de fora em cada caso é sempre uma reserva de liberdade e de indeterminação. Mas se por um lado o código não coincide com o codificado, por outro é apenas por seu intermédio que este pode entrar em uma relação. Codificar é criar, tornar atual algo que, sem isso, permaneceria virtual. Texto escrito em co-autoria com Emerson Freire (IG/Unicamp, CTeMe) e M. Cecilia Diaz-Isenrath (IFCH/Unicamp, CTeMe) e publicado em: Multiciência 3, 10 out., 2004.


Arte, ciência e terrorismo: a produção de conhecimento e o sagrado. Atentado terrorista “e” obra de arte, artista “e” cientista, policial “e” terrorista, telefone da polícia “e” data do acontecimento. Diferentemente da lógica digital do “apocalipse de Bush”, que busca expulsar toda sobreposição, toda confusão, tudo aquilo, enfim, que não pode ser codificado, em busca de um “controle total” da situação, iniciativas como as de Stockhausen e do Critical Art Ensemble trabalham contra toda redução ao controle e a favor da multiplicação de conexões, da produção de possibilidades e da criação. Publicado em: Com Ciência: Revista de Jornalismo Científico 56.


Religião e progresso em Condorcet: gênio, técnica e apocalipse. Neste texto buscarei tratar da forma como religião e progresso se relacionam em Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano, de Condorcet. Sabendo que esta não é uma obra isolada, antes se inserindo dentro da produção mais ampla do autor, farei referência também, quando necessário, a outros estudos que contemplem essa produção e assim contribuam para a reflexão. Farei ainda uma investigação acerca da possibilidade, muito apontada mas pouco pequisada, de se encontrar, na visão de Condorcet da história e do futuro da humanidade, uma profecia de cunho milenarista. Este texto poderia também ser lido como um contraponto reflexivo acerca do emprego do conceito de “religião” na Sociologia contemporânea. Pois se é verdade que o pensamento que pensa a sociedade atual não poderia se pautar pelas categorias e objetos do pensamento iluminista , não é menos verdadeiro que tais categorias e objetos contribuíram para a sua forma atual na condição contextual de uma “tradição sociológica”. Publicado em: Temáticas 23/24:193-230, 2004.

Máquinas sociais: o filo maquínico e a Sociologia da Tecnologia. Texto apresentado no evento Arte, tecnociência e política, realizado pelo Grupo de Pesquisa CTeMe no IFCH/Unicamp no dia 25 de outubro de 2004.

“Dilemas da civilização tecnológica”. Resenha do livro Dilemas da civilização tecnológica (Lisboa: Imprensa das Ciências Sociais, 2003), coordenado por Hermínio Martins e José L. Garcia, publicada no número 7 do periódico Ambiente e Sociedade.

Uma resposta para “Textos

  1. victor cunha

    obrigado,vai servir para meu melhor conhecimento,na sociologia da arte.

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